Teoria

CHINA ANTIGA E O MARXISMO

China dos imperadores: singularidades de determinada formação social [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

sábado 4 de junho de 2016| Edição do dia

A outra característica, indissociável das demais, é que a história da China é a das rebeliões camponesas de tempos em tempos. Inclusive levando novas camadas camponesas ao poder. Mas onde nenhum poder vencedor se estabilizava historicamente. As novas divisões de terras, novas dinastias de base camponesa, jamais conseguiam retirar a sociedade chinesa do seu círculo vicioso, como diz Trotski,

“É certo que na antiga China as revoluções levaram ao poder o campesinato ou, mais precisamente, os dirigentes militares das insurreições camponesas. Isto levava, a cada vez que acontecia, a uma nova divisão da terra e à instauração de uma nova dinastia ´camponesa´, a partir da qual tudo começava de novo; uma nova concentração de terra, uma nova aristocracia, um novo sistema de rapina e uma nova insurreição. Enquanto a revolução conserva seu caráter claramente camponês a sociedade é incapaz de sair destes círculos viciosos. Esta foi a base da história antiga da Ásia, incluindo a Rússia. Na Europa, a partir de fins da Idade Média, toda insurreição camponesa que triunfava não levava ao poder um governo camponês mas sim um partido urbano de esquerda. Para formular com mais precisão, uma insurreição camponesa tinha êxito exatamente na medida em que conseguia fortalecer a situação do setor revolucionário da população urbana” (TROTSKI, 2015, p. 56).

Essa característica da história da civilização chinesa é muito pouco entendida fora dos limites do marxismo. Os historiadores oficiais e os livros do segundo grau para nada se ocupam de explicar tais elementos que permanecem invariavelmente obscuros e como se fossem um enigma bem guardado ou impenetrável “enigma chinês”. Por isso não será demasiado retomar outro autor marxista que traz esclarecedores argumentos históricos a esse respeito.
Segundo Mandel,

[...] “durante as primeiras etapas de cada dinastia, a função objetiva da burocracia era proteger ao Estado e ao campesinato das exigências da nobreza latifundiária, para permitir a reprodução ampliada (os trabalhos de irrigação, a centralização do sobreproduto social, garantias para manter um nível adequado de produtividade do trabalho na comunidade etc). Esta função favorecia – de maneira extremamente generosa na maioria das vezes – à burocracia, que era remunerada pelo Estado dedicando-lhe parte do produto social excedente centralizado. No entanto, o burocrata seguia dependente do capricho do Estado, encarnado na corte e no imperador. Sua posição nunca estava garantida” (MANDEL, 1994, p. 53).

Mas a história não se detinha. A população continuava crescendo, as contradições sociais e da economia se acumulavam, a pressão sobre o campesinato aumentava,

[...] “a produtividade do trabalho agrícola declinava. Apareciam então como fenômenos gerais o êxodo rural, as rebeliões camponesas, a bandidagem e as insurreições populares. A dinastia perdia ´o mandato do céu´, isto é, sua legitimidade. Naturalmente em um momento dado se produzia o colapso da dinastia em decadência. Uma nova dinastia, que na maioria dos casos surgia das raízes camponesas, restaurava novamente a independência relativa do Estado e sua burocracia com relação à nobreza latifundiária” (MANDEL,1994, p. 54).

Essa foi à dinâmica histórica de peso na China. Foi sua história imperial, que marca de maneira profunda seja a cultura camponesa, seja o formato da elite e sua ideologia. Onde os mundos da base social e da elite imperial não se tocavam.
O século XIX vai encontrar uma China pressionada pela Inglaterra, esta agora liberada das guerras napoleônicas em que esteve envolvida até 1815 e que passa a forçar a exportação de ópio a partir de 1818 para submeter progressivamente a China. E liquidar seu superávit externo [a China se comportava como uma “autarquia” que exportava muito e importava pouco].

A dinastia Qing, que domina a China no século XIX, invariavelmente responde com uma postura vassala com relação aos ingleses, senhores dos mares. Na base do poder crescem revoltas populares, camponesas. Ressurge a seita “taoista” Lótus Branco. E mais adiante voltará outra seita secreta, a Tríade, que promove várias revoltas na primeira metade do século XIX.

O império prefere curvar-se às atrocidades da Inglaterra para preservar seu exército em posição de combate contra as rebeliões civis do seu próprio povo. Aceita reabrir o porto de Cantão e outros, paga indenizações, chega a doar Hong Kong. Em certo momento declara Xangai [a mais “europeia” das cidades] um porto internacional.

Total capitulação ao saque europeu. Se sucedem duas “guerras do ópio”, a da década de 1840 e a dos anos 1850.

Em termos de força e iniciativa política, a burguesia chinesa se comporta como força morta. Mas as revoltas continuam. Os camponeses sublevados chegam a tomar regiões inteiras como será o caso, em 1851 da revolta taiping que quase toma Pequim. A revolta do Lotus Branco [Nian] ressurge no norte.

O país está seriamente convulsionado, fragmentado em zonas nas mãos de “senhores da guerra”, em síntese, ao final a dinastia é salva pelos mandarins; estes armam o império e buscam apoio das grandes potências, vencendo aquelas duas revoltas.

A China, no entanto, não é mais a mesma. No argumento de Letizia,

“A [...] China que sai da guerra dos taiping e Nian não é mais dominada pela dinastia manchu, mas sim pelos mandarins chineses, só que erguidos contra a construção de uma nação chinesa, porque a guerra civil se dera em meio a uma agressão estrangeira e o povo chinês fora vencido por eles, em aliança com os mesmos estrangeiros. As estimativas cautelosas do massacre oscilam entre 20 e 30 milhões de vítimas [...] Vem a grande fome, fala-se em [...] uma China aliviada da pressão demográfica” (LETIZIA, 2012, p.91).

O grande rio navegável da China, o Yangtsé fora aberto às potências ocidentais.
A classe mercantil chinesa permanece no papel de burguesia compradora. A China, em pura sujeição semicolonial, desenvolve contradições, a começar da sua relação internacional 2012, p.92.

Uma contradição que foi citada – e é destacada por (Letizia) - é a de que a “grande guerra civil” do século XIX só foi vencida ao preço de descentralizar a China como império; forças mercenárias foram recrutadas pela pequena nobreza rural a serviço dos “letrados” fieis aos Qing, estruturando-se um “novo aparelho militar feudal [regional] que mantém de pé o Estado Qing”. Por essa via, as províncias adquirem grande autonomia, formatando-se um “novo império vitorioso” que, além de descentralizado é impotente.

O Japão que desde 1871 vinha se industrializando, irá se impondo como potência regional e rapidamente se lançará sobre a China além de conflitar com a Rússia.

As forças políticas da China moderna vão surgir

[...] “da nova relação de forças na sociedade chinesa, estabelecida sob a agressão externa e os efeitos da grande guerra civil do século XIX, entre, de um lado a massa degradada de camponeses, artesãos e proletários urbanos, acrescida de um operário industrial nascente, e, de outro, o Estado chinês dos letrados, protetor das novas relações capitalistas, que se desenvolvem sob a tutela estrangeira “(LETIZIA, 2012, p.95).

A China, à medida em que vai entrando no século XIX, com sua contraditória inserção no mercado mundial e entrada em cena do proletariado urbano mais adiante, contará com condições para romper com aquele passado.

Uma boa análise daquele passado antigo é descrita por TROTSKI, (1930):

“Há séculos a história da China é a história de formidáveis insurreições de um campesinato despossuído e faminto. Ao menos em cinco ocasiões, nos últimos dois mil anos, os camponeses conseguiram efetuar uma repartição total da propriedade latifundiária. Em cada caso, o processo de concentração recomeçou e seguiu até que o crescimento da população provocou uma nova explosão parcial ou geral. Este círculo vicioso refletia o estancamento econômico e social. [...]
[...] O campesinato, por mais revolucionário que seja não pode criar um governo independente: apenas pode apoiar ao governo de outra classe, da classe dominante urbana. Em todos os momentos críticos o campesinato segue à burguesia ou ao proletariado [...]

[...] Apenas a inserção da China na economia mundial abriu novas possibilidades. O capitalismo invadiu a China de fora. Sua burguesia atrasada se converteu em intermediaria entre o capital estrangeiro e as massas implacavelmente exploradas de seu próprio país. Os imperialistas estrangeiros e a burguesia chinesa combinam os métodos de exploração capitalista com os métodos de opressão e escravização feudais através da agiotagem [...]

[...] A história da China, da Rússia e de outros países, regista mais de uma ocasião na qual o campesinato organizou exércitos guerrilheiros que combateram com valentia e força sem par. Mas jamais foram mais que exércitos guerrilheiros, vinculados a uma única província, incapazes de realizar operações estratégicas centralizadas em grande escala. Apenas o predomínio do proletariado nos centros industriais e políticos decisivos assenta as bases necessárias para a criação de um exército vermelho e a extensão do sistema soviético ao campo. Para aqueles que são incapazes de assimilar este conceito a revolução é um livro fechado com sete selos”.

O colosso chinês, com suas heroicas rebeliões camponesas no século XIX, atravessa aquele século tensionado, entre a pressão da potência industrial capitalista inglesa e os movimentos da burocracia estatal chinesa, defensora dos latifundiários, tratando de preservar seus privilégios de velha dinastia imperial decadente.

Tudo isso em um mundo que sinalizava elementos para uma outra história, em direção oposta, embora ainda em seu formato elementar.

Referências:
MANDEL, E,1994. El poder y el dinero México: Siglo Veintiuno Editores.
TROTSKI, Leon, 2015. Três concepções sobre a Revolução Russa. São Paulo: Iskra.
TROTSKY, León, 1930. Manifesto da Oposição de Esquerda sobre a China. Disponível no site: http://www.ceip.org.ar/Manifiesto-sobre-China-de-la-Oposicion-de-Izquierda-Internacional
LETIZIA, Vito, 2012. A grande crise rastejante. São Paulo: Ed Caros Amigos.2011

[Recomendamos a leitura do livro recém-lançado pela Iskra/Centelha, com antologia de textos de Marx e Engels intitulado “Sobre a China”, imperdível para a compreensão do método marxista no exame da China e da geopolítica do século XIX, dentre outros elementos]




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