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Chile: perseguição política e intimidação a trabalhadores da saúde que denunciam condições laborais

Já são vários os ataques com as e os trabalhadores da linha de frente que levantam a voz contra as péssimas condições laborais e as de atendimento à população: processos desde a direção dos hospitais e mensagens anônimas, são os exemplos de perseguição política e ameaças a quem decide denunciar.

segunda-feira 18 de maio| Edição do dia

O aumento dos casos de COVID-19 já superam os 40 mil no país, sendo a Região Metropolitana de Santiago que lidera os casos de contágio. Hospitais caindo aos pedaços, péssimas condições laborais e falta de insumos e leitos, são as denúncias que vemos nas redes sociais feitas pelas e pelos trabalhadores da linha de frente.

A região de Antofagasta (Norte do Chile) é uma das mais atingidas pelo aumento dos contágios, sendo a segunda a nível nacional com maior ocupação de leitos de UTI. O governo como forma de “deter os contágios” impôs uma quarentena total em várias regiões, responsabilizando a população dos aumentos quando até o dia de hoje, não existem testes massivos para a população ao mesmo tempo em que são milhares que tem que seguir trabalhando, viajando amontoados no transporte público para que o setor não essencial siga gerando lucro à custa da vida da população.

Nos hospitais já são centenas de trabalhadoras e trabalhadores da primeira linha que devem estar em quarentena por contato com os infectados, isso é consequência da exposição ao vírus e da não realização de testes para detectar de maneira precoce às pessoas que sejam assintomáticas, além das condições laborais nas quais o trabalho destes profissionais se realizam.

No mês de março passado em Antofagasta ocorreu uma manifestação das e dos trabalhadores da limpeza contratados da empresa concessionária Siglo XX, que impulsionaram um comitê de higiene e segurança com delegados por área de trabalho, colocando a demanda de insumos e melhora de suas condições de trabalho no centro, organizando uma paralisação de um dia inteiro e conseguindo o que exigiam, sendo a conquista principal a licença com 100% do salário pago aos trabalhadores maiores de 60 anos e pertencentes ao grupo de risco.

Porém, na sexta-feira passada a dirigente do sindicato nº 1 da empresa concessionária Siglo XX, Silvana Gonzáles, recebeu uma mensagem em seu telefone pessoal, onde questionavam seu papel como dirigente de um sindicato, mulher e mãe, referindo-se a que as mulheres não podem ter uma vida pública, nem muito menos política, destinando-as ao trabalho doméstico com a criação dos filhos e os cuidados do lar, utilizando fotos de sua família para amedrontar, isso com o objetivo de meter medo para que ela deixasse de organizar aos trabalhadores, para que prefira “se preocupar com sua família” em vez de estar “defendendo aos trabalhadores”.

Por outro lado, Néstor Vera, médico do centro de saúde também foi ameaçado, desta vez pela própria direção do Hospital Regional de Antofagasta, apresentaram um procedimento administrativo contra ele devido a sua intervenção no caso de contagiados da SEDILE, como médico da comissão de higiene e segurança do sindicato nº 1 da empresa Siglo XX, onde junto com Silvana denunciaram a falta de cumprimento de protocolos no manejo de funcionários contagiados e contatos, expondo a saúde dos trabalhadores, gerando um descontentamento nas redes sociais devido a atuação do hospital e das chefias para enfrentar os casos. Semanas depois recebeu a notificação por parte da direção do hospital de que se abriria um processo administrativo por não seguir a conduta regular, prejudicar a imagem do hospital regional como entidade pública, processo que foi discutido com a Associação de Médicos e a FENATS, que prestou total apoio ao médico diante dessa perseguição política, o que fez com que o processo fosse rebaixado para uma advertência. Mesmo assim segue sendo inaceitável e um exemplo claro de perseguição política para quem busca organizar e levantar a vos pelas trabalhadoras e trabalhadores.

Estes casos de intimidação com os funcionários da saúde que denunciam as condições laborais e as que se encontram a saúde pública se somam ao caso dos trabalhadores que vimos na televisão e em todas as redes sociais, esta vez foi Gloria Pinto e Mauricio Navarro, ambos trabalhadores da saúde e funcionários do hospital San José em Santiago, o mesmo hospital que teve exposto várias debilidades, como o colapso do necrotério, tanto Gloria quanto Mauricio foram quem denunciaram o quanto é miserável o sistema de saúde onde o colapso e a falta de respiradores ocasionaram a morte de um paciente no qual não puderam intervir imediatamente, denúncia que assim como a outra recebeu ameaças e censura por parte da direção, inclusive com processos administrativos.

Não se deve aceitar nenhum tipo de represália nem perseguição política a quem exige melhores condições de trabalho e também uma mudança no sistema de saúde pública, que demonstrou não dar condições para toda população que adoece com COVID-19. Estes trabalhadores que hoje são perseguidos pelas direções do hospital e recebem mensagens anônimas de ameaças não são casos isolados, é mais, expressam a linha do governo, do ministro de saúde do Chile Mañalich e de certas direções de hospitais, como também dos empresários e setores reacionários, de calar as denúncias onde se demonstra o miserável sistema do qual tanto se vangloria o ministro Mañalich.

Não temos o melhor sistema de saúde do planeta, temos um sistema de saúde miserável que só zela pelos interesses de meia dúzia enquanto são milhões de trabalhadoras e trabalhadores e usuários que sofrem as consequências de um sistema de saúde que cai aos pedaços. Os grêmios e sindicatos da saúde que também tem denunciado esta situação devem oferecer toda sua solidariedade a estes trabalhadores e rechaçar qualquer tipo de perseguição.




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