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Chile: As mobilizações pedem a queda de Piñera, mas o Partido Comunista e a Frente Ampla se preparam para salvá-lo

As mobilizações massivas em todo o Chile, que questionam profundamente o regime herdado da ditadura, estão cada vez mais pedindo a cabeça de Piñera. No entanto, a política dos dois principais partidos de esquerda poderia estar prestes a salvá-lo.

sexta-feira 25 de outubro| Edição do dia

O Chile está passando por uma crise política e social que questiona profundamente o regime herdado da ditadura de Pinochet. Após uma semana de protestos e repressão brutal, as mobilizações em massa estão cada vez mais exigindo a queda do presidente Sebastian Piñera. A convocação de uma greve geral para esta quarta e quinta-feira a partir de setores estratégicos da classe trabalhadora e as manifestações mostram o caminho para derrotar o governo e o regime, mas eles encontram limites: a política e a estratégia dos principais partidos de esquerda que dirigem as principais organizações de trabalhadores, estudantes e movimentos sociais, e que hoje podem desempenhar um papel fundamental na salvação de Piñera.

Nesta quarta-feira, 23 de outubro, ocorreu a jornada de mobilização mais massiva destes últimos dias, no marco do primeiro dia de Greve Geral. Mais de um milhão de pessoas saíram às ruas em todo o país, rechaçando a repressão, o Estado de Emergência e os anúncios feitos pelo governo de Piñera na noite anterior. Ninguém ficou conformado com a proposta do governo; ninguém quer migalhas que perpetuem esse regime apodrecido herdado da ditadura e que mantém cada um dos negócios empresariais que jogam com as vidas do povo trabalhador, de setores populares, mulheres e juventude. Mais de um milhão de pessoas gritaram nas ruas “fora Piñera”, somado ao fato de que a hashtag #RenunciaPiñera se manteve como “tendência” no Twitter todos estes dias.

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Em um mundo paralelo, e ao mesmo tempo em que centenas de milhares se encontravam nas ruas desafiando o governo e a repressão das “forças da ordem”, no Congresso ocorria uma sessão especial da Câmara dos Deputados, onde a direita de Piñera e a ex-Concertação (partidos de centro e esquerda que co-governaram por 30 anos desde o final da ditadura) fizeram uma manobra e uma armadilha para discutir medidas sociais demagógicas e mínimas que não tocam a herança da ditadura e que tem como objetivo desviar nossas lutas para os salões do parlamento repletos de políticos milionários. Como pode ser que o Congresso estivesse discutindo medidas enquanto os militares estão no comando de quase todo o país! Como pode ser que aceitemos sua demagogia, enquanto o povo continua a ser morto, enquanto persistem os toques de recolher e são cada vez mais denúncias de espancamentos, abusos e torturas!

Adaptados aos ritmos do regime e suas instituições, os parlamentares da Frente Ampla (FA) e do Partido Comunista (PC) decidiram participar da sessão “para que as instâncias legislativas sigam seu curso”, ao invés de estarem nas ruas, agitando com mais força o chamado à greve geral até que caia o governo de Piñera e o Estado de Emergência, enfrentando a repressão policial e militar junto às centenas de milhares de manifestantes. Mas esta localização política não é casual, pois está em consonância com a estratégia que se expressa mais claramente nas reivindicações que estas organizações propõem. Falaram inclusive de “greve legislativa”, e legitimaram estas sessões escandalosas com o país militarizado. Qualquer democrata consequente não apenas deve denunciar, mas sim rechaçar essas manobras sem dar nenhuma legitimidade a esta enganação parlamentar, e desenvolver a luta e a greve geral que é onde será decidido o destino do país.

A armadilha institucional do “diálogo social” com o governo. Nenhuma confiança no parlamento!

Nessa quarta-feira, 23, o Partido Comunista emitiu uma declaração em que apresenta sua análise política para este momento. Aludem ao fato de que o governo de Piñera não escuta as organizações sociais e cidadãs, e, especificamente, se referem à “Mesa da Unidade Social”, composta por organismos – em sua maioria dirigidos pelo PC e pela FA – como a CUT (principal central sindical), o Colégio de Professores, a Confech (entidadel estudantil), a Coordenação No + AFP (contra a aposentadoria privada), Confusam (saúde), CONES (associação de estudantes secundaristas), a Federação dos Trabalhadores do Cobre, entre outras.

“O único espaço de diálogo legítimo e democrático é o que considere, em igualdade de condições, a MESA DA UNIDADE SOCIAL. O governo deve acabar com a exclusão que tenta impor”, afirmam em sua declaração, onde exigem participar das negociações, diálogos e acordos que o governo já vem fazendo com os partidos da velha Concertación (Democracia Cristã, Partido Radical e Partido pela Democracia), como via institucional para salvar a cabeça de Piñera e o regime herdado da ditadura.

Em seguida, apontam em sua declaração que “Piñera tem que responder. Ele e seu governo são os responsáveis por esta crise. Impulsionamos uma acusação constitucional [1] por grave abandono do Estado de Direito, com consequências graves para a sociedade e a democracia”.

A estratégia do Partido Comunista ao pedir o diálogo é legitimar este governo assassino que chama para um diálogo enquanto carrega mortos em suas costas. Nenhum diálogo com este governo, é necessário ampliar a greve e a mobilização para tirar os militares das ruas e seu Estado de Emergência e seguir até que caia o governo. Enquanto milhões nas ruas gritam “fora Piñera”, sendo este um grande clamor popular, o PC abandona esta luta ou a deixa como algo completamente testemunhal para entrar em um diálogo completamente estéril, enquanto os militares continuam nas ruas. Não a este diálogo social!

Sua estratégia é poder integrar “o pacto social” que é construído pelos partidos do regime para se salvar desta crise, os quais tentam, por meio de pequenas reformas, não perder tudo e tirar o povo trabalhador, mulheres, povo pobre e juventude das ruas. Eles já disseram na “Mesa da Unidade Social” há quatro dias, ao convocar a greve: “as organizações presentes manifestam sua decisão de convocar uma grande greve geral que esvazie as ruas do país”. A aposta do PC não é convocar uma greve geral para que batalhões da classe trabalhadora passem à linha de frente, muito menos impulsionar a auto-organização através de coordenações e assembleias de trabalhadores, estudantes e jovens para que com esta força e organização se derrube o governo e este regime; mas sim impulsionam a “greve geral” para pressionar e se colocar em melhores condições “que permitam iniciar de maneira real um diálogo social e político”, tal como afirmam em suas declarações.

Por sua vez, as organizações políticas da Frente Ampla – que irrompeu no cenário nacional afirmando ser uma “alternativa ao duopólio” deste regime podre – nesta quarta-feira decidiu levantar a exigência de renúncia do ministro do Interior e mão direita de Piñera, Andrés Chadwick, e o “advertiram” que se não o fizer “apresentarão uma acusação constitucional”.

“O ministro abandonou seus deveres, e, portanto, deve renunciar”, disse Gonzalo Winter, deputado da Convergência Social (parte da FA), se referindo ao pinochetista Chadwick; a deputada e presidenta da Revolução Democrática (também parte da FA), Catalina Pérez, assegurou por meio de sua conta de twitter que não vê “a possibilidade de que você, Andrés Chadwick, conduza o gabinete de um Governo que reconstrua o diálogo democrático”; e Gael Yeomans, presidenta da Convergência Social, afirmou que as ações de violência e repressão “tem responsabilidade política e acreditamos que hoje deve ser assumida pelo governo, e, neste caso, em particular, devido à ação que do ministro do Interior nesta matéria, vimos exigir como Convergência Social a renúncia do ministro Chadwick”.

Esta política está completamente aquém dos acontecimentos e da luta e de milhões, e não é mais do que uma armadilha “pela esquerda” para desviar nossa luta. Nem sequer é “renuncia Piñera”, que também é pedido por milhões, mas apenas seu ministro. Tanto o PC como a FA apostam suas fichas na estratégia institucional da acusação contra Chadwick, mas o que isso significaria caso se concretizasse? Implicaria que uma instância como o Senado – composto em sua maioria por membros do Chile Vamos (coalizão direitista de Piñera) e de partidos da velha Concertación, como a Democracia Cristã – votasse a favor de derrubar Chadwick ou o próprio presidente; implicaria que uma medida assim prosperasse entre os deputados. Por acaso será o Senado “binomial” que fará Piñera e seu braço direito caírem? Ou os deputados que inclusive rechaçaram a acusação contra Cubillos? Não podemos confiar nas armadilhas do Parlamento! Temos que confiar na força demonstrada por milhões nas ruas!

Com a força de milhões, organizemos uma grande Greve Geral ativa até que caia Piñera e este regime herdado da ditadura

A enorme força de milhões nas ruas demonstra que com organização e mobilização podemos derrubar o governo de Piñera e todo este regime desacreditado. Já existem exemplos de auto-organização em setores da classe trabalhadora, junto a estudantes, jovens e mulheres.

Vemos em Antofagasta com o Comitê de Emergência e Resguardo impulsionado a partir do comunal do Colégio de Professores, e que vem cumprindo o papel de articulador com outros setores de trabalhadores como os portuários, funcionários públicos e mineiros, somando-se a estudantes da Universidade de Antofagasta que se mobilizaram em conjunto com a cidade mineira e colocaram de pé assembleias de coordenação; vemos no exemplo dos trabalhadores da saúde do Hospital Barros Luco, que junto a estudantes, trabalhadores de outros setores e estudantes vêm realizando assembleias no seu território, preparando a greve geral, e que ontem, quarta-feira, marcharam conjuntamente para a Praça Itália sob o grito de “fora Piñera”; outro exemplo de articulação é o impulsionado a partir do Sindicato GAM, que junto a outros sindicatos da cultura, estudantes e jovens, levantaram o “Cordão Territorial Santiago Centro”, que na última terça-feira realizou uma assembleia onde decidiram fazer o chamado à greve geral até que Piñera e o Estado de Emergência caiam, e também defenderam a política de emergência de Assembleia Constituinte Livre e Soberana baseada na organização em todos os espaços; e também se mostra em Valparaiso, onde na terça também se realizou uma massiva assembleia entre trabalhadores e estudantes na Universidade de Playa Ancha, com o propósito de conformar um amplo comitê para a luta que coordene as distintas iniciativas de auto-organização, entre outros exemplos.

Estes exemplos de coordenação entre setores e de auto-organização mostram o caminho a seguir para impulsionar uma grande greve geral ativa e contínua, que transforme em realidade a queda do governo de Piñera e deste regime. Os organismos sindicais e estudantis devem colocar suas tribunas e sua força à disposição de impulsionar estes espaços para que a força demonstrada nas ruas por milhões de trabalhadores, estudantes, jovens e o povo pobre continue de fortalecendo.

O único caminho sério para conquistar cada uma das reivindicações exigidas pela população, como por fim às Administradoras de Fundos de Pensão para ter aposentadorias dignas, um salário equivalente ao custo de vida de uma família, conquistar a redução da jornada de trabalho sem que a classe trabalhadora seja prejudicada em detrimento dos empresários, ter edução, saúde e moradia para todos, conquistar um transporte estatal e gerido pelos trabalhadores e usuários, entre outras reivindicações, é derrubando o governo empresarial de Piñera e todo este regime herdeiro da ditadura.

Nós, que nos reivindicamos socialistas revolucionários, apostamos em um governo operário de ruptura com este sistema capitalista. Sabemos que esta perspectiva não é compartilhada neste momento pela maioria, e que o governo de Piñera e o regime buscarão a todo custo desviar a luta para salvar sua pele. Por isso propomos como medida de emergência democrática uma Assembleia constituinte Livre e Soberana, instaurada a partir da queda do governo e das instituições do regime neo-pinochetista. Livre e Soberana, que decida todas as medidas sem nenhuma restrição de nenhum tipo e sem nenhum outro poder que a limite, para que seja o povo trabalhador, os setores populares e a juventude quem decida como responder a esta crise e como resolver os problemas democráticos e estruturais que afligem a imensa maioria.

Sabemos que os grandes poderes e os empresários defenderão com unhas e dentes seus interesses e se oporão às medidas que sejam tomadas por uma instância assim, por isso é vital constituir assembleias, coordenadorias e comitês a partir dos quais surja a força para enfrentar a resistência empresarial e deste regime, que abra caminho para a luta por um governo das e dos trabalhadores de ruptura com os capitalistas como única forma séria para conquistar de maneira integral nossas aspirações sociais e democráticas.

[1] Mecanismo parecido com o Impeachment




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