Economia

ECONOMIA PÓS-GOLPE

Chefe da CNI defende 80 horas de trabalho semanais inspirado na reforma trabalhista da França

sexta-feira 8 de julho de 2016| Edição do dia

Após mais de duas horas de reunião com o presidente interino Michel Temer e com cerca de 100 empresários do Comitê de Líderes da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, disse nesta sexta-feira que, para o governo melhorar a situação do déficit fiscal, serão necessárias “mudanças duras” tanto na Previdência Social quanto nas leis trabalhistas.

Temer deixou o evento sem falar com a imprensa. Em entrevista depois do encontro, Andrade sugeriu que o Brasil adote iniciativas similares às do governo francês, que, de forma independente do Parlamento, conseguiu autorizar uma carga horária de até 80 horas semanais e de 12 horas diárias para os trabalhadores.

“Um déficit de R$ 139 bilhões [para 2017]. Acho que foi uma demonstração de responsabilidade do governo apresentar as dificuldades que têm e o esforço que será feito para contornar essas dificuldades”, afirmou o presidente da CNI.

Segundo ele, ao considerar que, em 2016, o déficit será R$ 170 bilhões, a conclusão é que haverá, em algumas áreas, crescimento de despesas governamentais. “É claro que a iniciativa privada está ansiosa para ver medidas duras, difíceis de serem apresentadas. Por exemplo, a questão da Previdência Social. Tem de haver mudanças na Previdência Social. Caso contrário, não teremos no Brasil um futuro promissor”, acrescentou. Robson Braga defendeu também a implementação de reformas trabalhistas. Para ele, o empresariado está “ansioso” para que essas mudanças sejam apresentadas “no menor tempo possível”.

Vimos agora o governo francês, sem enviar ao Congresso Nacional, tomar decisões com relação às questões trabalhistas. No Brasil, temos 44 horas de trabalho semanal. As centrais sindicais tentam passar esse número para 40. A França, que tem 36 passou, para a possibilidade de até 80 horas de trabalho semanal e até 12 horas diárias de trabalho. A razão disso é muito simples. A França perdeu a competitividade de sua indústria com relação aos demais países da Europa. Agora, está revertendo e revendo suas medidas, para criar competitividade. O mundo é assim e temos de estar aberto para fazer essas mudanças. Ficamos ansiosos para que essas mudanças sejam apresentadas no menor tempo possível”, argumentou este cínico e inapresentável empresário.

Na verdade, a conta total contabiliza 60h semanais, e não 80h como disse Robson. Aqui, a vontade de explorar venceu a matemática.

Não há dúvidas de que os empresários e suas confederações, que mesmo beneficiados durante anos pelos governos petistas, apoiaram o golpe institucional, querem um regime de trabalho que faça inveja às manufaturas de Londres do século XVIII.

Robson Andrade e a CNI defendem reformas duras "a la Hollande": reformar a Previdência Social, defendendo a idade mínima para aposentadoria nos 65 anos; a regulamentação da terceirização do trabalho; acelerar o processo de privatização das estatais e entrega de ativos; avanço na CLT, em que a negociação entre sindicato e patronal teriam mais peso que os direitos da legislação, podendo se flexibilizar 13º, férias, jornada de trabalho e todos os outros itens.

O que este capitalista esqueceu de levar em consideração é a imensa resistência que a classe operária francesa junto à juventude universitária está opondo à reforma trabalhista El-Khomri (como é chamada a ministra que redatou o projeto de Hollande). São mais de quatro meses de confronto nas ruas contra a repressão policial. Com a entrada em cena dos contingentes operários, vimos as greves nas refinarias, nos portos, nas centrais elétricas e nucleares, bloqueios de saída dos jornais da burguesia que faz campanha contra o movimento, e a paralisação das ferrovias pelas quais chegava a taça da Eurocopa.

Este grande exemplo francês deve ser refletido pelos trabalhadores e jovens brasileiros contra estas tratativas dos capitalistas da CNI, por três elementos que se ligam entre si. Em primeiro lugar, pelo ódio crescente a todas as instituições do estado francês, principalmente a polícia, repudiada e combatida nos atos. Em segundo lugar, o sentimento anticapitalista que se desenvolve em milhares de pessoas de que este sistema de exploração e opressão só nos reserva mais crise. Por último, o fato de que a classe operária e seus métodos de luta estão no centro do conflito, diferentemente da maioria dos movimentos sociais dos últimos anos, e sua aliança com a juventude segue o rastro da grande tradição do Maio de 1968 francês.

A luta do movimento francês contra a reforma de Hollande fortalece a classe operária mundial, inclusive a brasileira, contra os "lordes industriais" como Andrade.




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