Protestos Feministas no México

Chaves para entender os protestos feministas do México

Nos últimos dias, milhares de mulheres saíram às ruas da Cidade do México contra os abusos policiais e a violência de gênero. O cansaço da violência contra as mulheres foi ouvido em voz alta, agora contra a polícia.

sexta-feira 23 de agosto| Edição do dia

Embora não seja uma prática nova, nas últimas semanas mulheres têm denunciado violações por parte da polícia da Cidade do México. Isto fez explodir a raiva latente frente a crescente violência contra as mulheres.

1. O primeiro caso se deu no 3 de agosto, quando, na madrugada, uma menor de idade regressava a sua casa e foi interceptada por uma patrulha, colocaram ela na viatura e a violaram. Alguns dias depois, houve outra denúncia, desta vez de uma menina abusada por um policial bancário (instituição pública que resguarda escolas e museus da cidade) nos banheiros do Museu da Fotografia, e outra que também denunciou ter sido violada por um policial na colônia Tabacalera, no centro da capital. O titular da Secretaria de Segurança, sob mando da polícia da cidade, disse não ter ideia dos acontecidos. A família da primeira vítima recebeu ameaças da polícia.

2. Sabemos que desde que a militarização foi implementada, a violência e os feminicídios no México têm aumentado. Elementos da polícia e da milícia são coniventes com redes de tráfico, além de assassinar, desaparecer e estuprar mulheres. Hoje a militarização continua com a Guarda Nacional aprovada recentemente.

3. Ambos os casos geraram protestos espontâneos na cidade. Manifestações que se destacaram por criticar a Secretaria de Segurança Cidadã, e as instituições frente a impunidade com a consigna #NoNosCuidanNosViolan.

4. Durante um protesto, no dia 12 de agosto, do lado de fora da Procuradoria Geral da Cidade do México, o Secretario da Segurança CIDADÃ, Jesús Orta, declarou nos meios de comunicação uma resposta aos manifestantes, os mesmos que o jogaram diamantina cor de rosa. Claudia Sheinbaum, Chefe do Governo da Cidade do México e integrante do Movimento Nacional de Regeneração (Morena), partido do Presidente Andrés Manuel López Obrador, disse que a manifestação foi uma provocação e encobriu os fatos; manteve livres os policiais responsáveis.

5. Milhares de mulheres se reuniram na Glorieta de Insurgentes em 16 de agosto, na Cidade do México, em repúdio às declarações de Claudia Sheinbaum. A concentração foi perto da Secretaria de Segurança Cidadã. Milhares de mulheres assistiram e a manifestação foi reproduzida em outros estados do interior do país. Durante o protesto na Cidade do México, algumas participantes quebraram vidros e pixaram a estação do Metrobús, uma delegacia de polícia e o Anjo da Independência, um emblema da capital.

6. Os pixos foram o centro da atenção dos meios de comunicação nacionais, tentando assim denegrir a mobilização de milhares de mulheres contra a violência no México, a qual mata 9 mulheres diariamente, dando origem à criminalização das mulheres mobilizadas iniciada pela Chefe do Governo.

7. A pressão obrigou Sheinbaum a convocar um grupo de feministas institucionais e radicais a negociar com ela a portas fechadas, comprometendo-se a treinar a política e a eliminar acusações contra mulheres ativistas que participaram dos protestos nos dias anteriores.

8. Os protestos se dão em um contexto no qual o governo local e federal acionou a Guarda Nacional em todo o país e em particular nas prefeituras periféricas da Cidade do México. Além disso, o governo local enfrenta protestos de trabalhadoras e trabalhadores estatais que estão sendo despedidos. Apesar disso, o governo continua com ampla legitimidade

9. Estas manifestações, por outra parte, não tem um norte claro e surgiram de diversos posicionamentos. Não há uma postura homogênea nem é claro sobre o rumo do movimento porque não há amplos espaços de organização nos quais possam ser discutidas suas demandas. Algumas ativistas afirmas que é positivo se reunir com a chefa do governo e que existem treinamentos aos aparelhos repressivos, outras afirmam que não têm que confiar nas autoridades, mas que têm que seguir replicando os métodos como os que foram praticados na última sexta-feira, com uma visão clara de para onde devem dirigir os seus esforços.

10. Desde a Agrupação de mulheres Pão e Rosas, consideramos que a polícia é irreformável e que já demonstrou em outras ocasiões que não está do lado das mulheres. Nós apostamos na construção de um movimento de milhares nas ruas, independente do governo, das instituições do Estado e dos partidos do congresso, organizadas em centros de trabalho e escolas, em aliança com jovens e trabalhadores para enfrentar a violência, tendo como uma das principais demandas a desmilitarização do país.




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