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EUA X CHINA

Chaves para entender a guerra comercial entre China e Estados Unidos

O governo encabeçado por Donald Trump recentemente adicionou a chinesa Huawei a uma lista negra que proíbe as companhias estadunidenses de manterem relações comerciais com a dita empresa. Apresentamos algumas chaves para compreender o conflito.

sexta-feira 24 de maio| Edição do dia

Rafael Arturo Mota

O fim de semana tem sido complicado para as negociações entre ambos os países. O governo encabeçado por Donald Trump recentemente adicionou a chinesa Huawei a uma lista negra que proíbe as companhias estadunidenses de manterem relações comerciais com a dita empresa.

Isso não havia gerado maiores comoções até que, no passado 19 de maio, a Google anunciou que romperia as relações comerciais com a Huawei, apoiado por empresas que fabricam microprocessadores como Qualcomm e Xilinx, entre outras.

Aqui deixamos algumas chaves sobre como tudo começou, o que foi necessário para chegar a este momento, quais são as perspectivas deste problema e como afeta a países como o México.

A globalização como um dos principais responsáveis. Um dos seus principais impulsionadores historicamente têm sido os Estados Unidos e a premissa sobre que se sustenta é o livre mercado, o equilíbrio e a autorregulação. Como processo econômico, a globalização se encarregou de eliminar as fronteiras nacionais através da liberalização da economia a nível internacional.

Caracterizado principalmente por acordos comerciais como o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA na sigla em inglês) ou a criação da União Européia. Isso aumentou a interdependência econômica à escala global, implicando em que alguma mudança em algum dos componentes do sistema econômico afete em maior ou menor medida a totalidade deste.

Estados Unidos, ganhar perdendo. A globalização deu início a um fenômeno conhecido como o deslocamento do processo produtivo, que em poucas palavras significa que diferentes momentos deste processo se realizam em distintos países. Isso permite às grandes empresas transnacionais maximizar seus lucros. No entanto, afeta os índices macroeconômicos dos países envolvidos, para o bem ou para o mal. No caso dos Estados Unidos, levou a obter um déficit comercial de 621 bilhões de dólares para 2018 e com quem tem um déficit maior é com a China, de aproximadamente 419 bilhões de dólares. Isto é, os EUA compram do mundo muito mais do que o vende.

Não são só os índices macroeconômicos que preocupam a Trump, o deslocamento também afetou a indústria estadunidense que migrou para os países emergentes que contavam com mão de obra mais barata e com outras vantagens econômicas. Países como China, México, Brasil, etc. Tem sido os maiores beneficiados. O desemprego se encontra na outra face da moeda.

China, o porta-bandeira da globalização. A china tem sido, das economias emergentes, a mais favorecida desse processo. O crescimento do seu PIB esteve acima do 6,7% nos últimos 20 anos, tendo em seu ponto máximo um crescimento de 14,23% em 2007 que tem se desacelerado paulatinamente. O papel da China na economia global posterior a recessão de 2008 tem sido crucial, visto que tem mantido boiando as economias dos países emergentes, já que é o principal consumidor de commodities (matérias-primas). A China busca ser o principal provedor de tecnologia a nível mundial e para isso tem de se enfrentar diretamente com os EUA.

Trump e sua política econômica. Desde seu ascenso ao poder, o presidente estadunidense se proveu de uma retórica que há tempo não se via na principal economia do mundo. Em uma época onde todos os organismos internacionais falam de liberalização, Trump decidiu reduzir o déficit comercial aumentando os impostos (ou tarifas) para setores econômicos centrais, primeiro intencionando a China, logo México e a União Européia. Levando adiante políticas protecionistas, busca substituir importações para fortalecer o mercado e o setor produtivo internos.

Esse é o início da denominada “Guerra comercial” entre Estados Unidos e China, que já marca um ano de seu início. Aos impostos que Trump tem implementado, Xi Jinping tem respondido com impostos a produtos norte-americanos.

[ Saiba mais: https://www.esquerdadiario.com.br/China-x-EUA-a-disputa-comercial-e-o-que-realmente-esta-em-jogo ]

Huawei, o centro dos ataques e a jóia da coroa chinesa. A empresa é uma das mais importantes na China e das que teve mais rápido crescimento nos últimos anos. Por isso, como medida de pressão nas negociações, tem sido o alvo preferido do governo de Trump. Sob o discurso de espionagem e de competição desleal é que se iniciaram esses ataques, desde a prisão da filha mais velha do dono da Huawei, até a adição da empresa à lista negra do Departamento de Comércio.

Ao encerramento das relações com a Google se sucedeu rapidamente a suspensão da venda de microprocessadores, ainda que segundo diretores da mesma empresa fosse algo que já esperavam há um ano. Preparando-se com um stock de aproximadamente três meses. A China respondeu este ataque com um chamado a deixar de consumir produtos da Apple.

O que há por trás. O projeto econômico que implicou na globalização debilitou economicamente os EUA, levando-o a atingir déficits comerciais históricos. Igualmente, sua dívida pública escalou até níveis nunca antes vistos, com um crescimento anual pouco superior a 2% do PIB de 2017 até hoje.

Apesar de a guerra comercial ter se apresentado como uma guerra tecnológica e por propriedade intelectual, na realidade o problema é mais profundo. A China começou a competir economicamente aproveitando-se primeiro do baixo custo de sua mão de obra e da comercialização de produtos com o resto do mundo. No entanto, o econômico é geralmente acompanhado pelo político e vice-versa.

O que Trump busca é recompor o perdido nos últimos anos pela globalização e que é próprio do sistema capitalista. Tal como demonstrou Marx em O Capital com a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro, o aumento do capital constante e a decadência do capital variável fazem com que a Taxa de Lucro diminua, e existem diferentes mecanismos para voltar a elevá-la.

As empresas, para maximizar seus lucros, encontraram na globalização da produção o mecanismo perfeito para elaborar produtos a baixo custo e tratar de colocá-los em mercados que possam absorver a oferta. Isso fez com que algumas das cidades industriais americanas mais importantes, como Detroit, se transformassem em cidades devastadas pela violência e o desemprego.

É por isso que as tentativas de Trump de substituir algumas importações para voltar a produzi-las nos Estados Unidos são impotentes e porque atentam contra os interesses das empresas mais poderosas do mundo, não só na tecnologia, também no setor automotor, em calçados, vestimentas, etc. Na última segunda-feira, 20 de maio, 173 empresas assinaram e publicaram no website da associação comercial da indústria calçadista uma carta aberta ao presidente dos EUA onde fazem um chamado a pôr fim à guerra comercial.

O que o futuro trará. O conflito está cheio de contradições. Os Estados Unidos abriu uma batalha a partir de diversas frentes. O México foi um de seus principais alvos através da renegociação do NAFTA, pois o outro país com quem o país do norte tem o maior déficit é o México. Apesar de ter aumentado as tarifas para produtos mexicanos e canadenses, recentemente teve de dar passos atrás e anulá-los, para destravar a aprovação do Tratado México-Canadá-Estados Unidos (T-MEC) enquanto o governo mexicano estava buscando fortalecer a relação bilateral com a China. O falido intento golpista conspirado desde Washington com a Venezuela, a pressão sobre o Irã, etc. São demais exemplos.

As tensões que geram desestabilidade e pânico entre os investidores, segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF na sigla em inglês), tão somente nas últimas duas semanas 13 bilhões de dólares foram retirados das bolsas de valores do mundo, principalmente de países emergentes. O fogo cruzado afeta o equilíbrio altamente instável alcançado depois da recessão de 2008, que implicou em crescimentos muito abaixo do esperado, e que está sendo afetado ainda mais pelos conflitos do Oriente Médio, que tem encarecido o preço do petróleo.

Ainda que até agora a “guerra” tem se dado exclusivamente no terreno econômico, não se descarta que possa escalar, se bem que não para um enfrentamento direto, mas sim para conflitos regionais entre potências, retomando o exemplo da Venezuela, onde a Rússia começou a instalar bases militares. O discurso do PC chinês cada vez toma um tom mais nacionalista e com um linguajar bélico.

Alguns especialistas como Tim Culpan começam a especular o início de uma Guerra Fria tecnológica que poderá separar o mundo em dois blocos. Porém, a China não tem ainda capacidade suficiente para se tornar independente dos EUA e atingi-la levará ainda bastante tempo.

É um jogo de estica e afrouxa que nenhum dos dois países pode enfrentar por muito tempo, por causa das enormes perdas que acarreta. Os países emergentes se vêem arrastados para essa dinâmica, seja pela interdependência econômica ou pelas pressões políticas do imperialismo estadunidense. Quem termina perdendo são os trabalhadores de todos os países arrastados para o conflito, que pareceram ser peões em um xadrez geopolítico para ver que nacionalidade terá o capital que os extrairá a maior quantidade de mais-valia possível, e podem ser eles mesmos aqueles que terminem por virar o tabuleiro, se a luta de classes cresce também a nível global.




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