Política

O ATO DO DIA 20 SERÁ GOVERNISTA

Chamamos o PSOL a romper com o ato do dia 20 e chamar já um terceiro ato

Marcelo Tupinambá

São Paulo

sexta-feira 14 de agosto de 2015| Edição do dia

Desde quando foi convocado o ato do dia 20/08, nós do MRT alertamos que este tinha um caráter distinto das mobilizações de 15 de abril e 29 de maio. Naquelas, a defesa do governo Dilma-PT não conseguiu se sobrepor ao dia nacional de luta contra os ataques em curso, em especial contra o PL 4330. Apesar de que faltou um pólo claramente delimitado da burocracia sindical e dos movimentos sociais que apoiam o governo federal, foi correto participar daqueles dias de luta, que nós do MRT também convocamos, pois a chave era a luta contra os ataques e não a defesa do governo.

O caráter do dia 20 foi ficando tão marcadamente governista ao ponto de que Maringoni, da corrente Unidade Socialista do PSOL, chegou a escrever no seu Facebook “Contrabandear a defesa do governo no dia 20, como quer o PT, é algo inaceitável para um ato que se pretende unitário”. Inclusive, nos últimos dias, Dilma e o PT organizaram atos em Brasília para aparecer junto aos movimentos sociais e preparar o dia 20.

Foi neste marco que, frente ao que vai ser o dia 16, o dia 20, e a necessidade de um terceiro campo que não mescle bandeiras nem com o governo nem com a oposição de direita, que o Sindicato de Trabalhadores da USP (SINTUSP), coerente com sua tradição de luta independente dos governos e dos patrões, aprovou um chamado a um terceiro ato em sua reunião de Conselho de Diretores de Base . Trata-se de um chamado importante, pois é uma forma de apresentar uma alternativa concreta para os setores honestos de trabalhadores e jovens que acabam participando dessas mobilizações (16 e 20) por não enxergar nenhuma alternativa consequente contra o governo Dilma ou contra a direita.

Após o posicionamento do Sintusp, que votou inclusive uma comissão para discutir com os sindicatos e correntes anti-governistas, diversas organizações se posicionaram contra a ida no dia 20/08, entre elas o PSTU e setores do próprio PSOL (como a CST e o MES chegou a soltar uma nota em algumas listas de whatsapp, mas sequer colocou no seu site). Cada declaração que se coloque contra a participação nos dias 16 e 20 é um passo à frente, pois abre a perspectiva da construção efetiva de um terceiro campo, independente do governo e da oposição de direita.

Após isso, a Executiva do PSOL soltou uma nota oficial onde critica os setores governistas por estarem transformando claramente o ato numa defesa do governo, mas ao invés de romper com o ato, dizem: “o PSOL reafirma que não aceitará que as mobilizações convocadas originalmente para denunciar o ajuste fiscal, o avanço conservador e a retirada de direitos, tornem-se atos de desagravo a um governo que segue aplicando a agenda das elites brasileiras. Convocamos toda a nossa militância para tomar as ruas com os movimentos sociais combativos no dia 20 de agosto com as bandeiras presentes na convocatória original e deixamos claro, assim, que não nos somaremos a atos de desagravo ao governo Dilma”

Ou seja, na prática chama a construção do dia 20, supostamente para se delimitar do governo. Se nas mobilizações de 15 de abril e 29 de maio não fizeram isso porque se negaram a fazer um claro chamado ao PSTU, CSP-Conlutas e outros setores para fazer ações independentes dos governistas, não vai ser neste dia 20 que vão conseguir se delimitar do governo. Afinal, se não rompem com essa política, vão colocar militância para fortalecer as mobilizações governistas.

Nós insistimos no nosso chamado, ainda é tempo de convocar um terceiro ato. Como viemos dizendo, se concentramos toda a força superestrutural do PSOL com seu peso parlamentar, sindical do PSTU e da Conlutas, as entidades estudantis dirigidas pela esquerda (como o DCE da USP), somado a outras organizações como o MRT, é possível convocar ações independentes em todo o país, como um passo concreto na formação de um terceiro campo, que diversas correntes da esquerda defendem no papel, mas é necessário concretizar. É urgente um diálogo entre as organizações que se declararam contra os dias 16 e 20, mas o PSOL, pela sua maior projeção superestrutural, tem a responsabilidade de chamar um terceiro ato, convocando também o PSTU e todos os setores que defendam uma política independente.

O seguidismo ao MTST leva a apoiar o governismo

Um dos elementos que atrela o PSOL ao governismo, é sua adaptação ao MTST, movimento que a esquerda anti-governista não pode ficar refém. Caso contrário, será levada, como no dia 20, a ser base do governismo. Um terceiro ato como este que propomos, e passos concretos para conformar um terceiro campo, seria a única forma de construir uma força capaz de cercar de solidariedade lutas importantes como a greve da GM contra as demissões, além de poder exigir uma ruptura definitiva do MTST com o governo federal e o PT.

O MTST se nega a uma delimitação clara contra Haddad, Dilma e o PT. Essa posição política não é devido à ameaça de “golpe” da direita, que viemos alertando há tempos que é uma falácia e agora mais que nunca, como analisamos neste artigo, mas sim devido às suas negociações por moradias. Foi o que o próprio Guilherme Boulos expressou sem tergiversar após a última mobilização de exigência de liberação de verbas do Minha Casa Minha Vida 3, que levou a um pacto com o governo de não mobilizar até o dia 10/09, exceto neste dia 20/08. Participou de ato em defesa do governo com os movimentos sociais no dia 13/8. Apoiamos a luta por moradia e estamos lado a lado com o MTST frente aos ataques que sofram da direita, mas é necessário que a esquerda anti-governista construa um pólo verdadeiramente independente do governo, que poderia começar com a convocatória deste terceiro ato.

Um chamado ao PSOL

Chamamos o PSOL a romper com o ato do dia 20/8 e chamar a construção de um terceiro ato, que poderíamos fazer junto ao PSTU e todos os setores consequentemente anti-governistas. Há articulações para se incorporar a atos do funcionalismo federal em greve e apoiar sua luta, mas além disso é necessário fortes ações nacionais de caráter independente do governo.




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