Juventude

COTAS NA UNICAMP

Centros Acadêmicos da Letras e Pedagogia da USP chamam todos os setores do movimento estudantil e negro a compor as audiências por cotas da UNICAMP

Quinta-feira (13/10), ocorreu a primeira audiência (de três previstas) da UNICAMP para debater uma tão esperada adesão ao programa de cotas étnico raciais, cujo tema era “Cotas e ações afirmativas: perspectiva histórica e o papel da Universidade Pública no Brasil”. Esta audiência, é fruto da histórica greve deste ano, que ocupou a reitoria, se enfrentou com diversos professores reacionários e racistas e com a burocracia acadêmica, uma casta de poucos privilegiados que tudo decidem sobre a universidade.

sexta-feira 21 de outubro| Edição do dia

O espaço contou com mais de 600 pessoas, uma mesa de estudiosos sobre a questões étnico raciais, membros de diversos grupos, instituições e movimentos sociais que interviram. Debateu muito qualitativamente o acúmulo de décadas do movimento negro e indígena sobre políticas de reparação histórica via ações afirmativas, como as cotas raciais para acesso ao Ensino Superior público.

Nós do CAELL (Centro Acadêmico da Letras e Linguística) e CAPPF (Centro Acadêmico Professor Paulo Freire), do curso de Pedagogia e Licenciaturas da USP, estivemos presentes pois compreendemos a importância histórica desse espaço, o que pode vir a pressionar a USP para realização de espaços democráticos de debate, contando que nossa greve, também deste ano, levou como principal demanda a luta por cotas já.

Nós diretores do CAELL e CAPPF, André Arruda e Mariana Vilas Boas, intervimos saudando o espaço como uma conquista de um processo de luta concreto e auto organizado, a greve das três categorias, e não de uma suposta benevolência da reitoria que, muito pelo contrário, há tantos anos dificultam o acesso e permanência de tantos estudantes negros e indígenas, assim como se isentam de debater ações afirmativas, em especial na USP e UNICAMP que até hoje não possuem um programa efetivo de cotas (reserva de vagas), de forma arbitrária e inconstitucional.

Mariana ressaltou que: “Ao longo de tantos anos de debate, muitos setores defenderam e defendem que cotas sociais dariam conta de permitir o direito ao acesso ao Ensino Superior pelos negros e indígenas. No entanto, diversos dados e a própria experiência prática mostra o quão hipócrita é essa afirmação em termos numéricos: a USP têm apenas 7% de estudantes negros ao passo que o Estado de São Paulo tem 35% de sua população negra. Ou seja, há uma discrepância enorme que não dá conta de expressar a contradição racial da sociedade dentro da universidade. Assim, como podemos falar de disputar a quem e a que interesses servem os conhecimentos produzidos aqui dentro?

Além disso, cotas sociais não desmascara o racismo como forma de opressão que excluiu negros e indígenas do direito à educação, enquanto sempre usufruiu de sua força de trabalho para construir a grande riqueza de parte pequeníssima da sociedade brasileira. O racismo se agudiza com a vulnerabilidade social, mas existe independentemente desta”.

André deu sequência à intervenção dizendo “Para além de estar aqui representando o meu curso de Letras da USP, e saudar este espaço, eu queria ressaltar um pouco a amplitude do problema que a gente tá tratando aqui, hoje.

Há muitos poucos meses, a gente viveu um processo acirradíssimo de lutas, que foi a greve da Universidade de São Paulo, e que, inspirados também nos processos de luta que já estavam se iniciando aqui na UNICAMP, rolou um fenômeno histórico que foi a primeira ocupação do prédio de Letras pelos estudantes. E o nosso curso é um curso bastante peculiar nesta bolha elitista que é a USP, porque ele é o maior.

A gente conta, hoje, com mais de 840 vagas anuais e temos mais de 5.000 alunos matriculados. Por consequência, a gente é o curso com o maior número de negros, de mulheres e da comunidade LGBT em geral. Só que ao mesmo tempo, é um curso que, hoje, tem uma taxa de mais de 15% de evasão desses alunos.

E qual tem sido a resposta por parte da burocracia universitária? Qual que tem sido a resposta desse reitorado racista, higienista e meritocrata?

Tem sido a perspectiva de cortes de vaga, do fechamento de habilitações menores como a de Armênio, o congelamento de contratação dos professores. Tudo isso acontecendo no meio de uma universidade que já teve as suas vagas nas creches reduzidas nesse ano, numa universidade que tá sofrendo o desmonte de seu único Hospital Universitário.

É por isso que a gente do CAELL e do CAPPF não arredou o pé, em nenhum momento durante esses processos, de levantar a bandeira por cotas. A gente também não arredou o pé de aliar a bandeira por cotas a todas as bandeiras que levem a uma universidade de qualidade e justa de verdade.

Levando só uma coisa em mente: nenhuma ilusão na burocracia! É com a luta, é com todas as nossas lutas que espaços como esse aqui podem existir.

E não vamos deixar por nem um segundo que eles achem que tudo vai acabar no ingresso. Que o ingresso é o suficiente.

Cotas já! Mas rumo ao fim do vestibular, rumo ao fim de todo filtro social, e rumo ao fim desses tubarões que querem transformar a educação em um mercado de gente.”

Nos surpreendeu que o DCE Livre da USP, em especial, e os setores do movimento negro que atuam na USP não estivessem presentes. Chamamos todos a construirmos juntos as próximas audiências como forma de levarmos adiante, de modo consequente, uma bandeira tão importante de nossas últimas mobilizações e processo de luta e tão decisiva a um verdadeiro início de justiça ao povo negro.

Nós do CAELL e CAPPF achamos essencial como entidades apoiar e construir estes espaços, pois lutamos por entidades realmente democráticas, capazes de fomentar a auto organização política dos estudantes, entendendo que nossa luta é indissociável da luta da maioria da população trabalhadora que hoje se encontra muito distante da universidade. E queremos levar exemplos como esses para nossos cursos e universidade para impulsionar a luta por cotas e efetivá-las definitivamente.

Cotas sim, cotas já, cotas até quando precisar!




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