MOVIMENTO NEGRO

Centenas de coletivos e entidades do Movimento Negro se manifestam contra o genocídio da juventude negra

Reproduzimos aqui Manifesto assinado por centenas entidades, movimentos sociais e organizações políticas frente a escalada absurda de violência contra o povo negro na Pandemia.

terça-feira 26 de maio| Edição do dia

O Manifesto abaixo é fruto de elaboração coletiva de centenas de movimentos, coletivos e organizações sociais que, manifestam com ela seu mais alto repúdio e ódio a escalada de violência aos negros e pobres nas favelas cariocas.

A escalada de violência nas favelas e periferias do Rio de Janeiro aumentou substancialmente no período do governo Witzel. Não que antes do seu governo a situação dos negros no Rio e no Brasil não fosse extremamente perigosa. Porém, com Witzel no comando, há uma carta branca para matar nas favelas e periferias. O alvo tem uma cor. Basta de Genocídio!

Amanhã acompanheremos pelo Esquerda Diário em todas as nossas redes o chamado da coalizão negra e nos somamos aos twittaço e as campanhas virtuais. Confira a nota a seguir:

Manifesto Luto em luta por João Pedro e todas pessoas negras vítimas da violência do Estado

“Eles não mataram só o João, mataram o pai, uma mãe, uma irmãzinha de 5 anos” - Neilton Pinto, pai de João Pedro Mattos Pinto, 20 de maio de 2020.

O que aconteceu com João Pedro tem nome: é genocídio. Por ser um jovem negro, seu corpo foi alvo fácil! Nosso manifesto é por João Pedro e também por todas as pessoas que estão na mira do genocídio! Não estamos, nem ficaremos calados diante do genocídio!

Exigimos providências!

Este crime bárbaro é mais um, que por comover todo país, torna-se símbolo da necropolítica colocada em prática pelo Estado brasileiro, capaz de manter violentas operações policiais em favelas e periferias mesmo em tempos da mais mortal pandemia que o país da viveu. Pedro e sua família obedeciam a orientação do Governador Witzel e dos organismos internacionais de saúde, como forma de se proteger da Covid19. Estavam em casa. Mas para famílias negras no Brasil, a casa, a rua, a comunidade não são sinônimo de segurança.

Construímos este manifesto a várias mãos. Mãos essas que nas últimas décadas vêm apontando o quão excludente e genocida é a sociedade brasileira. Seguiremos escrevendo a história desta luta com todas e todos que também não compactuam com esse cotidiano de barbárie!

Organizações, Movimentos e Coletivos juntos!

Manifeste-se junto com a gente, deixe aqui sua assinatura.

Quando Elza Soares cantou "A carne mais barata do mercado é a carne NEGRA", a letra já nos sinalizava para um futuro inconstante que envolve todos os moradores de comunidades e favelas do Estado do Rio de Janeiro. Negros, periféricos, marginalizados, alvos fáceis na mira do sistema, que cotidianamente busca nos exterminar. João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, assassinado enquanto brincava com amigos dentro de casa no morro do Salgueiro-São Gonçalo. Tal violência cotidiana assombra os morros favelas e guetos no Brasil. Aliás, a palavra violência há muito tempo deixou de ser uma ação esporádica e passou a ser a resposta primeira do Estado sobre a população de maiorias minorizadas, mais representativas nos setores econômicos e sociais. Um brutalidade que, segundo o “Atlas da Violência 2019”, organizado pela Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, recai de forma incisiva sobre a população negra e pobre.

Segundo o referido estudo, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), entre 2007 e 2017, o número de homicídios entre pessoas negras aumentou 33,1%. Em meio a um recorde histórico de homicídios em 2017 da ordem de 65.602 vítimas, 75,5% dessas eram negras. A pesquisa também aponta que a região nordeste do país tem o maior índice de mortes violentas registradas em 2017 entre a população negra. No Rio Grande do Norte, o levantamento expõe o índice de 87 mortos a cada 100 mil habitantes negros, mais do que o dobro da média nacional. No Ceará, verifica-se um índice de 75,6; em Pernambuco, 73,2; em Sergipe, 68,8; e, em Alagoas, registra-se um índice de 67,9.

Não muito diferente das demais localidades, o Rio de Janeiro, na região sudeste, é um dos que mais mata no Estado Brasileiro, e o histórico de violências do estado já é conhecido por boa parte da população periférica. Histórico esse que em tempos de pandemia vem crescendo a cada dia. Só entre os dias 15 e 19 de março de 2020, início do isolamento social, os agentes de segurança pública do estado mataram 69 pessoas. Entretanto, as mortes em operações monitoradas, que tiveram uma drástica queda no começo da epidemia (-82,6% em março), superaram as do ano passado em abril e maio (aumento de 57,9% em abril e 16,7% até 19 de maio). Os dados indicam que, durante a epidemia, nos meses de abril e maio, as polícias do Estado do Rio de Janeiro usaram mais força letal em operações policiais do que em 2019, quando o Rio de Janeiro teve o recorde de 1.810 mortes causadas por intervenção policial.

João Pedro, preto e morador de favela, representa a esperança interrompida. Assim como boa parte dos jovens brasileiros, João Pedro tinha sonhos, queria ser advogado e era "o amor" de uma mãe, de um pai, de uma irmã, de uma família e uma comunidade inteira, que assim como o jovem negro João foram atravessados pela "bala” do Estado do Rio de Janeiro.

João nos deixou e foi deixado pelo Estado omisso e descomprometido com a superação da desigualdade social, política e econômica. E assim como outros jovens negros, para alguns, agora é estatística, mas para nós é um jovem negro amado pelos amigos e a família. Por isso, ao homenagearmos João Pedro Mattos Pinto, lembraremos e acolheremos todas as famílias e amigos que tiveram suas histórias aniquiladas pela mão do Estado. Acolheremos com afeto todas e todos nós, nossos medos, mas também nossa capacidade de nos levantar do chão, onde querem nos deixar. Não ficaremos! Somos herdeiras e herdeiros de quem não sucumbiu ao terror. De quem, acorda cedo, sonha, trabalha e batalha o dinheiro para seu sustento. Faremos por João Pedro, Ágatha, Renan, Iago, João Vitor, Rodrigo e tantos outros corpos pretos a oração, ação com arte e confiança na luta que só nossa unidade construirá. Somos a maioria da população brasileira, segundo país de gente negra no mundo. Seremos capazes de nos abraçar de novo, de transformamos o luto em luta e de gritar a uma só voz: Nossos corpos e nossas vidas têm voz!

“Minha luta por memória é UM sorriso lindo. Um sonho foi embora junto com meu filho Daniel naquele dia. Só trocaria minha vida pela dele. Hoje, minha luta é abraço, acolher, unir força, foco e fé na justiça pelos nossos filhos. Sonhos destruídos por nada” - Joseane Martins de Lima Ferreira, mãe de Daniel Martins Nunes de Oliveira, morto no Km 32, Nova Iguaçu em 26 de maio de 1990.

Exigimos providências!

Anexamos a este manifesto as diversas iniciativas já protocoladas e em andamento de combate a necropolítica e para a promoção de direitos para a população negra.

A Coalizão Negra Por Direitos, junto com iniciativas que articulam e assinam este ato, enviou às autoridades do Rio de Janeiro requerimentos solicitando resoluções sobre a ação policial do Estado que resultou na morte de 13 pessoas em operações realizadas nos últimos dias no Complexo do Alemão. João Pedro Mattos Pinto é uma delas. Notificamos organismos nacionais: MPRJ, ALERJ, Comando Geral da PM - RJ,Governador do Rio de Janeiro, Secretaria da Segurança Pública do RJ, Corregedoria Geral da PM para que haja investigação e responsabilização pelo caso. Além disso, denunciamos a ação internacionalmente, em pedido direcionado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos para que cobrem as devidas providências ao Estado brasileiro. Reivindicamos a identificação e responsabilização penal dos policiais envolvidos, além da criação de formas de controle para que essas ações não mais aconteçam.

As vozes, narrativas e sonhos, ressoam uns nos outros! E ainda que o Estado nos faça de alvos, continuamos em luta, assim nos ensina Lélia Gonzalez, “trazemos conosco a marca da libertação de todos e todas, portanto nosso lema deve ser: organização já!”. O genocídio precisa ser nomeado! Para conhecer a campanha que exige das mídias o uso do termo genocídio para as mortes da população negra acesse alvosdogenocidio.org.

Organizações, Movimentos e Coletivos juntos!




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