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Cemitério lota em Lisboa após pico de mortes por Covid-19 em Portugal

Coveiro relata que lote inteiro de covas foi ocupado em apenas 50 dias, quando normalmente encheria em um ano. País viveu momento mais dramático da pandemia.

sábado 20 de fevereiro| Edição do dia

Coveiro passa diante de covas ocupadas por vítimas da Covid-19 em cemitério de Lisboa, Portugal, nesta quinta-feira (18) — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP

"Estamos sobrecarregados!", lamenta Ricardo Pereira, compactando o solo argiloso entre as sepulturas escavadas no maior cemitério de Lisboa, capital de Portugal, rapidamente preenchido com vítimas da Covid-19 e identificados por um simples número.

"Este lote foi ocupado em cerca de 50 dias, enquanto normalmente demora quase um ano", explica à AFP, de pá na mão, o coveiro de 36 anos que trabalha no cemitério do Alto de São João.

A jornada de trabalho da sua equipe começa com o sepultamento de duas pessoas sem recursos de um centro social de Lisboa, suspeitas de terem morrido por Covid, especifica Fausto Caridade, responsável pelo cemitério.

Assim, quando o carro fúnebre chega, sem o acompanhamento de familiares, os quatro trabalhadores do cemitério vestem o traje de proteção para o sepultamento dos mortos de Covid: máscara, luvas azuis e combinação branca que os cobre da cabeça aos pés.

Os dois caixões são colocados lado a lado, enquanto quase não há lugares disponíveis nesta seção do cemitério, onde as sepulturas se distinguem apenas pelo número escrito em uma pequena placa plantada na terra recém-mexida.

No corredor central desta seção, aberta no final de dezembro para acomodar a maioria dos mortos da Covid-19, coroas de flores ainda frescas se amontoam enquanto uma escavadeira está pronta para retomar o serviço para cavar novas sepulturas.

"As pessoas deveriam vir aqui para perceber a realidade", lamenta Maria João Costa, que foi enterrar a mãe, vítima do coronavírus aos 80 anos.

Segundo Maria, que acompanhava o enterro vestida de preto e olhando o retrato de sua mãe, a idosa até chegou a receber a primeira dose da vacina, mas não houve tempo para a segunda dose que garante a imunização. Além disso, até que o corpo esteja imunizado, leva algumas semanas.

Desde o início do ano, Portugal registrou uma média de 180 mortes por dia por coronavírus. Excluindo os micro-Estados, é o sexto país da Europa e do mundo com o maior número de vítimas em relação à sua população.

Com pouco mais de 1,5 mil mortes por milhão de habitantes desde o início da pandemia, está atrás da Itália, mas à frente dos Estados Unidos, ou da vizinha Espanha.

Confinado desde meados de janeiro, o país viu cair drasticamente o índice de novos contágios, e o número de mortes diárias se reduziu para cerca de 100 por dia após um recorde de mais de 300. O número de enterros ainda é, no entanto, muito alto.

"Há sempre muitos corpos nos necrotérios à espera de serem enterrados", relata o coveiro Ricardo Pereira.

E, dos dez enterros previstos para o dia no cemitério do Alto de São João, o maior da capital portuguesa, metade são vítimas da Covid.

Na aleia principal do cemitério, no meio dos mausoléus brancos, está um dos três crematórios da cidade que, desde o início do ano, funciona a todo vapor, da manhã à noite. Normalmente, em janeiro, o número de cremações em Lisboa é de uma dúzia por dia.

"Atualmente, funciona na sua capacidade máxima, com mais de 20 cremações por dia", indica Sara Gonçalves, responsável na prefeitura de Lisboa pela gestão dos cemitérios.

A pandemia causou em Portugal um aumento sem precedentes na mortalidade desde a gripe espanhola de 1920, com um total de mais de 123 mil óbitos no ano passado. Quase 16 mil mortes foram atribuídas à Covid, sendo mais da metade delas desde o início do ano.

Fonte: G1




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