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Celso Lima e Neide Jallageas falam sobre a Vkhutemas e a revolução soviética nas artes e seu ensino

Celso Lima e Neide Jallageas falam sobre a Vkhutemas e a revolução soviética nas artes e seu ensino

Montagem da ilustração: Amanda Navarro
Entrevista: Fernando Pardal

Entrevistamos Celso Lima e Neide Jallageas, que estão organizando o livro "Vkhutemas: Desenho de uma Revolução 1918-1930", tratando da "história da maior revolução já realizada no ensino das artes, design e arquitetura" no período pós-revolução soviética. Atualmente há uma campanha de arrecadação e pré-venda do livro que pode ser vista aqui.

Celso Lima é artista têxtil e pesquisador da história do design, com ênfase em estamparia, atuando como professor de design de superfície, tecnologias têxteis e colorimetria. Nos últimos anos desenvolve pesquisa sobre a escola soviética Vkhutemas, tendo sido curador, em parceria com Neide Jallageas, da mostra “Vkhutemas: O Futuro em Construção 1918-2018”, que aconteceu no ano passado no SESC Pompéia.

Neide Jallageas trabalha como pesquisadora, ensaísta, editora, curadora, tradutora, artista e docente. Em 2015 cria e dirige a Kinoruss Edições e Cultura, editora independente especializada em pesquisa e publicações sobre cinema e arte russas assinadas por pesquisadores brasileiros e internacionais sobre o cinema de Tarkóvski e Eisenstein, dentre outros. Pós-doutora em Processos Audiovisuais/Cinema Russo (ECA/USP) (2014-2015) e em Literatura comparada/Cinema Russo (FFLCH/USP) (2010‐2014), com Estágio de Pesquisa junto aos arquivos de Serguei Eisenstein no Museu de Cinema Russo (2012). Possui Doutorado sobre o cinema de Tarkóvski (PUCSP) e mestrado sobre fotografia, literatura e vídeo (ECA/USP). Suas obras integram os acervos do MASP, MAM, MAC e Sesc, todos em São Paulo. Em 2019 recebeu o prêmio APCA pela curadoria da mostra "Vkhutemas, o futuro em construção" (Sescsp).

IdE:Vocês podem contar aos nossos leitores um pouco do que foram as Vkhútemas e qual a sua relação com a revolução de outubro na Rússia?

Celso Lima: Os "Vkhutemas" foram um conjunto de faculdades que trouxeram ainda hoje inéditas experiências pedagógicas no ensino das artes, design e arquitetura. As necessidades de renovação impostas pela revolução de outubro de 1917, a demanda pela criação material de uma nova sociedade, com novas propostas para a vida cotidiana, seja no morar, vestir, no consumo, enfim, as demandas revolucionárias por um novo modo de viver impôs grandes desafios, e projetar novas moradias, objetos e novos conceitos educadores para a vida comunal, coletivizada, se torna o objetivo maior das escolas de design e arquitetura na Rússia soviética. Os "Vkhutemas" se diferenciam porque vão além do projetar, com a introdução de propostas pedagógicas que sensibilizam os alunos, futuros designers e arquitetos, para projetos que se tornem também ferramentas transformadoras para uma nova construção social.

IdE: Quais eram as inovações fundamentais dessas instituições e como funcionavam os ateliês livres? Como os artistas e professores que participavam delas viam seu papel social?

Celso: Os "Vkhutemas", fundados em 1920, são precedidos pela fundação em 1918 dos "Svomas", os "Ateliês de Artes Livres", em Moscou. Esses ateliês foram grandes laboratórios experimentais de pedagogias e programas propedêuticos, de formação básica, e interdisciplinares, que irão caracterizar o funcionamento das faculdades nos "Vkhutemas". Esses programas renovadores do ensino das artes, design e arquitetura são criados por artistas oriundos do que comumente se chamam "vanguardas russas", movimentos que surgem no início da segunda década do século XX na Rússia, como o suprematismo, cubofuturismo e objetismo. Quando retornou para a Rússia em 1917, meses antes da revolução, Anatoli Lunatchárski, que vai se tornar o primeiro "Comissário do Povo para a Educação" após a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro, entrou em contato com esses artistas, como Olga Rozánova, Kazimir Maliévitch e Vladímir Tatlin, e percebeu o potencial renovador das linguagens criadas por esses movimentos. Em sua maior parte os artistas das vanguardas russas, denominados então "artistas da esquerda", abraçam os ideais revolucionários com fervor, e se tornarão os mestres das novas gerações de artistas, designers e arquitetos na Rússia dos anos de 1920, dentro dos "Vkhutemas" e tb de outras escolas, como a "Escola de Artes de Vitebsk". Um dos objetivos de nosso livro é repor em cena essas renovações criadas por mestres da escola, que são enriquecedoras para a formação de profissionais da arquitetura e do design, não apenas em sua competência projetual, mas também em sua sensibilidade como criaturas sociais e perceptoras.

Qual é a relação das Vkhútemas com a Bauhaus e como se pode entender estas diferentes escolas em associação com a situação política da Rússia e Alemanha, respectivamente?

Celso: As relações entre a universidade soviética "Vkhutemas" e a escola alemã "Bauhaus", apesar de uma historiografia que mais apaga do que revela, são de total parceria, com especial convergência de objetivos a partir da segunda metade da década de 1920, com a "Bauhaus" instalada em Dessau, onde se transforma também numa comuna de ensino do design e da arquitetura, com grande influência dos movimentos construtivistas e racionalistas soviéticos. Ambas também compartilham suas origens, já que os programas pedagógicos laboratoriais dos "Svomas" vão integrar seus cursos de formação de base, seja na "Seção de Base" dos "Vkhutemas, seja no "Vorkurs" da "Bauhaus". No nosso livro a relação das duas escolas é detalhada em capítulo especial, preenchendo uma gravíssima lacuna historiográfica, já que até hoje a escola alemã é destacada solitária como matriz da modernidade para o design e a arquitetura. Os "Vkhutemas", ou "Vkhutein" a partir das intervenções em 1927, atuam numa cena revolucionária, apesar dos retrocessos que vão se impondo já a partir dos primeiros anos da década de 1920, mas dentro da escola mestres e alunos vivenciam fortemente o ideário revolucionário bolchevique, e a "Bauhaus", que é fundada numa sociedade conservadora, num país derrotado política e financeiramente, vive um novo momento em Dessau, até porque também na Alemanha a cena política vai sofrendo modificações, principalmente com o fortalecimento do Partido Comunista alemão nessa segunda metade dos anos 1920, e a escola dá uma importante guinada à esquerda, se tornando também uma comuna de ensino, voltada para a arquitetura e design sociais, de 1927 a 1930 acontecem os grandes anos da "Bauhaus", sob a direção de Hannes Meyer.

IdE: Qual era a relação dos participantes da Vkhútemas com os movimentos artísticos de vanguarda e de massas na Rússia e os principais debates colocados por estes, tais como o Proletkult, a LEF, o construtivismo, produtivismo, a factografia, a encomenda social, etc?

Neide Jallageas: Temos que considerar que eram os artistas que fomentavam os movimentos artísticos e eram estes mesmos artistas os mestres de Vkhutemas. Desta forma, todos os questionamentos, todo o potencial criativo e todas as idiossincrasias das pessoas estavam vivas e pulsavam nos movimentos e eram estas as forças que aglutinavam e movimentavam pensamentos, atitudes e ações divergentes nos vários agrupamentos que existiram neste momento. E pelo fato de serem divergentes, mas fortemente dialogantes, é que nos deparamos com a multiplicidade de conceitos, neologismos, projetos e obras de infinda riqueza. Não se temia experimentar e sequer colocar em cheque os dogmas estabelecidos pela arte acadêmica, pois dela transpirava o gosto burguês pela representação naturalista, pelo ornamento, pela hierarquia de valores e temas, fosse no design, na arte ou na arquitetura. Toda espécie de risco era assumida para que a linguagem de um novo mundo pudesse ser construída, articulada e ouvida em todos os rincões dos sovietes e se expandissem para o mundo todo. Talvez não exista um momento em que artistas tenham se arriscado tanto, experimentado tanto, criado tanto, divergido tanto e dialogado tanto, tanto a ponto de questionarem, pela primeira vez, o próprio conceito de arte. E, também por isso, pelo risco demasiadamente assumido, os agrupamentos teriam que ser extintos para darem lugar a um conjunto de pessoas que se coadunassem, de alguma maneira, com uma única diretriz totalizante, emanada de um único poder, o mesmo que decretou o fim de toda e qualquer divergência e, portanto, da possibilidade de diálogo.

IdE: Como e por que tiveram fim as Vkhútemas, e qual o papel do stalinismo nisso e como essa questão se relaciona à burocratização da revolução soviética?

Neide: Dentro do contexto em que as faculdades de Vkhutemas foram concebidas e se desenvolveram, sua inusitada pegadogia se alinha com os anseios de todas as iniciativas experimentais soviéticas deste período: cinema, teatro, literatura, etc. E, embora estas escolas tenham se agrupado em instituições distintas, o transito entre os fazeres se materializa em tudo o que podemos observar que foi feito neste período. Métodos forjados nos laboratórios do teatro de Meierkhold migram para o cinema de Kulechov e Eisenstein, o uso da câmera de Viértov contamina o olhar apurado de Rodchenko, não apenas em suas fotografias, mas também no desenho dos cartazes, linhas de projetos arquitetônicos passam a desenhar tipos de letras de Lissítzky, o cinetismo projetado nas telas dos cineteatros se movimentam, coloridos, nas estampas de Popova, as colagens de trechos de filmes de Chub transparecem nos textos reconstruídos de Gan; e os exemplos são inúmeros, aqui apenas uns poucos. Sem dúvida, tamanho grau de inventividade fazia tremer as bases do controle estatal e sua arquitetônica burocrática, e o conjunto de ações tomadas sob a direção de Stalin foram determinantes para que o fluxo ininterrupto de troca e criação tão pungente fosse fatalmente interrompido. Mas, a complexidade das tensões existentes neste momento não pode ser resumida a uma canetada do chefe, nem ao acúmulo de papeis nas mesas do Politibiurô. Com o distanciamento histórico e decorridos quase trinta anos da Pierestroika, pesquisadores eslavistas investigam com maior fôlego arquivos recém abertos (e aguardam outros, a se abrirem) e hoje há pontos de vista, por vezes controversos, sobre este assunto, que buscaremos explorar em nosso livro. A nós, a riqueza desses olhares divergentes desdobra possibilidades investigativas que sinalizam que o ponto final está longe de ser alcançado. E nossa aspiração e contribuição é para com o aprofundamento dessa pesquisa.

Além de que, uma coisa é a instituição Vkhutemas e outra é o conjunto de conhecimentos gerados. O término de uma instituição não implica na morte do conhecimento, tanto que estamos nós aqui, cem anos depois, conversando sobre este assunto.

IdE: Hoje, ouvimos falar muito pouco da experiência da Vkhútemas, e o livro que vocês estão lançando cumpre um papel fundamental em avançar para suprir essa lacuna. Por que se fala tão pouco de uma experiência de tamanha importância, quais legados não reconhecidos ela nos deixou e qual a importância de retomar atualmente essa história?

Neide: Em nosso livro levantamos algumas hipóteses sobre este apagamento/invisibilidade histórica. O que é relevante, neste momento, é justamente iluminar este período que ficou na sombra da história por cem anos, parte por responsabilidade dos russos, parte por omissão e ação de pessoas no mundo todo que se aproveitaram, inclusive, deste apagamento para se apropriarem das pesquisas e projetos realizados sem darem crédito algum aos verdadeiros criadores e criadoras. Temos exemplos contundentes que traremos em nosso livro: estampas da Popova, estudos de colorimetria de Maiakóvskaia, projetos arquitetônicos como os da Komárova e vários outros. Isso também exemplifica o que foi dito acima, que o término de uma instituição não implica na morte do conhecimento. Este flui, conheçamos ou não suas origens e verdadeiros criadores e criadoras e, ocultando-se os nomes, outras histórias ganham espaço. Quando revelamos os nomes, a História também se reposiciona, valores são questionados e nossa visão da arte, do design, arquitetura e política se redimensiona. Trazer a público a história de Vkhutemas, é ampliar o espaço da História até então contida, é abrir uma cortina para que a luz torne visível a fisionomia dos mestres para que novos alunos, em outro tempo e espaço, possam usufruir dessas pedagogias.

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