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CASO MALDONADO

Caso Maldonado: crônica de uma descoberta anunciada?

O juiz Lleral ordenou invadir a estância de Benetton, mas não o fez. Antes apareceu um provável corpo de Santiago, próximo de onde havia desaparecido há 80 dias atrás. Interrogantes e dúvidas surgem.

sábado 21 de outubro| Edição do dia

Foto de Joaquín Díaz Reck

A imagem que ilustra essa nota é do acesso ao território da estância Leleque de Chubut. Esse lugar foi nomeado muitas vezes nos últimos 80 dias. Por três razões.
Primeiro, porque é o centro de operações do grupo Benetton na região. Segundo, porque ali funciona um virtual destacamento da Polícia Militar e uma toca das guardas brancas que costumam atentar contra as comunidades mapuche.

E terceiro, porque desde que desapareceu Santiago Maldonado o lugar foi nomeado como um dos possíveis destinos do jovem artesão sequestrado.

Durante 80 dias a estância de Benetton gozou da mais absoluta blindagem garantida pelo Estado. Tanto o Poder Judicial, encarnado em Guido Otranto, como o Executivo, representado alternadamente por Patricia Bullrich, Pablo Noceti, Gonzalo Cané e Germán Garavano, se encarregaram de molestar o menos possível o proprietário multinacional. Só lhe pediram permissão um par de vezes para montar algum ou outro rastreador, obviamente em lugares que não produziram nenhum resultado.
Entretanto, nessa quarta-feira a jornalista Adriana Meyer publicou no Página 12 a resolução do juiz Gustavo Lleral (assinada na sexta-feira, dia 13), em que ordenava o rastreio do Rio Chubut em um trajeto que abarca não só a comunidade Pu Lof de Cushamen, mas também a estância Benetton. E ordenou textualmente “a invasão do território ocupado pela comunidade denominada ‘Pu Lof em Resistência, Cushamen’ e da Estância Leleque da Companhia ‘Terras Sud Argentino S.A’”.

Que Lleral, homenageando a Otranto, ordenasse invadir a Pu Lof não era novidade. A surpresa é que pela primeira vez no marco do acontecimento, havia uma ameaça séria de que pessoas realmente interessadas em chegar à verdade como a família de Maldonado, os membros da comunidade mapuche e a Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos (APDH) pudessem ter acesso a uma perícia nesse lugar.
A resolução restringia as invasões, garantindo o acesso ao Rio Chubut, mas habilitava também o “sequestro de todo elemento que pudesse servir como meio de prova, ou que pudesse, de um modo ou outro (racionalmente considerado), estar relacionado com a investigação”.

Reconhecendo o direito que possuem na causa, o magistrado convocou a participar do rastreio Sergio Maldonado, sua advogada Verônica Heredia, membros da Pu Lof e a APDH regional. Quando os notificou, pediu a todo custo “que guardem a maior reserva” sobre o conteúdo da resolução, o que efetivamente fizeram.
A ordem foi emitida ao meio dia da sexta-feira, 13, mas sua execução se marcou para a terça-feira, 17, às 7 horas manhã. Ou seja, 90 horas depois. Um tempo precioso para quem quisesse modificar alguma cena ou plantar algo ali onde se iria fazer o rastreio. Desde que contasse com informações precisas, claro.

O fator Ruata

A fiscal Silvina Ávila repete a quem quiser escutar que o rastreio tinha sido pedido originalmente por ela. Ansiosa, até disse em um comunicado de imprensa na terça-feira, enquanto o corpo ainda flutuava no rio. Mas o juiz Lleral nem a mencionou em sua resolução de sexta-feira. Pelo contrário, lhe adjudicou toda a autoria do pedido de rastreio ao prefeito principal Leandro Antonio Ruata.

Ruata é chefe da delegação Bariloche da Prefeitura Naval e foi quem dirigiu os rastreios anteriores, ordenados por Guido Otranto. Segundo Lleral, uma vez que teve cargo à causa se apresentou o próprio Ruata a prestar uma “declaração testemunhal”. “Acredito que deveria se repassar o rio algumas vezes mais porque tem muitas zonas irregulares e muitos ramos. Eu faria um repasso completo de todas as zonas”, escreveu o juiz do que lhe foi dito por Ruata.

A ideia de repassar (voltar a passar) com outro rastreio a zona não havia caído nada bem aos membros da Pu Lof quando se adiantou o mesmo juiz em sua visita ao território. É compreensível, já que, uma vez mais, se terminaria dando foco aos que sofreram a repressão do 1° de agosto e não em quem a executou. Precavido, em seu escrito, Lleral agradeceu o diálogo aos mapuches e ordenou que o pessoal que o acompanhou no rastreio fosse o mínimo possível e que não portasse armas.

Ruata foi parte desse pessoal. Ou seja, não só foi quem sugeriu um novo rastreio, mas também quem, por ordem do juiz, dirigiu o grupo e os guias com seus cachorros adestrados na procura de restos humanos. Não é necessário dizer que a essa altura o prefeito e sua equipe conheçam a zona com perfeição.

Em sua resolução, Lleral escreveu que não permitiria participar do rastreio representantes do “Estado Nacional Argentino, que resultou denunciado a nível internacional” nem as “forças de segurança e funcionários que eventualmente pudessem estar involucrados nos acontecimentos”. Mas a ordem de que o prefeito Ruata dirija o rastreio é a negação dessa negativa.

Não foi possível confirmar a assistência de Ruata na reunião de altos mandos de todas as forças nacionais e da região convocada por Noceti, em Bariloche na segunda-feira, 31 de julho. Mas o que é certeza é que Ruata cumpre as ordens da chamada “mesa de coordenação de todas as forças”, inaugurada nessa reunião, nunca desativada e cujo objetivo de “terminar com a RAM” foi explicitado mais de uma vez por Noceti.

Seja por disciplina verticalista, seja por obediência política, Patricia Bullrich e Pablo Noceti se inteiraram na própria sexta-feira do que Ruata iria fazer três dias depois. Talvez tenha sido o próprio prefeito que o tenha informado. Ou talvez tenha sido Gonzalo Cané, secretário de Cooperação com os Poderes Judiciais, Ministérios Públicos e Legislaturas do Ministério. A ele, nada menos, Lleral encarregou os cachorros adestrados.

Se Bullrich, Noceti e Cané sabiam, claramente a Polícia Militar também sabia.

Águas abaixo

Como relatado em outra nota, para várias das pessoas que participaram do rastreio o corpo descoberto a poucos metros de onde havia sido visto com vida pela última vez Santiago, foi “plantado”. Entre essas pessoas não estão, claramente, o juiz Lleral, o prefeito Ruata nem nenhum de seus subordinados.
Os testemunhos de Sergio Maldonado, de sua companheira Andrea Antico, da advogada da família, Verônica Heredia, dos referentes da APDH, Mabel Sánchez e Julio Saquero, e de homens e mulheres da comunidade Pu Lof, são mais que coincidentes. E disseram dados reveladores.

Por exemplo, que o rastreio começou aproximadamente uns dois quilômetros rio acima contando desde a altura do portão de ingresso. Ali, Ruata ordenou aos seus subordinados que se dividissem em grupos e, acompanhados por membros da comunidade mapuche, começaram a rastrear rio abaixo.

Quando já levavam um par de horas de lenta navegação um dos botes, em que viajava o testemunho chave, Matias Santana, deu uma volta por uma má manobra, submergindo à tripulação e alterando o clima da procura. Minutos depois, um dos agentes da Prefeitura anunciaria a descoberta do corpo, o qual estava flutuando, sem estar preso a nenhum tipo de ramo e raízes que costumam povoar essa costa.
Durante essas angustiantes horas os familiares de Santiago, os jovens mapuches, a advogada Heredia e os referentes da APDH tiveram que superar a comoção e montar uma verdadeira “guarda” para garantir que nada fosse alterado até que chegasse o perito.

Enquanto isso, sem maiores trâmites, o juiz Lleral decidia dar por concluído o rastreio e levar o corpo à funerária de Esquel, o que aconteceu depois das 21 horas.
Em um breve comunicado emitido esta noite, Lleral se limitou a confirmar a descoberta de um corpo e relatar algumas poucas formalidades processuais. Nenhuma menção às características da descoberta. Tampouco alguma explicação de porquê se deu por concluído o rastreio, sendo que com a aparição de um corpo se deveria aprofundar a busca de provas. Assim como também não se anunciaram novas medidas investigativas.

Pela noite, Maria Victoria Moyano, neta recuperada pelas Avós da Praça de Maio e membro do Centro de Profissionais pelos Direitos Humanos (CeProDH), fez duas perguntas muito pertinentes: “Não devia (o juiz Lleral) continuar e realizar a invasão à Estância de Benetton tal como já estava ordenado?”, e “o corpo plantado no rio teve algo que ver com a invasão que estava anunciada?”.

Interrogantes

As perguntas de Moyano são compatíveis com um raciocínio ajustado aos acontecimentos:

• O juiz ordena invadir um dos lugares suspeitos de ser destino do desaparecido, mas que não havia sido invadido até então.

• O faz com 90 horas de antecipação, dando tempo a quem tenha o corpo a preparar o “descarte”.

• A ordem é conhecida de imediato pelos chefes políticos dos suspeitos pelo desaparecimento de Santiago, que inclusive são os mesmos que os encobrem.

• O juiz ordena fazer o rastreio quase em segredo, mas convoca a participar quem esteja interessado a encontrar Santiago.

• Se encontra um corpo logo depois de começar, em um espaço e em condições que obrigam a pensar que foi plantado.

• Imediatamente o juiz dá por finalizado o rastreio.

• A estância de Benetton segue blindada.

A hipótese não é descabida. Desde o minuto zero da descoberta do corpo, o Grupo Clarín, em consulta permanente com a Casa Rosada, lançou uma campanha furiosa contra os membros da comunidade Pu Lof de Cushamen. Desde mentirosos até terem sido os responsáveis por “plantarem” o corpo, as acusações sobre os jovens mapuches não têm outro objetivo que instalar a ideia de que nem a Polícia Militar, nem o Governo nacional, muito menos Benetton, tiveram algo que ver com o desaparecimento forçado de Santiago.

Os mesmos vozeiros oficialistas pretendem torcer a realidade com outra operação. Agora declaram que o lugar da descoberta não havia sido rastreado antes. Mas segundo o juiz Lleral, o prefeito Ruata sugeriu rastrear zonas que já haviam sido rastreadas (sob sua condução) e de cujos resultados negativos desconfiava.

Outra hipótese, também verossímil, se esboça por essas horas. O experimentado jornalista e investigador Ricardo Ragendorfer declarou em um artigo da revista digital Zoom que “é possível – já que os moradores indicam que até então não havia nada estranho nessa área do rio – que os restos em questão tenham sido implantados no próprio sábado, depois do anúncio do magistrado”. Em muitos aspectos, essa hipótese coincide com o raciocínio anterior.

Os interrogantes são muitos. E se multiplicam ao ler a ordem do juiz Lleral assinada na sexta-feira, 13, e executada a meados de terça-feira, 17.

Pensará Lleral, que o corpo foi “plantado”?

Já sabia na sexta-feira que três dias depois se iria encontrar o que foi encontrado?

Recebeu Lleral, como disse Clarín, uma chamada na terça-feira pela manhã com o “dado” de que esse corpo estava ali?

Por que Lleral não aprofundou a investigação, invadindo a estância de Benetton imediatamente e rastreando rio acima, onde alguns quilômetros ao norte o mesmo grupo empresário tem campos?

Recém estão começando na funerária da rua Viamonte da cidade de Buenos Aires, capital do país argentino, os estudos forenses sobre o corpo descoberto na terça-feira a quase dois mil quilômetros de distância.

Poucas vezes como nessas horas a ansiedade e o temor inundaram por igual a estância Leleque e o Ministério de Segurança.

Tradução de Lara Zaramella




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