Gênero e sexualidade

FEMINICÍDIO ARGENTINA

Carta do irmão de Lucía: "É preciso ter força e sair às ruas"

sexta-feira 25 de novembro| Edição do dia

Na verdade, eu teria gostado de poder ilustrar essa carta com alguma foto minha, rindo junto da minha irmã. Ou com uma foto dela, abraçada pelos meus pais. Mas não, não podemos, nem mesmo isso podemos, porque enquanto tentamos processar a ideia de que a mataram e como a mataram, estamos obrigados a processar as ameaças de morte que chegam a nós.

Como era Lucía? Como a arte, como o rock, como o amor aos animais. Aí, em cada estrofe de "Viejas Locas", em cada "pogo ricotero" e em cada abraço a um cachorro abandonado, sempre vão poder encontrá-la sorrindo, mimando seu cachorro e jogando simpatia pra todos os lados, por via das dúvidas.

Vivia tranquila, sem sair muito de casa, até esse maldito sábado, 8 de outubro. Pegaram ela às 10h, quando nosso pai já havia ido pro trabalho. E as 15h, quando minha mãe chegou do trabalho, encontrou o Facebook aberto em seu computador, junto com a garrafa de mate, porque sim, Lucía acreditava que ia voltar imediatamente pra sua casa.. Levaram ela contra sua vontade.

Às 18h uma amiga me avisou que devíamos ir na polícia, porque minha irmã tinha sofrido um acidente. Não podia imaginar o que me esperava. Ao chegar, com minha mãe, a oficial que nos atendeu não sabia o que nos dizer, e por isso ficamos esperando 10 eternos minutos no escritório da polícia, até que nos deram a notícia. Nosso mundo caiu. Pedi pra reconhecer o corpo, mas não deixaram. Me recusei a ir embora e insisti incansavelmente, até que pude vê-lo: estava em uma cama, com os olhinhos entreabertos, como estava acostumada a dormir.

Matías Farías, Juan Pablo Offidania e Alejandro Maciel, os três suspeitos, hoje estão detidos. Mas isso não é suficiente: queremos justiça de verdade, que sejam investigadas todas as causas envolvidas e que cada pessoa com informação possa dar seu depoimento. Necessitamos de apoio, não importa de quem, porque este caso diz respeito a todos e não pertence a nenhum setor partidário: se trata de uma menina, minha irmã, que morreu de forma horrenda.

E devemos ser conscientes, sim, porque desta vez foi Lucía que sofreu essa violência bestial de gênero, mas a próxima pode ser você ou a pessoa que você mais ama no mundo. É preciso ter força e sair às ruas, para gritar todos juntos, agora mais que nunca: Nenhuma a menos!

Somente assim evitaremos que matem a milhares de Lucías mais.

E somente assim poderemos fechar seus olhos, para vê-la descansar em paz.

(*) Publicada na página de Facebook La Garganta Poderosa

Publicado originalmente em 19 de outubro de 2016.




Tópicos relacionados

25nov2016   /    Mulher   /    Violência contra a Mulher   /    Gênero e sexualidade   /    Internacional

Comentários

Comentar