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TODA A SOLIDARIEDADE À LUCIANA NOGUEIRA

Carta do Pão e Rosas à Luciana Nogueira, viúva de Evaldo: a vida não deveria ser assim

Cada uma de suas lágrimas e cada segundo de seus gritos de desespero cortam nosso coração. Agora, sua tristeza compõe o rio de lágrimas de muitas outras mães e esposas, num país onde nascer negro e pobre significa receber a marca de suspeito por toda a vida. Mas a vida não deveria ser assim. Estabelecemos com você, Luciana, nosso compromisso de seguir lutando por uma vida que valha a pena ser vivida.

Pão e Rosas

@Pao_e_Rosas

terça-feira 9 de abril| Edição do dia

Luciana,

Cada uma de suas lágrimas e cada segundo de seus gritos de desespero cortam nosso coração. Agora, sua tristeza compõe o rio de lágrimas das tantas mães e esposas que perderam filhas, filhos, maridos, esposas, irmãos e irmãs pelas mãos do racismo e da violência institucional que marca a realidade de nosso país, onde nascer negro e pobre significa receber a marca de suspeito por toda a vida.

Essa repressão e violência estatal tem sido cada vez mais explícita e frequente. Enquanto o Rio de Janeiro está em ruínas, vemos Witzel e Crivella não investirem nenhum centavo em direitos sociais e na reconstrução da cidade, porque pra eles, o problema dos pobres deve ser resolvido com sangue. Desde 2016, muito mais mulheres vivem esse terrível drama no qual você forçosamente foi inserida, fruto de um país que entra numa crise econômica e política e que, sob a direção dos ricos e poderosos, e de seus representantes políticos, decide resolver cada um dos problemas sociais com balas e militares, enquanto milhares sofrem o drama da falta de moradia, dos alagamentos com as chuvas, do trabalho precário sob o risco de vida.

Seu pranto alimenta ainda mais nosso ódio contra esses ricos e poderosos. Sabemos que numa sociedade que fosse dirigida por pessoas como você, como Evaldo, como seus familiares, por todos nós trabalhadoras e trabalhadores, resolveríamos nossos problemas de formas muito diferentes. A prova disso é a sua indignação com a violência que mudou o rumo da sua vida; a coragem de seu cunhado que mesmo alvejado de balas tentou ajudar e salvar a vida de seu marido. Vocês e todos os que passam por dramas e pela coragem de lutar pela própria vida contra as balas do Estado, são os verdadeiros heróis do país. Esses militares, que assassinaram no Haiti, que assassinam no Brasil, jamais poderiam ser alvo de homenagens e de celebração, como quer Jair Bolsonaro e sua corja de racistas, inimigos das negras e negros, dos pobres e de toda a classe trabalhadora.

Eles querem nos fazer pagar com nosso sangue e nossas lágrimas pela crise social, política e econômica que eles criaram. Mas não podemos deixar. Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, choramos junto com você essa triste perda que você sofreu, e escrevemos essa carta para que você saiba que junto de você há centenas de mulheres dispostas a lutar por justiça por Evaldo, por colocar lado a lado da tristeza e do ódio, a força que vimos manifesta em você, que transformada em força organizada pode ser capaz de trazer para a realidade os sonhos que temos de uma sociedade livre do racismo, onde a tristeza e a perda não sejam uma certeza.

Essa carta é nossa forma de nos solidarizar profundamente com sua perda, e nossa compromisso por seguir na luta contra cada uma das violências e tristezas que nós mulheres somos submetidas na sociedade capitalista. Nos impedem do direito ao nosso próprio corpo, impedem nossa livre sexualidade, nos matam, como fizeram com Marielle, nos estupram coletivamente, e se não nos atingem com a violência doméstica, o trabalho precário, o assédio sexual, nos atingem com a perda de nossos companheiros e filhos. Exigimos junto de você justiça por Evaldo, por Marielle, por Marcos Vinícius e Maria Eduarda, mortos ainda de uniforme escolar.

A vida não deveria ser assim. Nenhuma mulher deveria passar pela enorme tristeza de perder prematuramente seu companheiro, ainda mais de maneira tão trágica e violenta como a que assassinou seu marido Evaldo Rosa no último domingo. Estabelecemos com você, Luciana, nosso compromisso de seguir lutando por uma vida que valha a pena ser vivida.




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