Educação

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Carta do Nossa Classe Educação à José Carlos, diretor do CEU EMEF Alto Alegre: estamos juntos com você, nossas vidas não valem menos!

Leia a carta do Movimento Nossa Classe Educação à Jose Carlos, diretor do CEU EMEF Alto Alegre, escola da rede municipal de São Paulo, que dividiu com a rede sua dor ao perder sua companheira de vida Lusia e também professora da rede em decorrência da COVID-19. José denunciou uma situação que milhares de trabalhadores da educação vem sofrendo a imposição da continuidade do trabalho nas escolas sem quaisquer condições reais de proteção, numa lógica irracional que expõe a vida desses trabalhadores e seus familiares. Estamos com José para dizer à Covas, Doria e Bolsonaro que nossas vidas não valem menos!

quarta-feira 13 de maio| Edição do dia

Foto: Professores do Movimento Nossa Classe no ato organizado pelo SINDSEP na última segunda em memória aos trabalhadores da educação vítimas da COVID-19 e exigindo o fechamento imediato das escolas da rede municipal de ensino.

À José Carlos, diretor do CEU EMEF Alto Alegre,

Na semana passada muitos de nós, ao ouvir seu áudio emocionado e inconsolável pela morte de sua esposa, choramos junto com você. Choramos ao sentir um pouquinho da dor que é perder uma companheira de vida. Soluçamos ao imaginar a dor que é perder uma mãe ou uma filha. Esses áudios que você gravou, cheios de dor, chegaram a milhares de pessoas que, tenho certeza, se irmanaram com seu sofrimento dor e desejaram, porque nessas horas só podemos desejar, que seu coração partido se aquecesse com nosso choro.

E do choro também sentimos revolta. Revolta de saber que a Lusia, sua companheira e nossa colega de profissão morreu porque a Secretaria Municipal da Educação e o prefeito Bruno Covas impõem aos gestores, ATE’s e as trabalhadoras terceirizadas que seguem tendo que abrir as escolas mesmo com a pandemia, que exponham suas vidas e as de suas famílias, como se houvesse vidas que podem ser arriscadas. Não, nossas vidas não valem menos!

Lusia era educadora, uma profissão que é marcada pela luta por um mundo melhor. Era mãe, companheira, filha, assim como cada um dos nossos colegas vítimas da COVID-19. Não sabemos seus nomes, ou, às vezes, só sabemos porque um amigo, um colega, um familiar compartilhou conosco a sua dor. Mas para nós não são apenas números, apenas parte de uma fria estatística que os governos usam como argumentos inúteis para justificar tal ou qual decisão que coloca em risco a vida dos trabalhadores. São parte indissociável da nossa classe, daquela que faz o mundo funcionar, que move a história. E por cada trabalhador morto, que merecia mais da vida, que merecia mais do mundo, choramos e gritamos por sua morte. Mortes que poderiam ser evitadas tanto por causa da exposição desnecessária a que foram submetidos, como por causa da falta de EPI’s, de testes, de estrutura do Hospital do Servidor e de todo o SUS. Mortes que são culpa da falência de um sistema em crise, cujo ônus os governantes já vinham descarregando em nossas costas nos últimos anos.

Nós educadores que entre tantas coisas ensinamos a nossos alunos que é preciso sonhar apesar de suas vidas muitas vezes atravessadas por misérias e mazelas, nesse momento, assim como todos os demais que seguem na linha de frente, estamos vendo milhares de óbitos prematuros ceifarem sonhos, a perspectiva de futuro e o direito ao amanhã com a dignidade que nos negaram historicamente. Mas diferentemente do que eles pensam somos, pessoas e não peças, como te fizeram sentir.

Queremos dizer, José, que a vida de Lusia e de cada trabalhador e trabalhadora do chão da escola,e todos os trabalhadores vítimas da COVID e da irresponsabilidade desses governos importa. Queremos dizer que estamos com você em seu luto que nos fez chorar, mas também na luta para que as escolas nesse momento permaneçam fechadas, sem que nenhum trabalhador tenha que se expor ao contágio. E isso para todos os trabalhadores dos serviços não essenciais que seguem sendo expostos e arriscando a suas vidas e de suas famílias só em nome do lucro dos patrões. E seguimos na luta também por aqueles que seguem trabalhando, que tenham condições dignas de trabalho com todos os EPI’s necessários para se protegerem. Porque é a vida de uma mãe, de uma filha, de uma amiga, de uma companheira que deve ser protegida.

A morte não tem cura. Mas a vida não precisa ser assim. Precisamos transformar essa realidade, mudar a raiz de tudo para que nossos filhos possam viver uma vida que valha a pena ser vivida. Estamos juntos com você, José!

Por Lusia e por todas e todos trabalhadores da educação que tiveram suas vidas interrompidas pela COVID 19,

Educadores e educadoras que compõem o Movimento Nossa Classe Educação.




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