Gênero e sexualidade

NI UNA MENOS

Carta de trabalhadoras e empregadas domésticas sobre o "Ni Una Menos" na Argentina

O Esquerda Diário divulga uma carta escrita por trabalhadoras da área de alimentos, gráficas, metalúrgicas, têxteis, limpeza, de plástico e empregadas domésticas antes da mobilização que ocorrerá hoje na Argentina.

quarta-feira 19 de outubro| Edição do dia

Somos trabalhadoras da área de alimentos, gráficas, metalúrgicas, têxteis, limpeza, de plástico e empregadas domésticas. Somos as que deixamos todos os dias nossa saúde nas fábricas e nossos corpos aguentam exaustivas jornadas, as que os patrões tratam com descaso, as que sofrem com os turnos rotativos e não podem passar tempo como nossos filhos e filhas, as que voltam para a casa e seguem trabalhando para nossas famílias. As que vão trabalhar doentes porque se não nos descontam o dia e não podemos sustentar um prato de comida para nossos filhos. Somos as que limpam as casas de nossos patrões e patroas, muitas vezes de sol a sol, sendo tratadas como serventes e escravas. As que com a idade, temos as mãos calejadas, as costas arqueadas e os braços débeis por causa de tendinites.

Somos as que sofrem perseguições de nossos chefes, patrões e supervisores, as que sofrem a discriminação por estar nos piores postos de trabalho, somos as que não podem dispor de nossos corpos por conta de doenças que se somam com a jornada de trabalho. As que quando sofrem violência, temos que seguir trabalhando. Sofremos a violência de gênero e os feminicídios junto a esta enorme lista de violências que enfrentamos dia a dia.

Somos exploradas por ser trabalhadoras e oprimidas por sermos mulheres

Enfrentamos as perseguições em nossos trabalhos, como em Kraft em 2011 quando paramos a fábrica contra o assédio sexual de um supervisor a uma companheira, e o fizemos junto a nossos companheiros homens. A empresa já havia suspendido três dias o supervisor, mas buscamos uma grande conquista em unidade e solidariedade de classe que se estendeu rapidamente contra os assédios e maus-tratos.

“ É por isso que hoje pedimos a nossos companheiros trabalhadores que nos acompanhem, que marchem junto a nós”

Enfrentamos também a discriminação como a que sofreu uma companheira trans, trabalhadora da ex Donnelley, que tinha que entrar vestida de homem para que a empresa e seus companheiros não a descriminassem. Mas junto da Comissão de Mulheres (composta por esposas, mães e familiares) com os trabalhadores se solidarizaram, conseguindo o respeito de seus companheiros e com essa força eles lutaram para que a empresa reconhecesse seu direito e para que ela tivesse seu próprio vestiário. Hoje litamos pela expropriação da fábrica, como o controle dos trabalhadores juntamente com nossos companheiros.

Continuamos lutando para colocar de pé nossos grêmios como é o caso do Sindicato de Empregadas de Casas de Famílias de São Nicolás.

Também enfrentamos as demissões, porque não podemos nos dar ao luxo de “buscar um trabalho melhor”. E ao lado de nossos companheiros trabalhadores somos a linha de frente, como em Lear onde fizemos frente as repressões policiais para dizer que nunca mais iriamos nos calar. Também fizemos em Kromberg e em muitos outros conflitos.

Em todas as nossas lutas tivemos que lidar com a burocracia sindical que joga com os patrões e com os diferentes governos pois são subservientes a sua sede de lucro. Com a justiça e todas as instituições do Estado que é para os ricos. Um Estado que é cumplice das mortes de mulheres, que seguem acontecendo, sem sequer garantir as condições mínimas como abrigos, licenças médicas e equipes interdisciplinares e de apoio a este sistema miserável que se baseia na exploração de milhares de mulheres e homens.

“É por isso que exigimos aos grêmios e as centrais sindicais uma paralisação de toda a classe trabalhadora para enfrentar os feminicídios”

Há aqueles que consideram que temos que lutar só, as mulheres, contra toda a opressão e a violência que sofremos, sem chamar nossos companheiros que lutam junto conosco. Cremos que estão profundamente equivocados.

Nós, as que sofremos na própria carne não só a violência que exerce a cultura machista, mas também os profundos sofrimentos, sabemos que não podemos darmos este luxo. Não podemos fazer porque o inimigo que enfrentamos é muito grande e forte. Por isso sempre buscamos conquistar o maior apoio para fazer frente, em cada luta que enfrentamos têm mostrado que somente com a unidade dos trabalhadores, com a unidade da classe trabalhadora, é que podemos conquistar a força necessária para terminar com a exploração capitalista e acabar com a base da opressão que sofrem as mulheres.

É por isso que exigimos aos grêmios e as centrais sindicais uma paralização de toda a classe trabalhadora para enfrentar os feminicídios, porque assim teremos nossas forças unidas. OS trabalhadores e trabalhadoras de PepsiCo deram o exemplo votando a paralisação de uma hora por turno, exigindo ao sindicato que colocassem vans para mobilidade e que a empresa não descontasse a falta para que todos pudessem assistir à mobilização em repúdio ao brutal assassinato de Lucía Pérez e tosos os feminicídios que não acabam pela cumplicidade do Estado.

Primeiras assinaturas:

Lorena Gentile, trabalhadora de Mondelez (ex Kraft)

Carina Brozozwski, trabalhadora de FeltFort

Marta Noemí Lobo, trabalhadora doméstica

Catalina Balaguer, trabalhadora de PepsiCo

Mónica Ortiz, trabalhadora de PepsiCo

Elizabeth Vique, trabalhadora de PepsiCo

Liliana Giménez. SinDeCaf (Sindicato das empregadas de Casas de Família)

María de los Ángeles Plett, trabalhadora de Madygraf (ex Donnlley)

Andrea Valdez, trabalhadora de Procter & Gamble

Melina Szteinman, trabalhadora gráfica Cedinsa

Irene Asam, trabalhadora de FeltFort

Gabriela Vera, trabalhadora de Madygraf (ex Donnlley)

Solange Avila, demitida de Kromberg que continua lutando pela sua reincorporação

Debora Espinoza ex trabalhadora de Kromberg

Florencia Silva, ex trabalhadora de Procter & Gamble

Beatriz Coria, trabalhadora da empresa de limpeza Claryty

Melina Anabella Paz, trabalhadora de Madygraf (ex Donnelley)

Sandra Montenegro, trabalhadora da Cooperativa Worldcolor

Mayra Perez, trabalhadora da Cooperativa Worldcolor

Rocío Flores, delegada Falcon - tercerizada da Aerolíneas Argentina

Ayelén Córdoba, fundadora da Comissão de Mulheres Aeronáuticas - tercerizada da Aerolíneas Argentinas

Dolores Arévalo, dona de casa – ativista de Villa 31

Emilia Hidalgo, Comissão de Mulheres Aeronáuticas- LAN Argentina

Soledad Díaz, Falcon - tercerizada da Aerolíneas Argentinas

Cintya Rodríguez, Falcon- tercerizada da Aerolíneas Argentinas

Natalia Ibáñez, delegada da Redguard- Tercerizada LAN

Carolina Medina, Falcon- tercerizada da Aerolíneas Argentinas

Laura Magnaghi, integrante da Junta Interna e Comissão de Mulheres do Hospital Alende (Ingeniero Budge)

Macarena Guzmán, trabalhadora ferrocarril de Roca




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