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Aliança operário estudantil | Carta de estudantes da UFMG aos metalúrgicos da Sae Towers: o que aprendemos com a greve

Durante as últimas semanas tivemos uma verdadeira aula: os metalúrgicos da Sae Towers em Betim fizeram uma das mais longas greves da categoria na história do país, e nós, estudantes que estivemos lado a lado apoiando, saímos mais fortalecidos dessa experiência. Queremos com essa carta dizer que dedicaremos nossas energias, agora renovadas, para ajudá-los a vencer, companheiros!

sábado 11 de setembro | Edição do dia

Imagem: Marcelo Lana

Não há estudante que tenha acompanhado a greve dos metalúrgicos da Sae Towers em Betim, presencial ou virtualmente, que não diga com toda certeza “nunca vou esquecer dessa experiência”. Logo que chegamos pela primeira vez na porta da fábrica, os trabalhadores ficaram felizes com a nossa presença, dizendo que pessoas muito inteligentes estavam ali para apoiar. Talvez vocês ainda não soubessem, companheiros, que fomos para, além de apoiar, aprender com vocês. O Esquerda Diário, o único jornal que cobriu a greve, não foi apenas noticiar, mas sim cobrir a luta de vocês de solidariedade e oferecer suas páginas para que vocês tomem nosso jornal como uma verdadeira arma.

O resultado após 38 dias de uma greve duríssima e exemplar é revoltante. Nos somamos ao sentimento de raiva de vocês, uma raiva que nos incendeia e nos faz ter certeza que precisamos dedicar nossas forças a lutar lado a lado com vocês. Também gostaríamos de estar felizes, comemorando uma vitória, mas queremos que saibam que aprendemos muitas coisas com o desfecho da greve. Uma delas é que os patrões não merecem nem um pingo de consideração dos trabalhadores, pois são os inimigos de vocês, e também são inimigos dos estudantes.

Quando vocês dizem que estão lutando porque os filhos de vocês irão substituir os postos que vocês ocupam nas indústrias, para que eles possam fazer isso com direitos trabalhistas, nos lembramos que os ataques que sofremos à educação só existem porque os patrões e os seus políticos e juízes de estimação nos querem apenas como mão de obra precária e sem direitos. Por isso, reforçamos nosso compromisso de nunca dividir as demandas dos estudantes e dos trabalhadores, pois nossa luta é uma só. Em cada manifestação estudantil levantaremos as nossas bandeiras uma ao lado da outra: contra os cortes na educação, pelo fim do teto de gastos públicos, pela revogação das reformas trabalhista e da previdência, e também das MPs da morte e da terceirização irrestrita, dentre outras.

A força, a combatividade e a solidariedade que vocês expressaram nos emocionou e encheu de energia. Mesmo com o grande ataque da empresa e da justiça vocês decidiram não parar de lutar, mas sim seguir batalhando desde dentro. Ver vocês lutando por equiparação salarial, com trabalhadores que recebem mais defendendo os direitos daqueles que recebem menos, é uma inspiração para que sempre nos lembremos de combater as ideologias individualistas que às vezes existem na universidade. Não podemos nos esquecer que enquanto alguns de nós sofrerem mais ataques aos seus direitos, nenhum de nós vai vencer. Não queremos “evoluir” individualmente, nos separando da maioria da nossa classe e do nosso povo. Queremos vencer coletivamente!

Muitos de nós, estudantes da UFMG, somos filhos de pessoas como vocês, mas não nos contentamos que ainda não sejamos a maioria nas universidades, sendo que somos a maioria da população. Saibam que lutamos ao lado de vocês na porta da fábrica e no centro de Betim, mas também na universidade, para que os estudantes mais pobres tenham plenos direitos e para que os filhos da classe trabalhadora possam entrar nas universidades, estudar gratuitamente e batalhar para colocarmos nosso conhecimento a serviço de vocês e de toda a população, e não dos patrões. Isso é o mínimo que podemos fazer para agradecer por produzirem tudo o que precisamos, inclusive as torres de transmissão, que nos permitiu ter internet para estudar na pandemia.

Quem viu e ouviu vocês ao vivo não tem dúvida de que a classe trabalhadora é a única que pode verdadeiramente resolver os problemas sociais e reorganizar todo o mundo a favor das necessidades humanas. Isso nos fornece uma lição valiosíssima: é com vocês que temos que nos aliar, e não com pessoas que estão ao lado dos patrões.

Vocês sabem que nós odiamos o presidente Jair Bolsonaro e o seu vice Hamilton Mourão, pois eles são nossos inimigos declarados, nos querem derrotados, riem dos nossos amigos e parentes mortos pela Covid-19, fazem churrascos com picanha de R$2.000 reais enquanto o nosso povo passa fome e famílias trabalhadoras ficam sem salário e sem PLR, como as de vocês. Mas essa greve apenas reforça para nós que jamais devemos nos aliar ou apoiar aqueles ratos do Congresso Nacional, ou os carrascos do Judiciário, e nem os prefeitos e governadores, pois eles também são nossos inimigos. Eles se unificaram para atacar os direitos de vocês e permitir que os patrões façam o que estão fazendo hoje. Apenas vocês, trabalhadores, são nossos aliados, e essa é a melhor parceria que poderíamos ter.

Vamos sair dizendo aos quatro cantos do país e do mundo para os estudantes, as mulheres, os negros, as LGBTs, os indígenas e para todos os que sofrem as consequências desse sistema miserável e pagam pela crise que os patrões criaram: se aliem aos metalúrgicos, às professoras, aos motoristas, às enfermeiras, aos carteiros, aos petroleiros… enfim, todos aqueles que colocam o mundo de pé todos os dias e, além disso, lutam com unhas e dentes pelos seus direitos e de toda a população.

Vocês são exemplo e inspiração, só temos a agradecer e esperamos que nossa aliança se fortaleça cada vez mais. Contem conosco para tudo! Não tenham dúvidas que na batalha que vocês terão até o dia 21 de Outubro, estaremos com vocês, confiando nas forças de vocês e não no judiciário. Aliás, estaremos com vocês em todas as batalhas dessa guerra, que temos convicção de que podemos vencer!

Nossa atuação lado a lado de vocês é guiada pelas mesmas ideias que fizeram nossos companheiros e companheiras da Faísca que estudam em diversas universidades pelo país lutarem lado a lado dos trabalhadores da MRV em Campinas pela PLR, da Carris em Porto Alegre contra a retirada dos cobradores e contra a privatização, dos radialistas da RedeTV por salário e PLR, os indígenas em Brasília pelo direito à terra e tantos outros.

Atuamos assim porque acreditamos que em cada uma dessas lutas estão os trabalhadores que podem dar uma resposta pra crise social, econômica e política que vivemos no país, no caminho de uma greve geral que possa de fato derrotar os ataques dos patrões e governos, dando passos concretos na luta por uma nova sociedade, onde os trabalhadores dirijam suas fábricas e o país, e que seja uma sociedade sem exploradores e explorados. Queremos colocar de pé uma sociedade em que trabalhar não seja uma obrigação mas sim uma forma de realizar seus desejos, em que todos possam ter tempo e acesso ao lazer, aos estudos, à arte, à saúde e tantas outras coisas que o atual sistema capitalista é miserável demais para garantir.




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