Gênero e sexualidade

DIREITO AO ABORTO

Carta às trabalhadoras da USP efetivas e terceirizadas: Lutar pela legalização do aborto já!

No dia 8 de agosto, as mulheres argentinas podem arrancar o direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Essa luta massiva que tomou conta das ruas numa verdadeira maré verde pode atravessar as fronteiras e inundar o Brasil. Mas precisamos, nós brasileiras, ser sujeitas dessa luta!

Patrícia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quarta-feira 1º de agosto| Edição do dia

Trabalhamos na maior universidade do país, numa dita universidade de excelência, reconhecida internacionalmente. Nesta universidade, nós trabalhadoras, temos papel fundamental. É também graças ao nosso suor e dos nossos companheiros que essa excelência foi conquistada. No entanto, a universidade fecha os olhos à nós mulheres trabalhadoras.

Cotidianamente milhares de trabalhadoras, porque são maioria mulheres, cruzam os portões da comunidade São Remo, para trabalhar em postos precários e terceirizados. Ganham salários baixíssimos, estão sujeitas a contratos precários e vulneráveis. Atrasos de salários e benefícios não são exceção. A universidade nega à essas trabalhadoras o transporte que é gratuito aos estudantes, professores e funcionários efetivos. Nega o direito de matricularem seus filhos nas creches da USP e agora, com o hospital sendo sucateado, negam também atendimento médico. A universidade negou, inclusive, que as trabalhadoras terceirizadas da sala de louça do bandejão central pudessem ter direito a comer as refeições que ajudam a produzir.

A nós, trabalhadoras efetivas, a reitoria também nos nega direitos. Há pouco mais de um ano, dezenas de mulheres foram brutalmente atacadas pela PM a mando da reitoria por que lutavam contra os ataques do reitor à universidade pública. Um dia após a implementação da reforma trabalhista, a reitoria lançou comunicado informando que implementaria as novas regras às gestantes e lactantes, que passariam a poder trabalhar em locais insalubres, estando sujeitas a todo tipo de riscos. A reitoria também fechou duas creches, a do hospital universitário e a creche oeste e se nega a ampliar vagas para que todas as mães, estudantes, trabalhadoras efetivas e terceirizadas, possam matricular seus filhos.

A reitoria impões que as mulheres só podem ter direito à uma falta por mês e seis por ano, para levar seus filhos ao médico. Mas as mães sabem que os filhos não escolhem ficar doentes e que seis dias é pouco. Sobre nós mulheres recai ainda, por causa do patriarcado e do capitalismo, a responsabilidade sobre nossos filhos e sobre o trabalho doméstico.

Principalmente sobre as mulheres nesta universidade também recai a maior incidência de assédios moral e sexual. Além de acobertar as denúncias de estupros como fez a reitoria no escândalo da CPI do Trote, a reitoria também acoberta chefias assediadoras como fez em relação às denúncias de assédio feitas pelas trabalhadoras e trabalhadores da prefeitura do campus em 2015, que fizeram uma greve contra a homofobia, o machismo e o assédio das chefias.

No entanto, nós mulheres trabalhadoras da USP seguimos resistindo aos ataques. Nas greves de terceirizadas, como a da Higilimp em 2016, ou nas greves de trabalhadores efetivos, somos linha de frente. Porque sabemos como essa reitoria e os governos nos massacram. Sabemos o peso que recai nas nossas costas a opressão machista.

Porque estamos numa universidade não significa que nossos direitos estão garantidos. Mas, porque estamos numa universidade podemos e devemos nos unir às professoras e estudantes para sair em luta pelos nossos direitos. Nesse momento, nossas companheiras argentinas se enfrentam com o congresso e os conservadores para garantir um direito elementar. Que as mulheres não morram vítimas do aborto clandestino.

Essa luta pode fortalecer as mulheres no Brasil para lutarem pelo direito ao próprio corpo. E Assim como na Argentina, pode se levantar um exército de mulheres insubordinadas, insurrectas para lutar contra os ataques dos governos. A legalização do aborto é fundamental e um direito elementar. Na luta por esse direito, para garantir que as mulheres possam ter acesso a ele de forma segura e gratuita quando necessitarem, é preciso também defender a saúde pública e o SUS e lutar contra o congelamento de gastos imposto pelo governo (a PEC do “Fim do Mundo”). Tanto Temer, aqui no Brasil, quanto Maurício Macri, na Argentina, estão atacando profundamente os trabalhadores com reformas como a trabalhistas que precarizam seus trabalhos e suas vidas e a da previdência que vão nos fazer trabalhar até morrer. As mulheres jovens e trabalhadoras são as mais vulneráveis às esses ataques.

Por isso, precisamos nos preparar para o combate, para lutar pela legalização do aborto no Brasil e fortalecer a unidade entre trabalhadoras e estudantes contra os ataques na universidade, contra os assédios e precarização. A assembleia de trabalhadores da USP aprovou um chamado para a construção de uma plenária de mulheres da USP para lutar pela legalização do aborto no Brasil. Será nesta quinta-feira, dia 2 de agosto às 16h no vão da História e Geografia. Chamamos todas, estudantes, professoras, funcionárias efetivas e terceirizadas a compor essa plenária.

Traremos a maré verde para a USP!




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