Internacional

HOMENAGEM

Carta a Eduardo: despedindo-me do meu pai

A seguir publicamos uma carta de Valeria, filha de Eduardo Molina, um militante de enorme tradição nas fileiras da Fração Trotskista e do PTS.

segunda-feira 30 de setembro| Edição do dia

Pai, você foi um homem cheio de amor, nos amou tanto, a nós, seus filhos, e a mãe, de uma forma incondicional e generosa. Suas mãos me receberam ao nascer, aquelas as quais segurei a última vez que te vi no hospital.
Suas mãos, pai, que consertavam todos os estragos em casa, com quais você pintou meu quarto de rosa mexicano, as que também sabiam cozinhar tão bem. Aquelas que voavam em suas apaixonadas conversas políticas.

Chegam saudações de todas as partes, seus companheiros de luta contam anedotas, compartilham os momentos que viveram com você, suas conversas, seus artigos, pequenos momentos em cafés, ou em grandes acontecimentos como nas colunas em Diagonal Norte em 2001. Tantos afetos, tanto carinho, camaradagem e solidariedade nos emocionam, nos alivia esta pena enorme de não te ter.

Com sua sensibilidade enorme, amou a natureza, quando criança teve pombos-correio, quero-queros e uma galinhazinha, a Co-co. Minha avó Sarita me contava que sabia os nomes científicos dos insetos e ela tirava de uma caixa, de papai, desenhos de peixes, beija-flores e cavalos. Ele começava seus desenhos de cavalos pelas patas traseiras.

Meu pai ilustrou uns panfletos de educação popular no final dos anos oitenta, há pouco tempo descobri que foram digitalizados por Princeton. Sabia tanto, tanto, e sua curiosidade pelo mundo era contagiosa.

Uma vez me deu um desenho feito com pastéis e eu lhe disse que gostava da flor, ao que me respondeu: “não, não é uma flor, é uma ideia flutuando, voando”. Em sua vida havia poesia.

Em La Paz, quando criança me levava ao rio de Irpavi para caminhar, juntávamos musgos, buscávamos fósseis, me deixava trazer uns sapos horríveis para casa. Eu odiava a escola e não queria fazer os deveres, mas ele me sentava em uma mesinha junto a sua prancheta de desenho e colocava música para incentivar-me a trabalhar. Me dizia que a escola era como uma doença da infância que eu tinha que passar.

A vida é bela e é preciso vivê-la sem medo, nos repetia. Papai, ele que traçou um caminho no Altiplano em Potosí. Os membros da comunidade lhe serviram a cabeça de um cordeirinho com batatas em uma panela de plástico, para se despedir e agradecer. Ele foi designer gráfico, arquiteto e contador, mas era acima de tudo um revolucionário.

Imagino você muito jovem, ouvindo com desconfiança os militantes do partido comunista que jogavam xadrez no bar da estação Lomas. Em sua aula no primeiro ano de arquitetura na Universidade Nacional de La Plata, propondo habitação social. Agitando em cima de uma mesa, na cantina da universidade, quando você já fazia parte do PST, vejo você naquele momento pelos olhos de minha mãe, que te amou desde aquele momento e para sempre.

Você estava junto ao seu amigo peruano, dormindo depois de uma volta, e não chegou em casa, o que te salvou a vida quando invadiram seu apartamento em 1977. Vejo você ligando para a avó para queimar tudo. Vejo meu irmão com a mãe, assustado, em sua viagem à Bolívia, escapando da ditadura e pergunto: Onde estão as fotos da infância de meu irmão que os militares levaram?

Eu via como papai tratava as pessoas ao seu redor, especialmente o respeito que ele mostrava a todos, em nossos países profundamente racistas. Ele viajou para a Bolívia muito jovem, para se encontrar com a mãe e se esforçou para entender o país. Em seu livro, ele capturou o melhor da Bolívia, uma classe trabalhadora corajosa, disposta a lutar, protagonista de uma das revoluções menos conhecidas do mundo, a de 1952, mas da qual os revolucionários têm muitas lições a aprender.

Surpreende-me que, diante de um golpe tão terrível como a sua perda, sinto velhas feridas se fecharem e agora, com nossas próprias experiências como filhos adultos, encontramos respostas para perguntas que nunca lhe fizemos, para reprovações que desaparecem no ar. Embora nunca houvesse muitas.

Como diz meu irmão Iván, tivemos muita sorte em tê-lo, em receber seu amor incondicional, nos deu carinho com absoluta generosidade, você era o porto seguro ao qual sempre podíamos voltar, o interlocutor que contribuiu para nos ajudar a pensar. Você sempre nos respeitou como pessoas e nos deixou abrir nossas asas, seguir nosso próprio caminho. Você não nos criou para o mundo em que vivemos, mas para o que sonhou, e isso nem sempre é fácil.

Como tivemos muita sorte em ter você e você nos deixou tanta coisa, nos sentimos um pouco envergonhados, porque, como você disse no final de sua doença, que havia muitas outras pessoas, em situações muito piores, e que temos que aceitar como família que você não era apenas nosso, mas de seus companheiros de luta, de suas amizades e que também precisamos confortá-los, porque muitos sentem sua perda. Suas lágrimas e suas palavras nos abraçam.

Mas, sendo seus camaradas, não poderia ser diferente, eles não apenas sentem a dor, mas sabem a urgência de transmitir aos jovens, às fileiras da FT seu exemplo e o de sua geração.

Quando eu era adolescente, você queria que eu visse aquele mundo cheio de solidariedade, de irmandade, com pessoas dispostas a dar suas vidas à revolução, militantes de alto nível, a quem você respeitava muito e me apresentou a cada um deles, transmitindo essa admiração: Raúl Godoy, Emilio Albamonte, Freddy, Claudia Cinatti, Chingo, José Montes e Mario Caballero, a quem você tanto amava como amigo. Você ficou animado ao falar sobre Alejandro Vilca, Nico del Caño e Myriam Bregman, Pão e Rosas Bolívia e a juventude do partido, na luta pelo direito ao aborto.

Você fez Caro de Neuquén me adotar como amiga quando eu tinha 15 anos e foi assim que encontrei mulheres incríveis, como Gloria, Flor, Hidra e Mariela.

Camaradas contam seu papel no PTS, na FT, e lhes agradeço, porque você sempre foi muito humilde em falar de si e oferecia um balanço sobre seu trabalho, sendo o mais objetivo possível.

Tanto carinho espalhado pelo mundo pai, sua morte é sentida pela família dispersa, de Londres, onde a magra e Seb sentirão muita falta de você, na Bolívia, onde meu irmão e seus netos te desfrutaram tanto. Alfo, suas irmãs, irmão e sobrinhas. Aqui, no coração do império, onde suas ideias e as da revolução explodirão um dia, porque como você viu quando nos visitou, a classe trabalhadora americana é um gigante, esperando acordar para fazer a bela tarefa de mudar o mundo.

Suas convicções, as carregava até nos ossos, e com fios invisíveis de amor revolucionário, as coordenadas a partir das quais chegam saudações por sua morte, criando a imagem completa do seu internacionalismo.

Como vou sentir falta dos seus passos longos e apressados, do seu assovio feliz nas ruas pelas quais caminhamos juntos, em La Paz e em Buenos Aires.

Como família, queremos agradecer a todos aqueles que nos acompanharam desde que papai ficou doente, havia muitos, e lamento não poder nomear todo mundo, mas quero que você saiba o quanto sua dedicação nos move, como amigos e camaradas. Obrigado Oscar, Lia, Juan Manuel, Glória, Claudia, Mariela, Diego. Agradecemos ao companheiro médico de La Plata, Horacio, por nos traduzir uma linguagem que nos era alheia. Obrigada mãe por estar com o pai nos momentos mais difíceis e por ser tão forte. Agradeço ao meu parceiro que te amou como pai.

Obrigada pai, você nos deixou muito, vive em nós, em seus escritos e nos momentos em que tocou tantas vidas, com sua voz calorosa, com seu entusiasmo para discutir política, arquitetura e arte. Seus "grãozinhos de areia", como você chamava suas contribuições políticas, fazem parte da grande experiência política que é a FT e o PTS; seus camaradas saberão como transmitir o melhor de sua militância aos novos militantes, aos jovens. Nós, seus filhos, prometemos viver uma vida plena e completa. Seus netos saberão quem você era e o quanto os amava.

Leia aqui: Eduardo Molina, até o socialismo, sempre!




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