Política

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Carnaval amargo para Temer e os golpistas: a Tuiutí expressou a raiva de milhões

As crises não costumam cruzar os braços nem durante as festas, menos ainda na "mãe de todas elas".

André Acier

Natal | @AcierAndy

quinta-feira 15 de fevereiro| Edição do dia

Foto: Sputnik News

As esperanças do governo por um Carnaval despolitizado se estilhaçaram já nos primeiros sambas-enredo. No Rio de Janeiro, a estrela foi a Paraíso do Tuiutí, verdadeira campeã na opinião da maioria dos foliões, que denunciou Temer e o golpe institucional, a reforma trabalhista e a herança escravista da burguesia brasileira contra o povo negro. Crivella e Pezão foram alvejados pela Mangueira e outras escolas. Rodrigo Maia teve de suar frio para defender sua reforma trabalhista das críticas recebidas e aprovadas por milhões. Se em São Paulo o direitista João Doria conseguiu escapar - com diversos arranhões - fato é que a politização nacional que atravessou o Carnaval foi marcadamente antigolpe e contra as reformas do governo.

O governo Temer, os parlamentares golpistas no Congresso, a imprensa oficial e os empresários esperavam que ao final de um Carnaval "longe da política" a tarefa de aprovação da reforma previdência seria mais simples. Entretanto, o enorme apelo popular às críticas feitas ao governo e à casta política fez-se sentir como um bafo na nuca e dificultou esse caminho.

A Tuiutí teve o mérito de liberar o grito na garganta de milhões. Ligou profundamente um tema estrutural no país - a opressão ao negro fundada nas bases escravocratas da classe dominante - com a luta da classe trabalhadora, representada no repúdio à nefasta reforma trabalhista. Mostrou que há um enorme setor social disposto a sair às ruas contra os ataques e contrarreformas de Temer. Um fator objetivo que pesa na relação de forças, e que atestou contundentemente que a crise orgânica no Brasil não descansa nem em dias de festa.

Os pronunciamentos de Maia, do MBL, de Frotae outros expoentes – mais ou menos descerebrados – da direita golpista foram asfixiados pelos comentários de repúdio de trabalhadores e jovens que veem com bons olhos – e inclusive com vontade de agir – a resistência contra os ataques.

Esse revés na atmosfera política nacional para o governo golpista arrepiou os roedores do Congresso, mas não tirou sua sede por aplicar a reforma da previdência. Seguem mirando a votação na Câmara. Temer busca comprar desenfreadamente os deputados, e até os empresários da FIESP e da Confederação Nacional da Indústria - chefiados por Benjamin Steinbruch, que defendeu que os trabalhadores "comessem com uma mão e trabalhassem com a outra" - entraram na competição por "convencer" os deputados a votarem a reforma da previdência, enchendo seus bolsos de dinheiro. Prova de que a luta contra a reforma da previdência é uma batalha contra os capitalistas.

Não podemos nos deixar enganar pelas constantes mudanças de data para a votação na Câmara: é preciso organizar os trabalhadores por assembleias de base em cada local de trabalho para que o dia 19 seja o mais forte possível.

O marco político do país e o a veneração do PT ao judiciário

A última pesquisa Datafolha também quebrou algumas garrafas na cabeça do judiciário: logo após três desembargadores proibirem milhões de pessoas de votarem em quem quiserem (inclusive em Lula), numa condenação absolutamente arbitrária, a pesquisa de voto mostrou que Lula segue em primeiro com 37%. Sem Lula no páreo, a projeção dos votos brancos/nulos alcança recorde histórico de 32%. Um revés notável para os pequenos napoleões da toga, que entraram no Carnaval já chamuscados pelas denúncias de seus obscenos privilégios (que serão – surpresa! – preservados pela reforma da previdência).

Em outras palavras, "além deste portal, o abismo" para as esperanças de estabilidade da burguesia: parcela enorme do eleitorado tende a deslegitimar as eleições de 2018, abrindo a porta a novas formas de pensar, à direita mas também à esquerda.

Diante desse cenário, o PT segue ajoelhado aos pés do judiciário golpista, pedindo desculpas por cada frase que diz. Atendeu piedosamente ao chamado de atenção feito por Carmen Lúcia do STF (um verdadeiro "cale a boca antes de falar do Judiciário"). Diante do disciplinamento, a submissão: Lula e o PT dizem nas redes sociais que "seguirão acreditando na Justiça". Seu "estado de mobilização" não tem olhos, nem ouvidos, nem boca, nem nada: buscam colocar limites na derrota que já aceitaram. De fato, o PT não tem nenhum interesse em colocar adiante a defesa dos direitos democráticos elementares da população nessa "democracia degradada". Desde sua fundação no início da década de 1980, sua preocupação primordial foi - e é - a defesa da institucionalidade e governabilidade burguesas.

Com a cada vez mais provável ausência da polarização anunciada entre Lula e Bolsonaro, a figura das eleições se modifica e deixa em aberto a questão de que força agarrará os setores à esquerda do espectro político. Em meio à crise na autoridade estatal, que afeta todo o regime político-partidário, separando amplos segmentos sociais de suas representações tradicionais – ou "crise orgânica", como define o marxista italiano Antonio Gramsci – esta modificação do marco “mental das pessoas” e o distorcido impacto eleitoral abre espaço também para a construção de alas anticapitalistas e socialistas na classe trabalhadora, nos movimentos negro, das mulheres e da juventude.

Quando uma escola de samba faz mais que as centrais sindicais

As centrais sindicais ecoam essa indigência de forças. É curioso constatar que uma escola de samba fez mais do que as centrais sindicais juntas para popularizar a luta contra as reformas. Portando-se como cadáveres, a CUT e a CTB, apesar dos anúncios de panfletagem e alguns poucos anúncios de greve em fábricas e transportes, não organizam assembleias para que os trabalhadores decidam os melhores métodos para paralisar o país contra a reforma da previdência e a anulação da reforma trabalhista. A defesa dos direitos democráticos não existe para esses burocratas. Força Sindical e UGT partilham da mesa dos golpistas; mas a cumplicidade e passividade da CUT e da CTB são "forças morais" que a burguesia tem para levar adiante seus planos contra os trabalhadores.

Sem dúvida é preciso exigir que a CUT e a CTB parem de se arrastar e coloquem seu aparato material a serviço de transformar a Jornada de Luta do dia 19 na plataforma para convocar uma greve geral que paralise os principais centros econômicos do país contra a reforma da previdência, para abolir a reforma trabalhista e em defesa do direito da população votar em quem quiser, sem a interferência do judiciário privilegiado e que não foi eleito por ninguém. Nós do MRT, através do Esquerda Diário e junto às agrupações do Pão e Rosas, do Quilombo Vermelho, da Juventude Faísca e do Movimento Nossa Classe, estamos fazendo campanha de panfletagens em diversos estados do país com essa exigência (ver galeria de imagens aqui). Colocaremos nossas forças para que seja uma importante jornada.

É possível barrar a reforma da previdência, desde que os trabalhadores se unifiquem para lutar com seus métodos históricos e imponham essa derrota ao governo. Um resultado como esse teria efeitos importantes na relação de forças entre as classes, e serviria para colocar de volta à mesa a tarefa que nunca saiu dela: abolir a reforma trabalhista e todas as contrarreformas de Temer e dos governos anteriores. Os privilégios do judiciário só podem ser combatidos derrotando as contrarreformas, articulada a uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que acabe com os tribunais superiores e torne todo juiz eleito e revogável, com julgamentos por júri popular.

Para isso, a organização de uma força material anticapitalista e socialista, que supere a conciliação de classes do PT, ou seja que se enfrente abertamente com os empresários e seu projeto de país, está na ordem do dia.




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