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Caravana Migrante: quem são os que saem da América Central?

A Caravana Migrante mostra que, enquanto esse sistema aprofunda e apoia o livre trânsito de bens e dinheiro, proíbe e pune os seres humanos que exigem o livre trânsito como condição necessária para garantir seu direito à vida.

terça-feira 20 de novembro| Edição do dia

Fotos: Santiago Concheiro Carmona

O incontável êxodo migratório centro-americano, que atravessa o território mexicano para chegar à fronteira norte com os Estados Unidos, expõe as terríveis condições que implicam o trânsito pelo México: frio, fome, assédio, xenofobia, racismo, perseguição, tráfico, desaparecimentos, agressões sexuais, detenções, deportações e violação sistemática dos direitos humanos.

Embora as condições precárias e violentas da América Central e especificamente de Honduras pareçam óbvias, é necessário parar para fazer uma reflexão mais profunda.

O que mais se ouve e se lê ao falar sobre as razões ou os fatores de expulsão dos migrantes de países como Honduras, é a violência gerada por gangues e grupos criminosos. Entretanto, é necessário pensar quais são as condições e contextos que geraram tal deterioração no tecido social, bem como conhecer as realidades vivenciadas pelos irmãos hondurenhos e que as forçam a deixar seu país de origem. Para isso, é necessário compreender os fenômenos migratórios de maneira muito mais complexa e entender que as razões da migração podem ser diversas e geralmente estão intimamente inter-relacionadas, pois é um fenômeno que se baseia em bases históricas, sociais, políticas e econômicas.

Nesse sentido, faremos uma breve listagem de vários fatores importantes para entender a magnitude do fluxo migratório hondurenho, agora concentrado na massiva Caravana Migrante que, segundo estimativas, contém cerca de 15 mil centro-americanos no território mexicano.

Os ajustes estruturais em Honduras na década de 1990 resultaram na desvalorização da moeda, na eliminação da reforma agrária e, entre outras coisas, na redução dos gastos públicos em saúde e educação, para abrir caminho para a agroindústria nas mãos de grandes transnacionais.

Desastres naturais como o furacão Mitch, em 1998, deixaram uma enorme devastação na infra-estrutura do país, além de inúmeras perdas na produção e que levaram a crises econômicas e sociais, aumentando os números dos fluxos migratórios.
Acordos de Livre Comércio como o CAFTA, firmado em 2004, destinados a garantir o investimento estrangeiro direto livre para a pilhagem de recursos naturais, o aprofundamento do modelo extrativista e a mão-de-obra barata, resultaram na destruição dos direitos trabalhistas e social, instabilidade laboral, insegurança, desigualdade e precarização.

As guerras civis da América Central nos anos 70 e 80, bem como o golpe de Estado em Honduras em 2009, que derrubou o presidente Zelaya, foram financiados pelo imperialismo americano, a fim de impor sua política, bem como novos pacotes de ajuste foram pretexto perfeito para abrir o caminho para uma maior intervenção dos EUA.

Em Honduras é muito fácil estar armado, o governo encoraja. Qualquer cidadão maior de idade que não tenha antecedentes criminais, pode ter até cinco armas registradas, o que o torna um país inserido em uma dinâmica de guerra, promovida pelo Estado que atua em associação com grupos criminosos e paramilitares. Os mais beneficiados são as empresas do setor de guerra. Também o Estado de Israel que assinou um acordo com Juan Orlando Hernández, presidente de Honduras, fornecendo armas e equipamentos de inteligência que foram usados para suprimir os protestos contra seu governo.

Todos esses fatores, sem nos aprofundar mais em cada um deles, são as razões que nos permitem explicar mais a violência estrutural que se vive no triângulo setentrional (Guatemala, Honduras e El Salvador) e especialmente em Honduras. Em outras palavras, embora grupos criminosos sejam, indubitavelmente, uma das razões fundamentais que levam muitas pessoas a tomar uma decisão desesperada de migrar e transitar o México para os Estados Unidos, os principais problemas são as contradições estruturais do sistema capitalista que se expressa na América Central pela forma mais brutal pela subordinação aos EUA, e que impactam nos setores mais vulneráveis e, claro, nos jovens.

Sem cair numa perspectiva simplista, uma pessoa pode conviver as principais razões para migrar: violência estrutural e concreta que vive dia a dia, desemprego, pobreza, desigualdade e outras razões econômicas e reagrupamento familiar, para muitos jovens Há mais futuro para cruzar o país e tentar chegar aos Estados Unidos com um parente do que viver fugindo de balas e fome.

O problema não é apenas a crise econômica, é a desigualdade social: os salários em Honduras são muito baixos; os trabalhadores não podem cobrir as necessidades básicas de suas famílias, enquanto as empresas nacionais e transnacionais enriquecem às custas de seu trabalho. Os camponeses são desapossados de suas terras e têm que vender sua força de trabalho para a indústria do agronegócio com dias árduos e salários miseráveis. Uma grande parte da população amplia as fileiras do exército de reserva industrial.

A migração forçada é de responsabilidade do Estado hondurenho, que, subordinado aos interesses capitalistas e imperialistas, não garante os direitos dos hondurenhos, ao contrário, está em conluio com grupos criminosos e de choque. Quem poderia viver calmo e livre se pelo simples fato de pertencer a um determinado bairro ou vizinhança você é perseguido por esses grupos com total impunidade? O governo não procura apoiar os interesses do povo, mas dos grandes capitalistas e milionários burgueses. As leis e a força pública servem apenas para reprimir as pessoas e perseguir politicamente aqueles que protestam, como é o caso de Bertha Cáceres. O governo gasta tudo em armas, bombas e gás lacrimogêneo, em vez de pensar em como dar saúde, moradia, educação, alimentação e cultura aos hondurenhos.

Uma caravana de migrantes que desafia fronteiras

A Caravana Migrante mostra que, enquanto esse sistema aprofunda e apoia o livre trânsito de bens e dinheiro, proíbe e pune os seres humanos que exigem trânsito livre como condição necessária para garantir seu direito à vida.

A caravana migrante mudou a dinâmica de migração estabelecida. Pessoas decidiram deixar suas casas, mas desta vez não como seres solitários ou apenas com suas famílias em busca do sonho americano. Eles saíram em união, em caravana, desafiando coletivamente os governos centro-americanos subordinados aos EUA que os chamavam de "traidores da pátria", demonstrando que as fronteiras devem cair, que nenhum ser humano é ilegal e que a classe trabalhadora é internacional.

Essa caravana desafiou o negócio e os lucros milionários gerados para chegar aos EUA. De certo modo, e apesar das queixas da estrada, pôs fim ao crime organizado que atua em associação com as forças armadas, para impedir que os migrantes sejam extorquidos, sequestrados, assassinados, desaparecidos, vítimas de redes de tráfico ou prostituição. Tornou visível o papel do INM (Instituto Nacional de Migração) e conseguiu que os detidos em seus centros ilegais fossem libertados.

É uma caravana que toma suas decisões em assembleia para garantir a segurança de todos os membros, decidir as rotas mais seguras, rever as necessidades que têm e continuar avançando coletivamente. Seu critério fundamental é a unidade para avançar juntos e que ninguém será deixado para trás.

Nós, mexicanos e hondurenhos, afirmamos que a história da humanidade é a história de grandes migrações e que atualmente a migração que é criminalizada e atacada é a migração de pessoas pobres que fogem da pobreza e da pobreza.

Diante da xenofobia, do racismo, do preconceito de classe. da criminalização da pobreza e da violência, a resposta é a solidariedade internacionalista dos trabalhadores, mulheres, jovens e setores mais oprimidos desse sistema capitalista e voraz.

Somos todos migrantes!
Nenhum ser humano é ilegal!
Direitos plenos para os migrantes!




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