A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.10

Capitalismo: um sistema senil? Por que?

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 17 de janeiro| Edição do dia

Periodização e fatalidade (economia e política)
Em qualquer tentativa de periodização da economia mundial, é importante não partir do pressuposto de que se trata de fases ou ‘etapas’ necessárias, no sentido de que, por exemplo, a “fase” neoliberal ou a “pós-fordista” etc, era o único caminho ou possibilidade histórica possível.

As periodizações definem períodos e fases econômicas que, de fato, marcaram a economia mundial mas que, ao mesmo tempo, não estavam pré-determinadas historicamente, não se tratava do único cenário possível.

Em outras palavras, as crises econômicas que nascem a partir da própria lógica econômica do capital são necessárias e inevitáveis, mas a resposta política das massas trabalhadoras a tais eventos é que tem o poder de definir seu desfecho, desdobramentos e até as formas de desenvolvimento da próxima crise, certamente mais profunda e contraditória que a anterior.

[A título de exemplo, é difícil imaginar que a década dos 20 seria economicamente a mesma se a revolução alemã tivesse triunfado como ocorreu com a de 1917 na Rússia; é difícil imaginar que o boom do pós-II Guerra seria economicamente o mesmo, caso a colaboração Moscou-Washington não tivesse – através da ação dos poderosos Partidos Comunistas (PCs) pró-Moscou da França e da Itália nos anos 40 – desterrado a revolução social que esteve posta claramente na agenda política destes países centrais na Europa].

A acumulação do capital não se dá por fora das lutas sociais, por fora da história.

Pelo contrário, o imperioso processo de acumulação do capital conduz necessariamente – como se viu na nota sobre as crises – a convulsões e travas à lucratividade do capital e que, embora nascendo do seio da economia, de suas leis, mas termina promovendo crises, reações e convulsões em todas as esferas, da social à política.

A economia mundial: do crescimento orgânico à tendência histórica à estagnação, recessão ou depressão.

Neste ponto da exposição, vale registrar o seguinte: se considerarmos o fato histórico de que o capitalismo concorrencial conduziu – em determinado momento e nível da acumulação do capital – ao capitalismo oligopolista (ou monopolista, como é mais frequentemente chamado), a este fato é necessário acrescentar uma observação.

Observação que pode ser feita em forma de perguntas: ao desenvolver seu patamar de capitalismo dos oligopólios – ou imperialista – a economia internacional mostrou ser uma economia de comportamento mais equilibrado, mais ordenado e onde o desenvolvimento tendeu, pouco a pouco, a ir corrigindo a desigualdade social internacional e superando a magnitude das catástrofes ou foi tudo ao contrário?

O capitalismo das grandes corporações internacionais, mais tecnificado e mais apoiado na ciência e no domínio da natureza, mostrou ser, no século XX, ou XXI, uma ordem social e histórica mais distante da barbárie, do terror coletivo e do holocausto planejado ou tudo ao contrário?

E não se pode perder de vista que a própria relação econômica fundante desta economia, a do capital com o trabalho, é uma relação social de produção. Não é um relação econômica strictu sensu: a esfera econômica não é pura e simplesmente autônoma. Não precisa, por exemplo, continuar sendo regida pela lei do valor, pode ser socialmente revolucionada.

Em suas possíveis variações, este tipo de pergunta pode ser repetido sob diversas formas. A resposta será sempre a mesma: em fins do século XIX, ao se conformar como economia mundial unificada, oligopolizada e moderna e, precisamente, ao alcançar seu ponto máximo em termos daquela divisão da economia mundial, de áreas de influência e controle pelos grupos econômicos imperialistas mais fortes, eis que a mesma economia começou a emitir crescentes sinais de destrutividade, parasitismo e horror. De grandes crises, grandes carnificinas. E também revoluções.

Por outro lado, a I Guerra, claramente deflagrada pelos detentores do grande capital em sua disputa pelo espaço mundial (mercado, investimentos, matérias-primas), seguida da Grande Depressão econômica mundial e do horror da II Guerra – com seus 60 milhões de mortos e mais destrutiva que a primeira – trouxeram o Estado para o primeiro plano, como taboa de salvação do sistema.

Estado que construiu a economia permanente de guerra (o maior PIB bélico da história passou a ser o “câncer” permanente da economia mais rica do mundo), Estado que adotou o mega-endividamento e o crédito como seus motores e também propulsores da economia mundial. Estado que passou, portanto, a assumir, financiar e gastar os impostos – que são punção sobre a economia produtiva, sobretudo sobre a classe trabalhadora – prioritáriamente em esferas parasitárias, fictícias e de dissipação econômica pura e simples. Na tentativa de impedir que o sistema, deixado por conta de suas leis, afundasse.

Essa é a novidade histórica e, por sua vez, a face da decadência, do sistema que deixa de ser relativamente progressista para ser reacionário em toda linha.

Não dá para pensar na economia mundial sem considerar que ela exclui milhões e mesmo bilhões não só do consumo adequado de bens necessários, mas do próprio direito elementar ao trabalho (o sistema do assalariato descarta milhões e milhões do mundo do trabalho) e da vida.

A economia capitalista necessita da escassez, engendra a miséria, portanto, constrói, por todo lado, a violência social e todo seu corolário de iniquidades, guerras e horror.

Em síntese, não é possível, seriamente, imaginar todo esse período tomado de conjunto, da I Guerra para cá, a não ser como um atestado histórico do custo social crescente da existência do capitalismo. Portanto, um período que pode ser qualificado de uma longa curva de declínio histórico do capitalismo.

A ideia de evolução ou de sequência histórica linear ou de progresso não explica o processo da economia mundial. Em sua sequência histórica, por exemplo, ao padrão de crescimento do período da pax britânica se sucede a fase do crescimento “americano”, só que já demonstrando claros sinais de esgotamento precoce.

A análise dos dados decisivos da economia mundial permite evidenciar uma tendência como sistema, historicamente declinante. Trotski observa que o capitalismo possui seus ciclos vitais curtos como se fosse a respiração ou o batimento cardíaco de um sistema vivo, mas nos marcos de crescente dificuldade para valorização do capital, isto é, de um sistema que, no prazo maior, envelhece precocemente, respira com dificuldade, na base da UTI chamada Estado.

Quais os sinais de senilidade? Desde que Lenin descreveu os sinais de crise e putrefação do capitalismo ao se transformar de concorrencial em monopolista, não apenas aqueles indicadores mas também outros mais atuais se combinam para evidenciar a senilidade cujo custo social e econômico de reprodução é cada dia mais alto e antissocial.

Duas carnificinas mundiais, com dezenas e dezenas de milhões de mortos, essencialmente para garantir disputa e redivisão de mercados, recursos naturais e espaço geopolítico [hegemonia etc], é mais do que eloquente nesse sentido; estamos em um sistema que só desenvolve, parcialmente, forças produtivas ao custo de muito mais e devastadora destruição de forças produtivas. Guerras como as do O. Médio são promovidas na mesma perspectiva de poder, disputa e controle do petróleo, só para dar um exemplo.

Enquanto isso, desemprego massivo, crescente e brutal concentração de renda, narcoeconomia, o boom da economia especulativa, os colossais gastos bélicos, a economia do desperdício, do descarte de milhões de seres humanos, da opressão de todo tipo e agora pondo na agenda a ameaça à própria vida na Terra, pelo impacto da economia destrutiva sobre a natureza e o clima.

O capitalismo, em sua senilidade, é a barbárie em marcha, é a mercantilização de tudo, é a insanidade em forma de sistema. Em qualquer esfera da vida se pode constatar aquela curva de decadência: na desgastante e caótica mobilidade urbana, na qualidade da saúde pública, do ensino, da vida e da velhice para as grandes massas. Hoje é pior que ontem. Todo progresso aparece como contraditório.

No entanto, o capitalismo já deu mostras de que não será automaticamente substituído por outro sistema; e seu declínio, ao contrário do que imaginam os defensores dos "ciclos de longa duração", é um processo que se funda na luta de classes e dela depende.

É aberto, portanto. Não é supra-histórico [Bach, 1999]. Não nos parece válido, portanto, traçar ciclos pré-determinados como pretendem certos autores. Seguindo este raciocínio é rigorosamente incorreto pensar que o capitalismo funciona seguindo “ondas longas”, como fazem Kondratiev e F. Braudel, passando por I. Wallerstein e G. Arrighi.

Trata-se de decadência, envelhecimento, acúmulo de contradições e crises, estreitamento das bases de valorização do capital. Acreditar em curvas econômicas de longa duração (50 anos, por exemplo) é o mesmo que pensar a história de forma fatalista, pré-determinada ou subsumida a leis – neste caso supra-históricas – da economia. Leis para além da luta de classes, inalteráveis por guerras e revoluções.

No entanto, e reiterando o argumento, aquele funcionamento oscilatório, aquela respiração entrecortada, se for tomada como parte de uma tendência maior, mais secular, revelará claramente um caráter tendencialmente declinante; o que tem a ver com a já mencionada crescente e histórica dificuldade da acumulação do capital para encontrar a rentabilidade para sua valorização.

Analisando o ciclo de recuperação econômica de 1921, Trotski considerou que “as flutuações cíclicas continuarão ocorrendo, mas em geral, a curva do desenvolvimento capitalista não se inclinará para cima mas para baixo” (1999: 14).

Ou seja, podem ocorrer “estabilização” e recuperação econômica da economia capitalista mundial, em determinadas circunstâncias, no entanto, já não haverá equilíbrio que reponha o sistema em outra perspectiva histórica que não o declínio.

[A partir dos próximos quatro tópicos, serão detalhadas cada uma dessas fases que a economia mundial foi atravessando em um processo histórico onde o capital e seu sistema vieram sobrevivendo a si próprios e impactando à humanidade com crises, devastação e destruição em cada vez maior escala].

BACH, Paula, 1999. Introducción a Naturaleza y dinâmica del capitalismo y la economia de transición, León Trotsky, Buenos Aires, Ceip L Trotsky, p. 9-29.

TROTSKY, León, [1999]. Naturaleza y dinámica del capitalismo y la economia de transición. Buenos Aires: CEIP L. Trotsky.

LENIN, V. I. Imperialismo, etapa superior do capitalismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/index.htm Consultado em: janeiro 2018

Créditos de imagem [modificada]: www.szhgh.jpeg e www.juche-songun.livejournal

Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: {{}} acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas.




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