CORONAVÍRUS

Capitalismo, um sistema incapaz de enfrentar uma gripe

Danilo Paris

Professor de sociologia da rede pública

quarta-feira 18 de março| Edição do dia

Em tempos de paz, o título deste artigo poderia parecer um devaneio para a maior parte dos leitores. Das notícias retratando entusiasticamente inúmeras descobertas e avanços científicos, dos computadores quânticos, da revolução 4.0, com satélites e missões espaciais cada vez mais afastadas da terra, com a primeira fotografia do misterioso buraco negro e a descoberta de um novo planeta à longínquos 111 anos-luz daqui, e que talvez se assemelhe ao planeta azul, do 5G e da internet das coisas, das novas descobertas da genética e de suas bases nitrogenadas; entre um sem número de novidades científicas cotidianamente anunciadas, eis que as sociedades humanas se depararam com um enorme-microscópico e perverso vírus, dotado da capacidade de instalar no imaginário da população o medo de um futuro apocalíptico.

O Covid-19 rompeu o equilíbrio aparentemente estável da sociedade capitalista. Governos que antes negavam sua ferocidade, hoje se ajoelham diante da praga contemporânea e parecem querer tomar medidas enérgicas para tentar conter seus estragos. A perspectiva negacionista e obscurantista vociferada pelo grotesco presidente da república do Brasil, cada vez mais isolada frente aos outros governos do mundo, agrava a situação já dramática. Com efeito, o alto contágio do novo vírus salta aos olhos. Com virulência, acomete sistemas de saúde inteiros.

“Estamos em guerra, em uma guerra sanitária”

Em tom beligerante declarou o presidente francês: “Estamos em guerra, em uma guerra sanitária, claro”. Donald Trump, após muito negar, declarou estado de emergência. A Itália se converteu em um Estado-prisão. Xi Jiping sitiou 11 milhões de pessoas na província de Wuhan.

Apesar do grito de guerra quase uníssono entre os chefes de deferentes países, o vírus avança, deixando atrás de si milhares de vítimas. O espírito de unidade nacional gerado pela eminência de uma guerra, ou contra um inimigo em potencial sempre foram de grande serventia aos detentores do poder. As diferenças entre as classes, frações de classes, estratos e camadas sociais se escaramuçam em favor da luta contra o invasor ou adversário que a todos ameaça. Sofrimentos e sacríficos ganham justificativa, o medo e o pânico são instrumentalizados, a paralisia e a desorientação acometem a psicologia de milhões. Nada melhor que um inimigo externo, melhor ainda se for um agente biológico e não social. Fato é que diferentes governantes parecem estar perdendo a contenda. No entanto, quem ganha e quem perde não parece ser uma questão óbvia, como os dois lados de um campo de batalha. Para isso, há questões de classe, econômicas e políticas que precisam ser analisadas.

Administrar os ritmos da epidemia ou a gestão da morte no capitalismo

O modus operandi utilizado até o momento é o da tentativa de achatamento da curva de contaminação. Em outras palavras, as medidas buscam diluir e espaçar no tempo o contágio, para que a atual estrutura dos sistemas de saúde possa atender à demanda. Por isso, a principal medida é o isolamento social, às vezes voluntário, às vezes impositivo. A hipóteses é que quanto menos aguda, e mais achatada a curva de contaminação, melhor administrada é a crise. Já que não há testes suficientes para que o isolamento seja só sobre os casos confirmados, o confinamento generalizado aparece como único caminho. A econômica, já combalida por um capitalismo em decadência como demonstra o economista norte-americano Michel Roberts, deteriora-se, e evidentemente os mais atingidos são os trabalhadores, em particular os precários, e a população pobre. Até o poderoso Finacial Times prevê um quadro sombrio para o longo prazo, fazendo soar um alarme de ações coordenadas dos estados capitalistas para conter uma crise, ainda mais aguda do que aquela que explodiu em 2008.

O que vêm sendo feito pela maioria dos países se resume à uma tentativa de administrar os ritmos da epidemia, e mais recentemente salvar os grupos capitalistas mais atingidos pela crise. Nos países em situação mais crítica, uma verdadeira gestão da vida e da morte de grande parte da população começa a ser operada. Na falta de equipamentos e leitos suficientes, as equipes médicas são obrigadas a escolher aqueles que vivem e aqueles que morrem. Vidas são abreviadas por complicações clínicas que a medicina atual conseguiria reverter com um relativo índice de sucesso, como são os casos das infecções das vias respiratórias.

Primeiras observações a partir de dados comparativos

Das potências econômicas, aos países da periferia global, há uma normal atestada por todas mídias e autoridades sanitárias: redes hospitalares e sistemas de saúde absolutamente insuficientes diante da demanda epidemiológica. Não faltam apenas leitos e equipamentos, mas até mesmo produtos de fabricação simples e rudimentar, como máscaras e álcool em gel. Segundo artigo publicado na renomada revista Science, até 80% dos infectados podem ser assintomáticos ou ter sintomas leves. No entanto, a testagem massiva que deveria ser um ponto de partida de qualquer plano sério, se transformou em item de luxo nas redes públicas e privadas. Até mesmo o poderoso hospital israelita Albert Einstein decidiu suspender a realização de exame para detecção do vírus causador da Covid-19 em indivíduos assintomáticos, alegando não ter a quantidade de testes necessários pela demanda.

Estudos comparativos apontam que as testagens massivas foram importantes para a diminuição das taxas de mortalidade. Os dois casos que mais contrastam são o da Coréia do Sul e o da Itália. Segundo o portal, até o dia 13/03 a Itália tinha 6,6% de taxas de mortalidade e o país asiático 0,8%. Mesmo com essa grande diferença, ambos apresentaram, até a referida data, uma quantidade total de contágio muito próxima.

Ainda que com imprecisões que possam ser geradas pela obstrução de dados fornecidos pelos governos, esse estudo mostra o porquê dessa diferença tão grande entre os dois países. Uma das explicações é justamente o procedimento dos testes. A Itália tem testado predominantemente pessoas com sintomas graves da infecção por coronavírus, enquanto a Coréia do Sul está testou um universo muito maior desde que o surto se tornou aparente. Consequentemente, a Coréia do Sul detectou mais casos assintomáticos do que a Itália, principalmente entre os jovens. Esse diagnóstico mais preciso, permitiu identificar rapidamente os contaminados, e tirá-los de circulação antes que o vírus se alastrasse. Com menos contaminados, as pessoas que tiveram um quadro mais grave puderam receber os tratamentos adequados.

Uma extrema-direita malthusiana?

O mesmo Michel Roberts, no artigo citado acima, analisando o caso das decisões de Donald Trump, quando esse ainda negava a gravidade da situação, afirma:

“A abordagem dos EUA é basicamente não fazer nada: nenhum teste em massa, nenhum auto-isolamento, nenhum fechamento de eventos públicos; apenas espere até as pessoas ficarem doentes e depois lide com os casos graves. Poderíamos chamar essa última abordagem de resposta malthusiana. O mais reacionário dos economistas clássicos no início do século XIX foi o reverendo Thomas Malthus, que argumentou que havia muitas pessoas pobres "improdutivas" no mundo, então pragas e doenças regulares eram necessárias e inevitáveis para tornar as economias mais produtivas.”

Segundo o economista, o que explica essa primeira atuação de Donald Trump é evitar o aumento da curva da recessão macroeconômica. Ou seja, entre medidas sanitárias e preservação dos lucros dos capitalistas, Trump escolheu privilegiar o segundo. Para o resto da população que ficou vulnerável à doença, o caminho malthusiano.

No Brasil, Jair Bolsonaro hoje segue o caminho que Trump trilhava semanas atrás. O presidente cumprimentou, orgulhoso, seus apoiadores no ato do dia 15, declarou que tudo não passa de uma histeria, defendeu a manutenção dos jogos de futebol, declararou que irá fazer festa de aniversário tradicional com a esposa, entre inúmeras outras declarações. Além de um cálculo econômico, as ações que parecem transloucadas do presidente fazem parte de um cálculo político.

Prevendo uma situação de uma crise econômica mais aguda, ele escolhe o caminho de se apoiar nas camadas mais jovens da população, e em especial com empregos mais precários. São aqueles que não sentirão os efeitos mais severos da epidemia, e que provavelmente serão mais atingidos pelos efeitos econômicos oriundos das medidas de isolamento social. Aos grupos de risco que podem ter as complicações da gripe, que morram. Tudo isso, vale dizer, em um país onde menos de 10% dos municípios tem acesso à leitos de UTI, sejam eles públicos ou privados.

No entanto, a dinâmica da atual crise é radicalmente distinta de tudo o que vivemos nos momentos anteriores. A receita tradicional da extrema-direita, que se utiliza do negacionismo, obscurantismo, e teorias da conspiração delirantes para justificar todas as suas ações, parecem começar a ter um efeito bumerangue. Não à toa Trump saltou do negacionismo puro, para a declaração de emergência nacional, fechamento de fronteiras, injeção de um trilhão de dólares na economia. Fenômeno muito parecido começa a ocorrer no Brasil, e talvez os panelaços ocorridos ontem, inclusive em bairros que já foram redutos bolsonaristas, podem ser uma primeira expressão de que Bolsonaro seja obrigado a corrigir o rumo de suas ações. No entanto, para a vida de milhões talvez seja tarde demais.

Capitalismo, a velha ordem em completa decadência

Diante das posturas absurdas de Bolsonaro, seria uma ilusão consider adequadas as ações promovidas pelos outros governantes. Para mencionar um deles, lembremos que a burocracia chinesa de Xi Jinping também passou pela sua fase negacionista, e tentou sufocar as informações relativas ao coronavírus, como a perseguição ao médico responsável por alertar o mundo do grave problema que se avizinhava.

Do ponto de vista biológico, não há epidemiologista que negue o fato que novas epidemias continuarão a aparecer. Para que surja um novo agente etiológico, basta uma mutação em um único vírus, dos milhões que existem em outras espécies, que possibilite o contágio em humanos. Se esse é um fato científico, absolutamente inquestionável, por que nunca foram adotadas medidas preventivas que capacitassem os sistemas de saúdes com uma estrutura adequada de urgência para ser ativada para quando fosse necessário?

Além disso, lembremos que foi em dezembro de 2019 que veio ao conhecimento do público o processo epidemiológico. Até a data em que esse artigo é publicado, diferentes países do mundo, tiveram de 3 a 4 meses para se enfrentar com a epidemia. Então, diante disso, por que nada foi feito? Por que esperar que a epidemia estourasse?

Porque os diferentes governos capitalistas, ao se deparar com a problemática da nova epidemia, sempre consideraram dois fatores nas suas decisões: os impactos na economia versos os impactos na saúde. Quando falamos de impactos econômicos, evidentemente a preocupação não é com os salários e condições de vida das amplas massas das populações, mas obviamente com os lucros dos grandes grupos econômicos.

Para ir mais a fundo na questão. Frente à uma pandemia dessa magnitude, por que nenhum governo do mundo reestruturou o conjunto de seu complexo produtivo para responder aos problemas epidemiológicos? Começando pelo mais básico, as indústrias químicas e de fármacos, com capacidade para produzir álcool em gel e máscaras, deveriam ter sido reestruturadas para produzir esses itens aos milhões, e distribuí-las para toda a população. Por que não foi pesquisado e desenvolvido novas formas de produção do teste para o vírus?

Essa medida, elementar para que o país pudesse fazer testes massivos poderia já ter sido implementada há muito tempo, e o conjunto dos laboratórios, públicos ou privados, já ter iniciado sua produção bem antes de atingirmos um alto nível de contágio. Os setores industriais metalúrgicos e que produzem equipamentos hospitalares, há muito tempo deveriam ter aumentado sua capacidade de produzir tudo o que fosse necessário para aumentar a estrutura hospitalar, como por exemplo a produção de ventiladores pulmonares mecânicos, ou oxigênio comprimido em cilindros, que são fundamentais para salvar milhares de vidas. Ainda, toda a rede hospitalar já deveria estar inteiramente unificada para atender toda a população, não havendo divisão entre público e privado.

Economia planificada e controle social da produção

Para que essas medidas, dentre várias outras que estão sintetizadas nesse artigo, fossem possíveis, grupos econômicos poderosos teriam que ser expropriados, as regras do mercado deveriam ser abolidas, e os trabalhadores e especialistas teriam que ter tomado as rédeas da situação, para que as decisões correspondessem aos reais problemas da sociedade. A economia teria que se organizar a partir de um plano, de maneira ordenada, de modo a garantir o interesse da grande maioria da população.

Esse processo colocado em prática, nada mais é que a planificação da economia, base na qual poderá se constituir uma sociedade sem classes sociais. Nela, os principais ramos da produção não estão mais nas mãos de poucos proprietários capitalistas. A apropriação da produção social passa a não ser mais privada. As grandes massas da população trabalhadora controlam o que se produz, quando se produz, e de acordo com as necessidades sociais. No caso de uma epidemia, ou para preveni-la, o conjunto da economia pode ser orientada para atender essa demanda, e não o lucro de tal o qual grupo capitalista.

O grito de guerra não é apenas contra o vírus, mas também um grito de classe, contra outra forma parasitária, essa sim social e não biológica. A classe dos capitalistas, promotora e mantenedora de um sistema social que não consegue, e não pode, encontrar qualquer tipo de resolução para nada, inclusive para uma gripe.




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