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DOSSIÊ: DIA INTERNACIONAL DA MULHER NEGRA, LATINO-AMERICANA E CARIBENHA

Campinas: as mulheres negras na luta contra as opressões de raça, gênero e classe

No dia internacional da mulher negra, latino-americana e Caribenha, queremos mostrar que a história da cidade de Campinas também é atravessada pelas histórias de luta das mulheres negras na região. Resgatar essa história é não só mostrar como os setores oprimidos nunca foram passivos frente à exploração de suas vidas, mas também apontar caminhos a seguir em momentos de duros ataques como esses que vivemos atualmente, com reformas que atingem os direitos da classe trabalhadora como um todo, e mais ainda das mulheres negras.

Grazieli Rodrigues

Professora da rede Estadual em Campinas

terça-feira 25 de julho| Edição do dia

Foto da inauguração da Associação das Trabalhadoras Domésticas de Campinas. 05/09/1962

Última cidade do último país a abolir a escravidão negra, fama de ser um verdadeiro castigo, onde a violência e os senhores de escravos eram piores do que qualquer outro lugar do país. Após o fim da abolição, passa por uma transformação na sua estrutura econômica e concentra mais tarde um contingente enorme de trabalhadores nas indústrias. Com uma estrutura urbana profundamente desigual, cujas diferenças e retrocessos são acentuados hoje pelo governo de Jonas Donizette (PSB) e sua Câmara dos Vereadores reacionária, relega aos trabalhadores a vida nas periferias, com atualmente a segunda passagem de ônibus mais cara do país e um dos maiores índices de desempregos. É também onde está situada a Unicamp, melhor universidade da América Latina segundo os rankings, construída cotidianamente pelo trabalho precário de centenas de mulheres negras terceirizadas, e que apenas recentemente aprovou cotas étnico-raciais - feito esse, resultado da batalha dada pelas e pelos estudantes da universidade, com um protagonismo ímpar dos negros e negras.

Campinas, a cidade dos piores castigos, dos piores barões de café, e mais tarde das grandes indústrias e universidades é também a cidade onde os setores mais oprimidos da sociedade, sempre se organizaram para lutar contra a exploração e opressão a que são submetidos, antes e depois da abolição. Cidade de inúmeras organizações e jornais da imprensa negra durante todo o século XX e que nos anos de 1940 é onde viverá dona Laudelina de Campos Mello, a dona Nina, mulher negra e empregada doméstica, que junto a outras mulheres fundaram em Santos a primeira associação de empregadas domésticas do Brasil em 1936, e que em Campinas nos anos de 1960 cria também a Associação de empregadas domésticas, lutando contra a exploração do trabalho doméstico, sem garantia de direitos e contra o racismo que as mulheres negras enfrentavam na cidade na busca por empregos, e que se expressava nos anúncios de jornais extremamente preconceituosos da época, que dava preferência à mulheres brancas.

Segundo a antropóloga Adriana Barão, dona Laudelina “denunciou que as empregadas negras eram preteridas, protestando contra os anúncios racistas do jornal Correio Popular, debatendo com o jornalista Bráulio Mendes Nogueira, que passou a apoiá-la. Integrou-se ao movimento negro e promoveu ações tais como: uma manifestação onde reuniu 200 trabalhadoras domésticas, nos anos 60, e a colaboração na fundação da creche na Vila Castelo Branco.” Dona Laudelina é portanto uma expressão da luta travada pelas mulheres negras em Campinas contra suas condições de vida, que as relegavam sempre aos piores postos de trabalho, os mais desvalorizados pela sociedade e com menores salários.

A história de Campinas se faz de muitas mulheres como Laudelina, que nunca aceitaram o lugar que o machismo, o capitalismo e o racismo impuseram às mulheres negras e sempre se rebelaram contra o trabalho precário, os padrões de beleza que não comportam os nossos corpos e cabelos, pelo nosso direito a produzir e ter acesso à cultura e educação de qualidade e para que a juventude negra tivesse acesso à atividades culturais e de lazer. Essa cidade de casas grandes e senzalas é originária de mulheres que carregam a herança das escravas insurretas dessa história e resgatá-la é fundamental para que hoje possamos ver a potencialidade que tem se os setores mais oprimidos da sociedade se levantam contra todas suas mazelas.

Vimos em 2015, quando estudantes secundaristas da cidade ocuparam suas escolas contra a reorganização escolar, que eram as estudantes negras as que estavam a frente dessa luta, e conseguiram junto aos outros estudantes impor uma derrota importante à Alckmin e seu projeto privatista de educação. Esse ano, além da luta por cotas étnico-raciais na Unicamp, mais de mil mulheres tomaram as ruas em luta contra o machismo e o feminicídio que faz todos os dias mulheres suas vítimas, em relação às mulheres negras os números são ainda mais alarmantes, afinal além da opressão de gênero, somos alvo do racismo que condiciona as mulheres trabalhadoras a viverem em situações de extrema vulnerabilidade social, reflexo do abandono do Estado diante das demandas mais básicas de toda classe trabalhadora. Estado esse que nos nega a garantia do direito à vida e despeja sobre nós mulheres e todas as camadas de nossa classe, seu punitivismo, seja nos encomendando as mortes cotidianas nas periferias, como fez com Renan, Maria Eduarda e tantas outros jovens negros; encarcerando todos os dias cotidianamente, indiscrinadamente e aos milhares, mulheres, homens e jovens, negros das periferias, como bem ilustra o caso de Rafael Braga e a realidade gritante do aumento do número de mulheres negras encarceiradas no país, como bem reflete a pesquisadora Camilla Massaro em seu texto.

Com o golpe institucional desde o ano passado estamos vendo a cada dia que Temer e sua corja golpista quer arrancar ainda mais nossos direitos, quer que o conjunto da classe trabalhadora não tenha direito a se aposentar, a educação e saúde pública e que a terceirização, um sinônimo de precarização do trabalho, que tem o nosso rosto de mulher negra e imigrante latino-americana, seja regra para todos os trabalhadores. Mas se somos os setores mais atacados e as que mais sofrem com cada reforma de Temer, somos também as que tiveram na linha de frente da greve geral no dia 28 e 30, esta última só não foi maior por conta do controle das burocracias sindicais, e as que hoje podem junto aos trabalhadores de todo o país dar uma saída de fundo à crise profunda que vivemos, para que nossas vidas possam valer mais que os lucros dos capitalistas.

Diante dessas múltiplas realidades, que soam como condenações à vida das mulheres negras e que se repetem de múltiplas formas por todo esse continente e mundo a fora - por isso esse dia como reconhecimento de nossa resistência - lutemos independentemente de todas as instituições e desse Estado que insistem em se apropriar de nossas pautas e demandas, ora para lucrar às custas de nossas especificidades, ora para nos fazer acreditar que bastam os parcos direitos que nos concedem, fazendo com que acreditemos que mais DDM’s - Delegacias de Defesa da Mulher ou “amparos” pelas vias judiciais - que são vertentes do punitivismo do Estado, são o necessário para o fim da violência contra mulher, da exploração de nosso trabalho e das opressões de gênero, raça e classe, quando na verdade tudo isso serve muito bem à esse sistema de exploração, o Capitalismo. Lutemos pelos direitos de todas as mulheres do mundo, para as mulheres negras, latino-americanas e caribenhas, porém, sem nos esquecer por um único segundo, que cada conquista por dentro desse sistema deve ser um passo avançado na luta pela extinção dele e rumo a construção de uma sociedade onde sejamos universalmente livres.

Desde Campinas dizemos que para cada uma das mazelas que o capitalismo coloca em nossas vidas, devemos levantar batalhões dos setores mais oprimidos, dentre eles, nós, mulheres negras, latino-americanas e caribenhas, senhoras de heranças históricas e realidades que reafirmam cotidianamente a ineficácia deste sistema para que sejamos livres enquanto mulheres, e sua efetividade em colocar seus lucros à frente de nossas vidas e de toda a classe trabalhadora. É certo que nós mulheres que damos sentido à esse dia, junto aos setores igualmente condenados pelo capitalismo, seguiremos sendo a linha de frente da luta por uma verdadeira transformação dessa sociedade e pela queda desse sistema, afinal, como afirmou Leon Trotsky, “aqueles que mais sofreram com o velho são os que lutarão com mais força pelo novo”.




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