Gênero e sexualidade

LEGALIZAÇÃO DO ABORTO

Campinas: Correio Popular na campanha contra o direito ao aborto

A gigante mobilização das mulheres argentinas em defesa do direito ao aborto impactou toda a América Latina e também ecoa no Brasil. Esta é uma discussão fundamental também em nosso país, onde meio milhão de mulheres realizam abortos todos os anos e a clandestinidade é responsável por cerca de 1460 mortes no mesmo período. Esse é um tema que cobra decisão: Defender a vida das mulheres ou seguir impondo suas mortes brutais. A nota da edição desta quarta, 25, do Correio Popular intitulada “Minha vida, minhas regras” ataca o movimento de mulheres e se coloca ao lado daqueles que querem que as mulheres sigam morrendo por abortos clandestinos.

sexta-feira 27 de julho| Edição do dia

A nota do Correio não é casual, é parte de um posicionamento frente ao grande movimento de mulheres que está ativo na Argentina que com suas marchas, reuniões, festivais tomou os locais de trabalho, escolas e universidades, as praças e sobretudo as ruas. Com manifestações que são realizadas por mulheres de todas as idades, além de contar com a participação de muitos homens que apoiam sua reivindicação, construindo um debate nacional e internacional dessa pauta tão antiga dos movimentos de mulheres.

As campanhas favoráveis ou contrárias se expandem após o levante das argentinas ter arrancado uma meia sanção com a aprovação na Câmara dos Deputados em meados de junho. Assim como a movimentação segue nas principais províncias do país para que no dia 8 de agosto seja também conquistado contra o conhecido reacionarismo do Senado essa reivindicação e o aborto “seja lei”, as tensões e preocupações daqueles que temem um levante similar em nosso país em tempos de crise de representatividade política, ajustes e reformas contra os trabalhadores em prol dos grandes capitalistas.

A elite que representa os exploradores sempre observa com preocupação grandes movimentos que não podem controlar e ameaçam sua realidade paralela. É assim que se expressa João Marcelo Sarkis, autor da matéria que pretende afirmar uma verdade, moral e valores humanos universais, mas que, a despeito da fraseologia, ataca o direito à vida das mulheres e tenta manter seus corpos como objetos submetidos à decisão pública. Também o direito à expressão da identidade de gênero e da sexualidade são atacados, através da alcunha conservadora de “ideologia de gênero”, que em Campinas se materializou numa reacionária Emenda à Lei Orgânica que tramita para impedir esse debate fundamental nas escolas . Até mesmo o slogan “É proibido proibir” do grande movimento libertário e contestador que se deu contra o conservadorismo, as ditaduras militares, colonizações e demais opressões fruto da sede de lucro deste sistema social, impulsionado pelo levante dos trabalhadores e jovens do maio francês e seguido por diversos países foi taxado pela matéria.

Isso porque tal discurso se pretende “não ideológico” e “humanista”. Ficam as perguntas: Neutro e humanista como se está tomando o lado da manutenção das mortes e sequelas de centenas de milhares de mulheres ao lhes negar o direito ao aborto legal, seguro e gratuito? Se quer calar os professores e educadores no país campeão em assassinato à pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais? Se impedem a discussão de gênero no país da violência contra mulheres e dos feminicídios que chocaram o mundo, como o caso campineiro de Isamara e as nove mulheres de sua família assassinadas a sangue frio por seu ex-marido? O silêncio e a neutralidade não passam de um assento confortável ao lado da ideologia dominante patriarcal, que se utiliza das diferenças para oprimir e dividir os trabalhadores, para obter mais vantagens na exploração, como bem exemplifica a terceirização e os postos de trabalhos mais precários em nosso país, nos quais a maioria é de mulheres e pessoas negras, recebendo até 40% a menos que os homens brancos.

O centro da argumentação falha da nota está em querer taxar a discussão do aborto como um debate e decisão amoral e individual que algumas mulheres isoladas tomam. Mas trata-se de um debate social da mais extensa envergadura. Não por acaso esse movimento argentino é conhecido como “maré verde”, além dos simbólicos lenços verdes carregados nos pescoços, cabelos e punhos das milhares de mulheres que inundaram as ruas, o nome refere-se também ao protesto multitudinário. Processo no qual, mesmo com uma resistência de setores contrários ao aborto, é evidente que a maioria e a força está com aquelas que não aceitam mais seguir morrendo por falta de reconhecimento de seu direito de decidir sobre seus próprios corpos e devido à negação de estrutura estatal para que sua decisão não implique em risco de vida, mutilações e/ou prisão.

É tamanha a hipocrisia daqueles que falam em nome da vida e dos valores humanos mas oferecem repressão policial, corte de gastos públicos que afetam a saúde, educação e todos os âmbitos das vidas dos trabalhadores e da população pobre. Assim devemos nos inspirar nas mulheres argentinas que tiraram da clandestinidade uma realidade que não pode mais seguir sendo ignorada. Devemos apoiar sua luta e fazer como elas, também no Brasil organizarmos em cada espaço de trabalho e estudos nossa mobilização para exigir do Estado esse direito elementar. Ao mesmo tempo em que lutamos pela revogação de todos os ataques e as reformas impostas pelo governo golpista de Temer, respaldados pelos que querem garantir os interesses dos empresários nacionais e internacionais como fazem seus representantes no Congresso Nacional e no Judiciário.




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