Sociedade

ESTADO LAICO? -

Câmara do Rio vira igreja com culto evangélico imposto pela bancada política da Universal

É bom sempre lembrar que Inaldo da Silva está diretamente ligado ao prefeito Crivella, pois foi eleito em seu primeiro mandato pelo mesmo Partido Republicano Brasileiro (PRB).

segunda-feira 2 de outubro| Edição do dia

Como é possível observar na foto e ver no vídeo, o bispo e vereador sentado em uma cadeira levanta a mão direita para o alto ao som da música “A volta por cima”, da cantora gospel e pastora Flordelis, líder de uma comunidade evangélica com o mesmo nome. A cena se torna bizarra por estar acontecendo dentro da Câmara do Rio de Janeiro.

O disparate aconteceu no último dia 29 de setembro, sexta-feira. Tratava-se de uma homenagem ao Dia do Encontro Interdenominacional (ou entre denominações evangélicas, ou seja, talvez não estivessem presentes apenas membros da Igreja Universal e isso se comprova com a música de outra denominação), que devido a um projeto de lei do próprio bispo e vereador, entrou para o calendário da cidade este ano.

No primeiro vídeo publicado, é possível ver Inaldo Silva sentado na cadeira que é usada nas plenárias pelo presidente da Câmara, com flores em sua volta. Na mesa diretora, aparecem a cantora Flordelis e Eduardo Lopes (PRB), suplente que assumiu a vaga no Senado de Crivella após ele ter sido eleito prefeito do Rio.

Os encontros interdenominacionais são realizados pela Igreja Universal para reunir diversos líderes evangélicos de diversas denominações ou igrejas com liturgias diferentes. No ano passado, por exemplo, o evento se deu no suntuoso Templo de Salomão, em São Paulo. O coordenador era exatamente o bispo Inaldo Silva.

A mulher do bispo e vereador Inaldo da Silva, Sandra Pereira Ramos da Silva trabalhou no gabinete de Crivella no Senado, com salário superior a R$ 15 mil. Crivella é sobrinho de Edir Macedo, aquele que é dono da TV Record e que patrocina programas evangélicos na TV.

Flordelis, a cantora da música do vídeo, também publicou em sua página seu discurso feito na mesa diretora da Câmara condenando a exposição no Museu de Arte Moderna (MAM), o mesmo em que aparece uma criança numa sala em que havia a performance com um homem nu e que está gerando nas redes sociais reações negativas dos setores mais conservadores da sociedade.

“É uma exposição que eles estão chamando de arte, mas eu, como pastora, como mãe, como mulher, chamo de pedofilia… Nós somos protestantes e temos que protestar contra as coisas que estão erradas em nossa volta. Está na hora de o povo de Deus se levantar”. E continua a vomitar dizendo: “É hora de nós mostrarmos a nossa força. Já estamos mostrando isso na época das eleições. Nunca houve tantos candidatos evangélicos que foram eleitos. E agora está na hora de continuarmos mostrando a nossa força. Vamos embora para a rua, minha gente. Vamos dar as mãos, vamos gritar que essa nação não pertence a Satanás, ela é do senhor Jesus!”

Leia também: Repressão racista de Crivella e da PM impede samba na Pedra do Sal

É bom lembrar que é porque a frente evangélica tem 40% do Congresso que as piores aberrações estão sendo vistas ultimamente. Esse pensamento conservador que se tenta hegemonizar por parte dos evangélicos tem trazido à tona as piores aberrações, como recentemente a liminar da cura gay. O discurso da cantora chama essas pessoas que defendem esses absurdos a irem às ruas defenderem essas posições.

Leia também: Prefeito Crivella demonstra ódio a LGBTs e diz que impedirá exposição “QueerMuseu” no Rio

O estado é laico, mas toda essa maré no Rio de Janeiro é possível de ser entendida uma vez que setores evangélicos detêm o poder de diversas emissoras na televisão, bem como enriquecem às custas da fé alheia. Quem já teve o desprazer de ir a um culto na Igreja Universal já presenciou os discursos apaixonados de recompensa financeira para aqueles que doam seu dinheiro. Além do dízimo que é cobrado de cada fiel, dez porcento de seu salário.

Atualmente, entre os 51 vereadores da Câmara do Rio, três são do PRB, partido de Marcelo Crivella e de forte ligação com a Igreja Universal: além de Inaldo Silva, Tânia Bastos e João Mendes de Jesus. Há pelo menos outros dois com forte ligação com os evangélicos e as pautas conservadoras: Otoni de Paula (PSC) e Alexandre Isquierdo (DEM), este bastante ligado ao pastor Silas Malafaia.

A composição do Congresso Nacional mostra a dominação dos evangélicos. A frente parlamentar que reúne o setor tem 198 deputados. Ou seja, são quase 40% dos 513 que têm mandato na Casa. Eles estão na linha de frente de pautas conservadoras como já dito a “a cura gay” aliando-se inclusive a grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL).


Suntuoso Templo de Salomão

Toda essa hipocrisia por parte dos evangélicos é uma verdadeira afronta à nossa inteligência. A moral conservadora vive de fingir uma vida de costumes puritanos, mas os evangélicos são os mesmo que os indígenas denunciam (que diga-se de passagem vivem nus com seus filhos), pois além de todo o “estabelecimento” de igrejas evangélicas nas periferias, favelas e grandes centros, em que existe uma população mais vulnerável, isso é apenas o começo do quanto esse setor tenta se introjetar na sociedade. Entre os indígenas eles enriquecem dizendo ir levar a palavra de Deus a um povo bárbaro.

Não podemos aceitar esse retrocesso. O estado é laico, e é inadmissível que a religião, que deve ser de cunho privado, se intrometa nos rumos que a sociedade tem que decidir para o seu futuro.

Também leia: ’Só se for para o fundo do mar’, diz Crivella sobre Queermuseu no Rio

[com informações de fontes do theintercept.com]




Tópicos relacionados

Sociedade   /    Rio de Janeiro   /    Política

Comentários

Comentar