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UNICAMP

Calourada Unicamp: preparar um Congresso dos Estudantes para refundar o movimento estudantil contra Bolsonaro e Dória

Nós da juventude Faísca e do grupo de mulheres Pão e Rosas defendemos como proposta aos estudantes, Centros Acadêmicos, DCE e movimentos sociais da Unicamp a realização de um grande Congresso dos Estudantes no primeiro semestre, com as mulheres, negros e indígenas à frente, por uma refundação do movimento estudantil à altura dos desafios da juventude e dos trabalhadores em uma nova situação do país, diante dos governos Bolsonaro e Dória. Um espaço como esse, que não ocorre desde 2015 na Unicamp, pode unificar os estudantes na mais ampla democracia desde os Institutos e servir para refletir e preparar os combates decisivos que devemos travar neste ano contra a Reforma da Previdência, que quer superexplorar a juventude, e os ataques às universidades e à educação de conjunto. Para isso, ainda mais em tempos em que a extrema direita quer criminalizar quem luta, não podemos aceitar as punições pelas mãos de uma reitoria que se diz em defesa da “democracia” e da “universidade pública”, mas segue reprimindo o movimento estudantil e apóia os fundos patrimoniais de Bolsonaro.

quarta-feira 13 de fevereiro| Edição do dia

Ato de estudantes, trabalhadores e professores da Unicamp contra Bolsonaro em Outubro de 2018

Os estudantes da Unicamp não passaram por fora dos principais acontecimentos que marcaram a história recente do país, cujo regime político está em transformação à direita. Foi ali em 2016 onde centenas de estudantes desde suas assembleias paralisaram suas atividades, entraram em greve e ocuparam a reitoria pelas cotas étnico-raciais em uma das universidades mais racistas do país e também se posicionando contra o golpe institucional que vinha para atacar a vida dos trabalhadores, dos negros e do povo pobre no Brasil mais do que o PT, que já vinha aprofundando ataques no segundo mandato de Dilma. Também em 2017, quando a classe trabalhadora brasileira mostrou sua força, apesar do papel das centrais sindicais, como no 28 de Abril, os estudantes estavam nas ruas fazendo atos ao lado dos trabalhadores. Fechamos avenidas e rodovias em Campinas e enchemos listas de ônibus para Brasília contra as reformas de Temer. Em 2018, vários cursos se posicionaram contra a prisão arbitrária de Lula, como expressão do autoritarismo judiciário que depois manipulou as eleições e foi fator fundamental para a eleição de Bolsonaro. No dia do assassinato da Marielle, que até hoje segue sem resposta e há suspeita de envolvimento de Flávio Bolsonaro com milicianos responsáveis pelo crime, o IFCH apareceu no Jornal Nacional como um polo de indignação e revolta, com suas Escadarias lotadas. Após o primeiro turno, os estudantes fizeram atos massivos, votaram paralisações e se posicionaram contra a extrema direita e a eleição de Bolsonaro.

Afinal, não faltam exemplos que comprovam a energia dos jovens dessa universidade em quererem se levantar contra os reacionarismos asquerosos, racistas, misóginos, LGBTfóbicos e anti-trabalhadores do bolsonarismo, apoiado no Judiciário golpista e nas Forças Armadas e ajoelhado ao imperialismo de Trump - que agora quer avançar sobre a América Latina na Venezuela, com o apoio do governo brasileiro. Não é à toa que as universidades estão na mira dos discursos raivosos da extrema direita contra a ciência, o marxismo, a militância política do movimento estudantil e suas entidades. Enquanto o Ministro da Educação Vélez afirma que as universidades devem ser para as elites, será no primeiro ano do governo Bolsonaro também o primeiro ano do ingresso dos estudantes cotistas, negros e indígenas na Unicamp, conquista pela qual até hoje dezenas são punidos pela reitoria Knóbel, que afirma na mídia defender uma universidade pública, “democrática e inclusiva”.

Por isso, mais do que nunca, nossa Calourada deve ser permeada por profundos debates sobre qual projeto de universidade e de país defendemos, de modo a preparar um grande Congresso dos Estudantes da Unicamp, em que as mulheres, negros e indígenas estejam à frente. Partindo de entender o que nos trouxe até aqui, em uma ampla discussão de ideias que nos permita tirar lições estratégicas contra qualquer desmoralização e que arme nossos próximos passos, devemos refundar as entidades e o movimento estudantil, em base às tarefas que se colocam com urgência em uma nova situação nacional.

No dia 24 de Janeiro deste ano, o DCE da Unicamp, cuja gestão possui militantes do PSOL e independentes, publicou uma nota para que as centrais sindicais e a UNE encabecem uma luta contra a Reforma da Previdência. Nós da juventude Faísca e do grupo de mulheres Pão e Rosas, ainda que com outros pontos de diferença política na carta, defendemos que essa posição, de importância nacional se seguida por todos os DCEs e CAs em que o PSOL está à frente pela Oposição de Esquerda da UNE, deve extrapolar as redes sociais e se tornar uma política real a partir do Congresso dos Estudantes, em um momento em que prima a passividade e diversos setores da população depositam expectativas no governo, alimentadas pela trégua dos sindicatos, das grandes centrais e das entidades estudantis nacionais. É a partir de um espaço como esse que podemos gestar a verdadeira unidade contra os ataques.

Por uma grande Calourada na Unicamp: que ocupe a universidade com debates, arte, cultura e ideias subversivas, tudo aquilo que Bolsonaro odeia na juventude

Nós precisamos nos enfrentar com tudo o que nega à juventude o direito ao futuro, à educação, ao pleno emprego e a se expressar livremente. Paulo Guedes quer fazer uma Reforma Trabalhista especial para a juventude, dentro da Reforma da Previdência que fará com que trabalhemos até morrer, com o falso discurso de que cada jovem pode “escolher” se quer a carteira verde e amarela ou a carteira da CLT. Sabemos que os únicos que vão escolher serão os patrões: trabalhos ainda mais precários, salários de miséria, para que substituamos os mais velhos, precarizando toda a classe trabalhadora e fazendo os lucros das empresas aumentarem. Nas palavras de Maia, “todo mundo consegue trabalhar até os 80 anos”. As mulheres, que já sofrem com duplas e triplas jornadas, também são grande alvo. Essa será uma batalha decisiva que, se vencemos, fortalece a luta contra os ajustes para que sejam os capitalistas a pagarem pela crise e, se somos derrotados, fortalece a sanha da extrema direita, dos golpistas e dos grandes empresários no Brasil.

Essa ganância já entregou, nos primeiros dias de governo, terras indígenas e quilombolas à mãos dos latifundiários e, junto ao pacote anti-corrupção de Moro, quer legalizar os métodos da Lava Jato para o Estado e aprofundar a repressão e o assassinato da juventude negra, com a “legítima defesa dos policiais”, dentre outras medidas escandalosas. Nossa Calourada deve desde agora expressar e organizar as demandas dos estudantes negros e indígenas e que estes estejam à frente de transformar o movimento estudantil, para que seja porta-voz da luta por permanência e por cada direito desses setores na universidade e também dos que não podem estar na Unicamp, porque ano a ano o vestibular exclui milhares dessa possibilidade e as condições de vida da maioria da população piora.

Bolsonaro também quer promover, junto à sua ministra Damares da família tradicional e à bancada reacionária do Congresso, ataques às mulheres e LGBTs, que não são “cortina de fumaça”, como afirmaram Lula e Gleisi Hoffman, e sim têm como objetivo criar um caldo social conservador em uma batalha cultural contra a liberdade sexual e a geração das jovens mulheres que se vêem feministas e querem lutar por seus direitos, para também facilitar a aprovação dos ataques econômicos.

Para combater todos conservadores, precisamos de uma Calourada viva, com festas e atividades culturais contra todo tipo de repressão dos que querem cercear a juventude, livre de opressões, abertas a todos, em uma cidade onde não há direito ao lazer, e na qual cada um possa ter direito a se expressar, em um momento em que o Judiciário, no qual a reitoria se apoia, quer reprimir os estudantes proibindo esses espaços de socialização para também reprimir, como faz Knóbel com as punições. Uma Calourada que já em seu início organize as e os estudantes para serem ponto de apoio no cenário nacional junto às mulheres na linha de frente em um 8 de Março que se levante contra a misoginia do governo Bolsonaro na América Latina, que tem grande inspiração no imperialismo de Trump, em luta por justiça a Marielle e por um sério combate à Reforma da Previdência, impulsionando o conjunto da classe trabalhadora. Nossa calourada pode ser uma grande preparação para que desde já as entidades possam chamar o Congresso dos estudantes, aberto, amplamente convocado e com representantes eleitos em cada curso a partir de assembleias, para articular todo movimento estudantil.

Contra os cortes, o projeto privatista de educação e em defesa da ciência a serviço da classe trabalhadora

Bolsonaro sancionou lei que permite órgãos públicos fazerem parcerias e executarem projetos com organizações privadas gestoras de fundos patrimoniais. Em poucas palavras, abre caminho para o financiamento privado dos serviços públicos, da pesquisa e produção do conhecimento. Knobel, que se coloca como o reitor contra os cortes nas estaduais paulistas e em defesa da universidade pública frente ao governo Bolsodória, apoia, junto aos outros reitores das estaduais paulistas, a criação desses fundos, alinhando-se aos governos em seus planos de privatização.

Os fundos patrimoniais, ligados aos cortes de Dória no início deste ano no orçamento das estaduais paulistas, que na Unicamp chegam a 40 milhões, demonstram um salto na política de desmonte e privatização das universidades. Enquanto isso, a Unicamp mantém há anos convênio com empresas como a Vale, que em nome de seus lucros afunda Mariana, o Rio Doce e centenas de trabalhadores de Brumadinho, na maioria terceirizados, em lama - um símbolo do que significam as privatizações. Os fundos patrimoniais vêm para aprofundar essa relação com as empresas.

Contra o obscurantismo de Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo e da corja de Bolsonaro, que também defendem o Escola Sem Partido, defendemos um Congresso dos Estudantes que se coloque por uma ciência de fato a serviço dos trabalhadores e da maioria da população, que se ligue aos grandes problemas sociais, como a mineração em Minas, em nome dos interesses de uma Vale re-estatizada, gerida pelos trabalhadores, controlada pela população e que tenha nos pesquisadores das universidades um ponto de apoio para avançar para uma nova relação com o meio ambiente e as necessidades sociais.

Nas universidades federais, Bolsonaro quer até mesmo escolher a dedo quem serão os reitores, para tornar os estatutos retrógrados das universidades ainda mais antidemocráticos. No Congresso, também devemos levantar a luta por um processo estatuinte onde estudantes, funcionários e professores, a partir do sufrágio universal, que significa que cada representa um voto de acordo com seu peso na realidade, possam varrer dessa universidade os resquícios da ditadura militar tão aplaudida por Bolsonaro, transformando a antidemocrática estrutura de poder da universidade, para que sejamos nós, e não a burocracia, a gerir a universidade segundo a proporção das categorias.

Mas por que um Congresso?

Um Congresso dos Estudantes da Unicamp pode servir tanto para debatermos qual Universidade queremos, quanto para que a necessidade de uma frente única dos de baixo contra a Reforma e os ataques às universidade e à Educação seja gestada, com os estudantes dos mais diversos cursos. Sabemos que sozinhos não conseguimos derrotar Bolsonaro e seus planos, pois é preciso que outras universidades, escolas e locais de trabalho tomem para si esse combate. O movimento estudantil da Unicamp pode se colocar à frente nacionalmente. Por isso, é tão fundamental debatermos o papel da UNE, que construiu um CONEB em que a maioria dos estudantes mal puderam se expressar, a serviço de reforçar sua estratégia unicamente parlamentar em ano de ConUNE, e da CUT, CTB e demais centrais que estão nos principais sindicatos, reunindo milhares de trabalhadores pelo país. Por exemplo, os estudantes podem chamar ao Congresso uma comitiva de trabalhadores e professores da Unicamp, de sindicatos de Campinas que dirigem professores da rede, servidores municipais, metalúrgicos, químicos, assim como os movimentos de mulheres, negros e LGBTs da cidade. Podemos também votar em nosso Congresso comitês de estudantes que nos liguem às outras universidades estaduais, USP e UNESP, e também às faculdades e escolas particulares, que passem nas fábricas, empresas de telemarketing, nos bairros debatendo a necessidade de uma luta nacional contra cada ataque, contra a Reforma da Previdência que quer sugar nossas vidas, contra o Escola sem Partido e desmascarando cada discurso reacionário.

Entretanto, com sua estratégia unicamente parlamentar, PCdoB e PT chamam pela “resistência democrática” apoiando candidatos que são a favor das reformas na Câmara (com PCdoB unificado com o candidato que contou com suporte do PSL, Rodrigo Maia) e Senado (com PT inicialmente apoiando Renan Calheiros), enquanto bloqueiam a luta, já que as centrais sindicais que esses partidos dirigem estão em paz com Bolsonaro. Foi essa oposição meramente “por cima” que já se provou impotente contra o golpe, o autoritarismo judiciário e cada avanço da extrema direita. Mas mesmo o PSOL vem buscando cobrir essa estratégia pela esquerda, fazendo uma frente ampla parlamentar na qual a unidade é com os partidos burgueses que descarregam os ajustes sobre a população, como o PSB do Jonas de Campinas, principal articulador da Reforma da Previdência entre os prefeitos no país. Enquanto o PSOL centra sua política na Câmara por uma articulação com inclusive partidos golpistas, como a REDE, pela eleição de Freixo em um Congresso carcomido pelos partidos da ordem, convive pacificamente com as traições que impedem a unidade dos trabalhadores e da juventude para luta, cobrindo pela esquerda o papel das centrais sindicais e da UNE. Esse partido, que ampliou sua bancada nessas eleições, deveria usar sua força parlamentar para impulsionar a luta no terreno extraparlamentar. Essa seria uma oposição que pode de fato ser um fator que pese pela verdadeira frente única necessária. Inclusive disputando assim, com a força das lutas, os jovens e trabalhadores que ainda estiverem iludidos com toda operação ideológica realizada pela direita asquerosa.

Convidamos cada estudante que sente a necessidade de debater os desafios do movimento estudantil, compreendendo e tirando balanço do último período, e do conjunto da juventude e dos trabalhadores na Unicamp e no país a impulsionarem conosco uma grande campanha pelo Congresso dos Estudantes ainda no primeiro semestre




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