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Caio Martinez fala em entrevista sobre a censura e repressão contra a Trupe Olho da Rua

ENTREVISTA EXCLUSIVA com Caio Martinez que conta sobre ataques, censura e repressão contra o grupo teatral Trupe Olho da Rua

segunda-feira 4 de dezembro| Edição do dia

No dia 8 de outubro, acompanhamos a intervenção cênica da Trupe Olho da Rua no Boteco da Diversidade, iniciativa do SESC Pompeia, que visa ampliar o debate político e artístico de assuntos inerentes à diversidade cultural e à defesa dos direitos humanos. A edição de outubro foi voltada ao debate sobre as contradições instauradas nos processos de criminalização e o desrespeito aos direitos humanos conquistados historicamente.

Trupe Olho da Rua

A Trupe Olho da Rua surge no final do ano de 2002, pesquisando e trazendo à tona o universo da tradição circense atrelado ao teatro de rua. Diversas apresentações na rua, em espaços públicos, mostras e festivais fazem da trupe referência de um teatro marcado pela ousadia, irreverência e o posicionamento claro contra o capitalismo.

Em dezembro de 2005 estreou um espetáculo que foi um marco em sua trajetória, sendo também referência para diversos coletivos artísticos: o “Alto dos palhaços", concebido pela trupe e com direção de Miguel Hernandez, ironiza e marca posição crítica sobre as festas natalinas e a cultura de consumo capitalista. Em 2007 foi a vez do espetáculo “Arrumadinho”, que marca um período de ampliação da linguagem cênica do coletivo, buscando ampliar sua compreensão da prática teatral para além dos padrões estéticos convencionais.

A primeira Mostra de Teatro Olho da Rua foi realizada entre maio e agosto de 2009, recebendo cinco grupos parceiros: Brava Companhia, Pombas Urbanas e Núcleo Pavanelli, de São Paulo; Trupe D’Areia, de Santos e Oigalê, do Rio Grande do Sul. O encontro realizado em Santos, trouxe novos ares para o fazer teatral da baixada santista. Neste mesmo ano, a trupe estreiou “Terra Papagalli”, que através do PROAC, circulou por cinco cidades ligadas historicamente ao tema do espetáculo.

Foram diversas mostras e festivais, prêmios e estudos até a concepção do espetáculo “BLITZ, o império que nunca dorme”. Foi o primeiro grupo de teatro de rua a chegar na etapa final do projeto Mapa Cultural Paulista, representando também a baixada santista no festival MIRADA – Festival Ibero Americano de Artes Cênicas de Santos, em 2010. No mesmo ano participou também da Mostra Lino Rojas e no ano seguinte, ficou em cartaz com várias peças do repertório em unidades diversas do SESC, ampliando assim o diálogo com o mais diverso público. 2011 e 2012 também foram marcados pela segunda e terceira edições da Mostra de Teatro Olho da Rua. Em 2015, participou do acampamento revolucionário na fábrica ocupada FlasKô e em setembro, estreou o espetáculo “BLITZ, o império que nunca dorme”.

Em entrevista para o Esquerda Diário, Caio Martinez Pacheco, ator e diretor da Trupe, relata sobre o processo de montagem do espetáculo e sobre os sucessivos ataques, censura e repressão que o grupo vem sofrendo desde a estreia e da circulação da peça.

ED: CAIO, CONTA PRA GENTE UM POUCO DO PROCESSO DE MONTAGEM DO ESPETÁCULO "BLITZ, O IMPÉRIO QUE NUNCA DORME"...

CAIO: Sou Caio Martinez, da Trupe Olho da Rua e vou falar um pouquinho sobre o processo de montagem do espetáculo "BLITZ, O Império que nunca dorme."

É um processo que a gente começou a pesquisar a partir do nosso contato com o movimento Mães de Maio, um movimento de direitos humanos formado por mães que perderam seus filhos assassinados pelo Estado, através da polícia. Muitas militantes desse movimento são de Santos. A gente criou uma proximidade na militância, começamos a fortalecer, participar dos atos e começamos a perceber que muitos grupos de teatro, principalmente de rua, em algum momento dos seus trabalhos, sempre trabalham com essa perspectiva da força policial, do braço armado do Estado nos seus espetáculos. Partimos então de uma proposta de fazer um espetáculo que tivesse um foco estritamente nessa questão, e que tivesse como segunda camada como a mídia coorporativa legitima essa violência do Estado hoje em dia dentro da nossa cultura.

Então, começamos a fazer uma pesquisa histórica, sobre a formação da polícia. Uma pesquisa jornalística dos últimos anos sobre casos que tiveram mais repercussão e uma pesquisa também em relação aos dados do que essa violência produz na cidade, na periferia, no Brasil inteiro. Fizemos um paralelo com outros países também. E aí esse material que foi pesquisado colocamos numa chave primeiro com um preceito de criar um espetáculo que fosse épico de escracho, se é que isso é possível. Épico, mas com um traço de humor voltado para o escracho, que pudesse problematizar mas também devolver, de certa maneira, essa violência transformada pelo humor.

Foi um processo mais ou menos de um ano e meio e chegamos a um prólogo do processo, de 15 minutos. Durante o resto do processo, ficamos um ano apresentando esse prólogo em manifestações, em ações e festivais, nas praças... E durante esse processo de apresentação do prólogo fomos construindo o resto do espetáculo.

ED: E SOBRE A REPRESSÃO DURANTE A APRESENTAÇÃO NO ANO PASSADO QUE CULMINOU NA SUA DETENÇÃO? COMO FOI ESSE PROCESSO, O QUE ANTECEDEU ESSA AÇÃO ESPECÍFICA? COMO FOI A AÇÃO POLICIAL NO DIA E QUAIS SÃO OS DESDOBRAMENTOS QUE SE DÃO ATÉ HOJE?

CAIO: Durante o processo de construção do espetáculo, por envolver um tema que já existe um lastro de opressão grande, lá na baixada tivemos quase uma dezena de MCs que foram assassinados pela polícia, em geral, por cantarem músicas que falassem, que criticassem a instituição policial e o sistema do capital.

Sabíamos que era um tema muito delicado e durante o processo, tomamos algumas precauções. Participamos de algumas audiências públicas com a polícia, comunicamos inclusive o Batalhão Geral da Baixada Santista que estávamos fazendo este processo, contemplado pelo PROAC, que é um edital do governo do Estado, para inclusive conseguir concretizar o processo.

Então, tentamos nos cercar também com o OAB durante o processo de montagem já antevendo que poderia acontecer algum problema. Mas, também já sabíamos que os policiais que fazem a patrulha talvez fossem receber muito mal o espetáculo. Isso aconteceu de uma maneira muito simbólica ao longo do primeiro ano do espetáculo: algumas intervenções, algumas coações... o que culminou, em outubro do ano passado, numa ação policial orquestrada.

Nos cercaram na praça com diversas viaturas, com armas em punho. Interromperam o espetáculo. Entraram em cena armados, desligaram o som, fizeram diversos xingamentos, sem argumentos. Primeiro disseram apenas que estávamos desrespeitando a instituição. Então, investiram contra o público e tomaram os celulares de quem estava filmando. Me identificaram como diretor do espetáculo, me responsabilizaram pela ação e me levaram preso. Fui algemado, contra a minha vontade, numa situação muito delicada. Fui levado à delegacia, onde fiquei quase duas horas cercado por policiais, vestido ainda com o figurino do espetáculo, que ressalta alguns defeitos da polícia. Esse processo foi estendido, os policiais ficaram muito nervosos.

A única coisa positiva desse ocorrido é que se colocou em pauta, mesmo dessa maneira liquida e rápida, a liberdade de expressão e o abuso policial. Já durante a ação deles, parte da pessoas ali não concordava com o que estava acontecendo. Lá na delegacia, acharam uma acusação sobre o desrespeito ao símbolo nacional, porque no nosso cenário usamos uma bandeira ao contrário, então a partir disso, eles legitimaram a ação por conta dessa contravenção, que aliás, é uma contravenção da época da ditadura, é uma lei que não existe mais em muitos países e que eles aplicaram em relação a trupe. Isso gerou um processo de investigação, que prevê que o grupo todo, as 8 pessoas que compõe o espetáculo, podem pegar três anos de detenção por desrespeito ao símbolo nacional, e eu com mais seis anos de acréscimo por desacato e resistência. Esse processo ainda está em fase de investigação. Já fomos ouvidos e não sabemos ainda se este processo vai culminar em ação judicial.

Houve um inquérito interno da própria polícia militar sobre abuso de autoridade e óbvio que eles deram (razão) aos policiais. Em geral, a súmula da decisão militar é que nenhuma lei se sobrepõe a outra, (o que impede) a lei que diz respeito ao símbolo nacional sobressair da lei de liberdade de expressão.

Um juiz corregedor dos presídios da polícia fez uma investigação e concluiu nesta investigação que a polícia agiu com abuso de autoridade. Ele nos ouviu, ouviu testemunhas, os policiais e fez um levantamento com o material de imprensa que saiu na época. Na sentença dele, os policiais são encaminhados a responder na justiça comum por abuso de autoridade. E o que é interessante na sentença do juiz é que ele cita que nos últimos dez anos no Estado de São Paulo só oitenta e cinco casos foram levados para justiça comum por abuso de autoridade, sendo todos ganho de causa da polícia! Então, isso representa uma realidade muito dura: que nos últimos 10 anos no Estado de São Paulo, não existiu nenhum tipo de abuso de autoridade por parte da polícia, ou pelo menos isso não foi concluído num processo penal.

E a partir desse evento, nós não esperávamos que fossem surgir outras ações arbitrárias, como por exemplo, o coronel Telhada, em plena ALESP (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), quando participávamos da Comissão de Direitos Humanos, pegou o microfone e fez diversas ameaças, dizendo que somos lixo, que lixo merecia amanhecer na boca do lixo, que chumbo trocado não dói, que o que fizemos a polícia nunca vai esquecer, que nunca mais teremos acesso a nenhum edital público. Chegando em casa, ele havia postado no Youtube. A quantidade de ameaças que recebemos passa de cem ameaças na internet.

Depois disso, a polícia começou a se organizar de uma outra maneira. Na sequência disso, fomos nos apresentar em Sorocaba. Eles não interromperam a peça, esperaram acabar a apresentação. Chegaram com quatro viaturas, ficamos detidos por uma hora e meia para prestar depoimento. Eram perguntas muito capciosas, como por exemplo: o que esse texto quer dizer, porque este figurino... coisas que não cabe a polícia julgar! Inclusive ao ponto de perguntar se tínhamos a cópia da gravação do espetáculo que mandamos para o edital do PROAC porque eles queriam comparar com o que eles tinham visto na praça para saber se não tínhamos subvertido o próprio edital. Isso se repetiu também em Guarulhos, já agora, esse ano. Acabamos a apresentação, chegaram várias viaturas para fazer o boletim de ocorrência.

Então, essas situações são realidade e assustam muito. E para além dessas situações, acabou acontecendo outras situações que são “coincidências”. Não temos como acusar, mas nesse ambiente de fragilidade, que se encontra quem coloca sua voz, ficamos à mercê. Quando fomos reestreiar a peça, depois de todo acontecido, uma viatura me seguiu. Quando parei o carro, fizeram uma série de piadas, que eu ia perder o carro. Roubaram meu carro naquela noite. Comprei outro carro, esfaquearam dois pneus. Um dia depois da decisão do juiz corregedor, saiu na imprensa que os policiais responderiam na justiça comum, invadiram meu carro e deixaram um boné de sangue no banco.

Então, são questões que a gente entende que a discussão em relação a polícia, abuso de autoridade por parte do Estado, é uma discussão muito classista que não chama a atenção da grande mídia e não é interessante pro sistema que a gente vive, infelizmente.

ED: COM CERTEZA VOCÊS TEM ACOMPANHADO OUTROS CASOS DE CENSURA E REPRESSÃO À ARTE. COMO VOCÊ PENSA QUE A CLASSE ARTÍSTICA DEVE SE POSICIONAR DIANTE DISSO?

CAIO: Sobre esse momento que nós da Trupe Olho da Rua estamos vivendo, a gente tem uma reflexão que por um lado, quando cai o véu da hipocrisia social ou quando as forças mais reacionárias que não dominavam a narrativa começam a se expressar, a princípio, pela rede social depois em movimentos e começam a investir contra os objetos artísticos que propõe uma discussão social, pra gente é um momento muito importante porque a arte reafirma seu significado de leitura de mundo.

A arte perde a função meramente decorativa e assume um valor muito claro para sociedade que é de discutir os temas que precisam ser discutidos naquele momento e que vão gerar controvérsias, que vão gerar opiniões contraditórias. Então por um lado, a gente acredita que é um momento dos artistas se debruçarem nesse momento caótico que estamos vivendo e produzir. Mas, por um outro lado, é um momento muito perigoso porque além da questão da liberdade de expressão, estamos vivendo o cerceamento das condições dadas. O que aconteceu com a gente, por exemplo, em nenhum momento fez com que conseguíssemos circular mais, muito pelo contrário. A nossa quantidade de apresentações caiu em 80%. Praticamente nenhum festival quer receber a peça porque ninguém quer assumir o risco de um conflito social com a polícia. Estávamos inclusive com o PROAC aprovado para circulação em onze cidades. Dessas onze cidades que estávamos com a carta de anuência, seis voltaram atrás porque não queriam a gente na cidade.

Então por um lado, é um momento muito rico para a produção de arte política, de arte crítica. Por outro lado, é um momento muito perigoso de acirramento. As coisas podem acabar caindo para a barbárie total e muitos artistas vão perecer nesse processo, porque quando você tira as condições dadas de trabalho, que já são poucas, o trabalho que até então era precarizado passa a ser sub-humano. Assim, os artistas populares, aqueles que dependem da arte para sobreviver, esses vão perder o seu ganha pão e necessariamente, terão sua produção muito prejudicada.

É um momento muito dubio que estamos vivendo e penso que todo artista que tem o mínimo de condições dadas para criar precisa se imbuir desse momento histórico e ser o sujeito histórico desse momento. Criar com a sua arte um paralelo, uma interlocução com essa sociedade que a gente está vivendo.




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