Cultura

GUARULHOS

CULTURA EM GUARULHOS: Um retrospecto do retrocesso. Cultura em dois anos de ataques, descaso e agonia.

sábado 29 de dezembro de 2018| Edição do dia

Sucateamento e descaso marcaram o histórico do ano que termina. População, artistas e trabalhadores ecoam o grito: CULTURA NÃO É LIXO! Fizemos uma pequena análise dos dois últimos anos da "gestão" Guti. Ironia é que não se trata de uma "volta no tempo" metafórica , já que em GRU, o retrocesso de fato se vive no dia a dia .

Um governo marcado por contradições. Nesses dois anos de mandato ficaram evidentes inúmeras tentativas de manipular informações sobre as realizações para a cidade, principalmente no campo da cultura. Nesse período, tivemos o embate dos artistas contra a junção das pastas da cultura, educação, esporte e lazer, luta esta que foi sumariamente ignorada. O principal argumento era que, pela via da unificação das pastas, haveria “economia” e que ambas as pastas dariam mais robustez aos programas implantados por cada secretaria, estando estas sob o mesmo guarda-chuva da gestão Zeitune, à época, secretário e vice prefeito.

Fato é que em pouco mais de um ano, a própria administração municipal reconheceu que tal junção trouxe mais ônus do que benesses, gerando travamentos burocráticos aos assuntos da cultura. Assim, promoveu-se a reorganização da estrutura da prefeitura, devolvendo novamente a “autonomia” da cultura com pasta própria, porém, vale ressaltar, que até o momento, a secretaria de cultura permanece sem um secretário, cabendo ao prefeito a assinatura final dos processos da pasta.

E nem só de burocratização e manobras se fez e faz essa gestão. Uma série de gafes e fiascos se alternam com descaso e absurdos de todo tipo e neste retrospecto de 2 anos, elencamos os absurdos mais marcantes para as artes na cidade de Guarulhos, momentos esses que culminaram com os esfacelamento dos valores simbólicos da cultura e principalmente com os seus equipamentos públicos. Veja:

CHAMAMENTO PÚBLICO PARA DIÁLOGO SOBRE A GESTÃO DA CULTURA

Precisamente no dia 30.01.17 houve um encontro no Teatro Adamastor Centro, com mais de 700 pessoas ansiosas para ouvir o que de novo haveria nessa nova gestão. O que se presenciou foi um show de horrores. Sem contar com a presença do Secretário e tão pouco do digníssimo prefeito, o feito ficou para as incapazes mãos do Subsecretário Adalmir Abreu, que no embate sobre a proposta de eleição de um GT para formação da Conferência Municipal que não tinha sido anunciado anteriormente, perdeu a mão e esbravejou contra aqueles que exigiam transparência e metodologias mais plurais e democráticas à constituição desse GT.

A presença não tão importante do Diretor de cultura que em suas falas prometeu o fortalecimento da Escola Viva de Artes Cênicas, fato que em dois anos de gestão não se concretizou e tão pouco houve qualquer interesse em restabelecer seu funcionamento. Para completar a coleção de demagogia e falácias. comentou ainda sobre a ocupação dos artistas nos espaços públicos, lançamento de editais e no ápice de sua cara de pau, lançou a absurda proposta de que os artistas trabalhassem sem cachê. Proposta popularmente conhecida como NAMASTÊ SEM CACHÊ.

E para coroar a noite, quando o presidente da Associação Arte Nativa Indígena, AWA KUARAY, pediu a palavra em defesa de política pública a causa indígena, ouviu dos gestores que estavam pensando em um memorial indígena. Em resposta, Awa afirmou apaixonadamente: “Estou vivo, estamos vivos, museu é pra quem está morto”.

CARNAVAL

Se no ano de 1927 alguém falasse que a ideia de Ismael Silva, quando fundou a primeira Escola de Samba “Deixa Falar” na cidade do Rio de Janeiro, iria conseguir ser tão difundida e se transformar na maior Festa Popular do Mundo assistida em tempo real em mais de 200 países, com certeza seria internado em algum manicômio.

Da mesma forma, se no ano de 2016 alguém dissesse que em 2017 a cidade de Guarulhos não teria o Desfile das Escolas de Samba em uma passarela seria taxado de louco.

E assim foi. Depois de as Escolas conseguirem se reestruturar e realizarem desfiles lindíssimos na Festa de Momo, foram novamente esquecidas e relegadas a um quase esquecimento dentre as festas de cultura popular de nossa cidade. Até índio Guaru ficou anestesiado.

O mundo reconhece a nossa diversidade cultural, dentre elas o Carnaval, o Desfile de Escolas de Samba. Aqui em terras de Guaru quem tem olho é cego.

A chave da cidade é entregue ao Rei Momo, e durante quatro dias a fantasia entra na mentes dos brincantes do carnaval.

Mas não são quatro dias, são 365 dias. Durante o ano Inteiro essa manifestação da Cultura Popular cria empregos, incentiva artistas, gera receitas, traz dividendos numa cadeia de resultados que ultrapassam os 365 dias. Para além de dialogar com o imaginário de jovens, negros, LGBTS, mulheres e trabalhadores, que em muitos casos, enxergam no carnaval uma representação de seus anseios e fazem esforços imensos movidos pela paixão carnavalesca, muitas vezes, passadas como legado através dos anos.

É necessário ter uma infraestrutura capaz de absorver e estruturar um desfile. São incontáveis reuniões, encontros, ensaios, demonstrativos de resultados, toda uma cadeia de profissionais, uma pequena cidade de profissionais é erguida para que a festa aconteça.

No entanto, fomos descansar em 2016 e acordamos num pesadelo... A cidade dos sonhos foi desintegrada, as cadeias produtivas deixaram de existir, os profissionais ficaram sem suas cores, seu estandarte não pode mais girar nas mãos da Porta Bandeira, acompanhada pelo Mestre Sala. Num estalar de dedos, um “insight” de um mundo apocalíptico e pronto: não temos mais o Carnaval De Escolas de Samba na passarela.

Certamente se trata de mais um ataque ao campo simbólico que representa o carnaval, historicamente representando as festividades populares, de rua, construídas pelo e para o povo. Secularmente espetacularizado, o carnaval foi entrando nas molduras da indústria cultural até que agora, aqui em nossas terras, não nos resta sequer confete ou serpentina.

SUCATEAMENTO DOS APARELHOS PÚBLICOS

A lista de sucateamento e precarização dos espaços públicos é triste e imensa. Tais espaços sofrem com a falta de equipamento e estrutura técnica, como já relatamos aqui.

O Teatro Padre Bento, por exemplo, encontra-se sem o tablado do andar superior, pisos da administração em péssimas condições, goteiras em cima do palco e sem iluminação e som condizentes ao um espaço cultural. O Teatro Nelson Rodrigues está também jogado às traças, com iluminação e sonorização precarizados.

A prefeitura entregou a administração do Teatro Adamastor Pimentas à Unifesp, mas não devolveu os equipamentos de luz e som retirados na reforma do campus. A universidade, por sua vez, não tem verba para manutenção do espaço e para contratação de funcionários para administrar uma agenda que torne o espaço de uso público, para que assim, estudantes, trabalhadores e toda a população tenham de fato acesso ao espaço.

Trata-se de um ataque brutal não somente aos artistas e coletivos que se vêm a deriva para desenvolverem seus trabalhos e pesquisas como também à população de conjunto, sobretudo aos jovens, crianças, mulheres e trabalhadores que contam somente com o que lhes chega pela via de oficinas e programas culturais como forma de lazer e entretenimento. O que se impõe é mais uma vez, a lógica de consumo, deixando à disposição do povo somente o que a indústria cultural vomita como “arte”.

CIRCO ESCOLA

Em Guarulhos há quase 3 décadas, o Circo Escola Cidade Seródio oferece aulas e oficinas de dança, capoeira, teatro, música, esportes e circo, atendendo crianças, adolescentes e jovens da região. Se hoje já com tal iniciativa o que se vê é ainda falta de vagas para suprir a demanda, que dirá com o futuro corte. A diminuição da verba de apoio a associação que gere o espaço reduzirá sistematicamente o atendimento a população local. Circulou na redes sociais um abaixo assinado contra os cortes feitos no projeto Circo Escola Cidade Seródio, cortes estes que causaram desemprego a diversos funcionários da instituição. Estima-se que cerca de 60% das famílias deixarão de ser atendidas pelo projeto. Acompanhamos também os protestos e o descontentamento popular, como você pode ver aqui:.

CONTRATAÇÃO DE 120 ARTE EDUCADORES - CULTURA ATIVA

Além de grande demagogo que segue a linha de Doria ao se colocar como “gestor”, Guti é também sem sombra de dúvidas, o rei das falácias. Em 26 de maio de 2017 foi lançado um projeto, com promessas de ser a maior contratação da história da cidade. Mais uma das mentiras deslavadas que até hoje não se concretizou. Dos 120 arte educadores prometidos, apenas 13 foram chamados no final de setembro de 2018, e mais, recebendo o primeiro pagamento publicado no Diário Oficial do dia 21 de dezembro deste ano.

Sob descarada “justificativa”, a Secretaria de Cultura declarou que “compreende que o Estado deve ser indutor e zelador da distribuição

democrática dos recursos de acesso, produção, formação e fruição culturais, garantindo o pleno exercício dos direitos culturais, apoiando e incentivando a valorização e difusão das manifestações culturais”.

Revoltante e inaceitável mais essa grande mentira que deixou também à mingua os educadores da cidade, já que no discurso se coloca enorme compreensão, apoio e incentivo e na prática o que se vê é o completo oposto.

VIRADA CULTURAL

A Virada Cultural para essa gestão era tida como mérito, uma vez que na era petista o evento não ocorria em Guarulhos. No entanto, tal orgulho em sediar o evento não passou de mais uma máscara dessa gestão e muito menos mediou a eficiência ou mesmo o respeito com os artistas da cidade.

Na primeira edição, em 2017, houve um chamamento convocando artistas locais para que se apresentassem sem o pagamento de cachê a título de divulgação do trabalho. Aquela boa e velha política de que é uma honra para o artista participar de um evento de grande porte e que somente isso já basta. Além disso, era exigido que se concordasse com uso de sua imagem para divulgação do evento.

Aos artistas trazidos pela organizadora do evento houve pagamento de cachê pela Secretaria de Cultura estadual, o que provocou descontentamento e revolta dos artistas locais, que à época, escreveram um manifesto contra o chamamento da prefeitura, deixando bem claro a não participação no evento por considerar a proposta desrespeitosa para com os artistas e um absurdo para com a população também.

Como resposta, os coletivos de GRU organizaram de forma independente a “Virada Clandestina”, sem qualquer apoio institucional da prefeitura, nos dias 13 e 14 de maio de 2017 no bairro periférico do Inocoop.

Veja mais detalhes neste link

EDITAIS NÃO PAGOS

A cidade conta com duas leis de fomento: Funcultura e a de Teatro e Dança, mas não são executadas nos períodos e da forma correta. Esta é uma das denúncias que os artistas têm entalada na garganta. Há ainda outras iniciativas como semana do hip-hop e o prêmio Guarulhos de artes, que também acabam não sendo executadas por não ter dotação no orçamento, ou pior ainda: são realizadas mas sem nenhum tipo de pagamento aos participantes.

Em junho deste ano, artistas do Fórum de Artes Cênicas enviaram uma carta pública destinada ao prefeito, ao Conselho Municipal de Política Cultural,ao Secretário em trânsito da SECEL João Carlos Pannochia e também ao Subsecretário Adalmir Silva Abreu. Em um dos trechos, detalham:

“Segue abaixo as leis que estão aprovadas e devem ser lançados editais/ferramentas para a sua execução, e que até o momento não houve qualquer manifestação a respeito:

- Lei 5947/2003, fundo vinculado à secretaria de CULTURA para promoção e estímulo das atividades culturais na cidade;

- Lei 6628/2009, institui o programa de fomento aos grupos da cidade de Guarulhos.

- Lei 3467/89, aperfeiçoamento e bolsas de estudo aos artistas;

- Lei 6203/2006, promove a formação artística gratuita à população guarulhense;

- Lei 6131/2006, premiação nas linguagens artísticas concedidas devido à atuação dos grupos/artistas no ano vigente.

Além desses itens, o governo possui um débito financeiro com artistas da cidade em, pelo menos, três projetos:

- Editais contemplados nas edições anteriores da lei 6628/2009 e lei

5947/2003;

- Premiação conforme a lei 6131/2006.

E finalizam exigindo:

“Nesse sentido, nós artistas e produtores culturais reunidos no fórum, conclamamos a esta gestão que exponha a sua proposta de política publica à cidade e os motivos que pelos quais negligenciam as demandas, leis e ações culturais pertinentes ao município.

Ao Conselho, como órgão legítimo de participação nas políticas públicas, espaço normativo, deliberativo, fiscalizador das ações e atividades do poder público no campo da cultura, exigimos que exerçam a sua função e cobrem dos responsáveis as respostas aos questionamentos elencados”.

BIENAL DO LIVRO 2018

De 30 de novembro a 09 de dezembro de 2018, aconteceu na cidade de Guarulhos, a chamada "Bienal do Livro". No entanto, ela não foi devidamente planejada de acordo com critérios legais e transparentes e incluindo o aspecto cultural.

Sabe-se que uma feira de livros, além de ser grande vitrine para a literatura e produção editorial, (que tem todo o seu valor), deveria também ser um evento que ofereça oportunidade aos munícipes de realizar um mergulho à cultura, através da composição de uma programação cultural que respeite e entenda a abrangência e diversidade da linguagem, que inclui todos os trabalhadores culturais da palavra, muito além dos escritores que lançam livros.

Fora a exclusão de artistas locais, uma vez que não houve edital de chamamento público legal para os mesmos, podemos citar alguns pontos de irregularidade e falta de respeito:

- Não há leis de incentivo, fomento e ações que dê suporte à linguagem de literatura na cidade. Nem de cultura de uma forma geral.

- Não houve chamamento público com ampla divulgação para que os artistas locais pudessem compor a programação; neste ponto só aconteceu uma ação de última hora da curadoria da Bienal, que na página do evento lançou às 21:27 minutos do dia 09/11 com encerramento no dia 16 (meio do feriadão), sem nenhum critério ou informação específica, um cadastro para autores independentes da cidade que quisessem participar da Bienal.

- Diante da falta de transparência, convidaram apenas alguns artistas, via “política de balcão”, ainda propondo que os mesmos se apresentassem sem recebimento de cachê;

- Os autores que expuseram seus livros,não tiveram devido suporte na organização, realizando tudo por conta e sem recebimento de cachê;

- Não entendem a abrangência e diversidade da linguagem, então a exemplo disso não reconhecem os movimentos de batalha de poesia, que foram considerados “subversivos”, sem que tivesse nenhuma aproximação ou suporte para entendimento da potência do que é esse movimento, como expressão da palavra, do jovem da rua.

Os coletivos e artistas locais são frequentemente convidados para participarem de eventos fora da cidade, na Bienal do Livro de São Paulo, por exemplo, mas não são reconhecidos na própria cidade.

A Bienal do Livro, neste ano teve como tema “Páginas que Conectam”. A pergunta que fica é conecta quem com quem?

Os moradores da cidade não estão conectados com a bienal, já que não existem ações ao longo do ano que justifique um evento deste porte. Como conectar pessoas sem dar os meios para que isso aconteça? Como incentivar a compra de livros sem despertar o interesse pela leitura? Como incentivar novos escritores, poetas, contadores, etc. sem a criação de espaços que possibilitem este encontro?

Não há como conectar pessoas se não houver incentivos ao longo dos anos. Mas para isso é preciso que a gestão esteja conectada com os artistas locais de verdade e não só um discurso vazio que prega conexões que a própria gestão desconhece.

Sem política pública real, que gere conexões, não tem como conectar artistas e público. O que teremos será uma grande livraria desmontável, com encontros efêmeros sem trazer valores simbólicos e subjetivos a sua cidade ao custo de 4,5 milhões.

ORÇAMENTO APROVADO PARA 2019

Uma das pautas mais discutidas não somente em Guarulhos, a questão orçamentária é sempre ponto de discussão e luta, já que há muito a cultura é relegada a posições secundárias em todo o país, e mesmo durante o governo petista, o que se viu foi uma abertura para as leis de incentivo fiscal, que se por lado abrem caminho e permitem condições materiais para que mais espetáculos e projetos circulem, condicionam as produções aos ditames do consumo e rotulam o que “serve ou não serve” de acordo com o que dita a indústria cultural.

Em Guarulhos, para 2019 o Orçamento apresentado de 23,3 milhões destina mais de 84% a pagamento de funcionário, restando pouco menos de 16% para contemplar as diversidades artísticas da cidade para 2019.

Total disparate, tendo em vista o que já apontamos acima: sucateamento, editais não pagos, programas que não existem, cortes e total descaso. Enquanto tudo o que se relaciona à cultura for considerado “gasto”, estaremos presos a uma discussão arcaica sobre o quanto é imprescindível que as manifestações artísticas, em suas mais diversas linguagens, façam parte da vida cotidiana da população, sendo a cultura um direito e não mera mercadoria.

POPULAÇÃO, ARTISTAS E TRABALHADORES ECOAM O GRITO: CULTURA NÃO É LIXO!

E para o ano vindouro, enquanto os “gestores” mantêm a todo custo suas mentiras e sua demagogia descarada, nós, artistas, trabalhadores, estudantes, educadores e coletivos de arte, ombro a ombro com a população, exigimos que a questão orçamentária seja discutida à partir de assembléias com a participação popular. Não mais sucateamento dos espaços públicos. Não aceitaremos mais migalhas e exigimos recuperação e revitalização imediata de cada espaço de cultura. Que se cumpram os editais! Oficinas de teatro, dança, artes visuais, literatura e música gratuitas para crianças, jovens e adultos, elaboradas, ministradas e geridas pelos coletivos de arte e pela população.

Cultura não é lixo!




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