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CORONAVÍRUS

COVID-19 no Amazonas: número de mortos, rede de saúde em colapso e o capitalismo brasileiro

O descaso com a rede de saúde e a população do Amazonas é um problema histórico e agora se acumula com o coronavírus. Uma situação alarmante que ilustra a lógica do capitalismo no Brasil

sexta-feira 24 de abril| Edição do dia

A cidade de Manaus é o quarto maior foco de coronavírus no Brasil e a primeira rede de saúde do país a entrar em colapso, seguido por Fortaleza. Nas últimas 24 horas, foram registradas 18 mortes e 209 casos confirmados em todo o estado do Amazonas. O conjunto de vítimas já passa de mais de 210 mortes e 2.500 casos desde o início da pandemia. Os números são alarmantes, mas, inevitavelmente, estão defasados pela subnotificação devido a faltas de testes. Em todo o país, o principal problema é a incerteza sobre quem está doente ou não. Os governadores, de um modo geral, e prefeitos como Artur Neto (PSDB-AM), dizem que “estamos lutando contra um inimigo invisível”. Falso. Em primeiro lugar, eles não estão lutando contra, não estão encarando o problema de frente; assim como o presidente Bolsonaro, estão se dedicando força e recursos para salvar um pequeno número de pessoas ricas e suas fortunas, mas não garantem a ampliação e unificação do sistema de saúde, contratação de funcionários e abertura de leitos. Em segundo lugar, estão deixando que o “inimigo invisível” continue invisível; o único modo de tornar a doença visível é a fabricação e distribuição em escala industrial de testes. Essa solução é a verdadeira prioridade do momento. Se não é interesse do Estado e nem dos donos da indústria, é interesse da população trabalhadora que sustenta essa corja de parasitas. A saída da crise de saúde, portanto, virá somente através do controle operário da produção, ou seja, dos trabalhadores podendo tomar a organização da produção neste momento para voltá-la as nossas necessidades, reconvertendo as imensas e numerosas fábricas da Zona Franca de Manaus, por exemplo, para produzirem respiradores em massa e testes ao invés de concentrar tudo em eletrodomésticos que visam lucrar vendendo para todo o país, enquanto a população amazonense morre a cada dia.

A COVID-19 no estado do Amazonas carrega um agravante: a pandemia se acumula com um sistema sanitário que já seguia em dura crise há quase um ano pela gestão do governador Wilson Pereira Lima (PSC). No dia 13 de março de 2020, o estado anuncia os primeiros casos do novo coronavírus – uma mulher recém-chegada de Londres e em seguida a morte de um empresário. Em 10 de abril, o principal hospital que atendia a população em Manaus esgotou sua capacidade e três dias depois toda a rede de saúde entrou em colapso. A cidade de Manaus é a sétima mais populosa do país e, mesmo estando atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará em número de casos, o Amazonas preocupa por ter o maior número de taxa de incidências, ou seja, a maior proporção: são mais de 400 por um milhão de habitantes e a maior taxa de mortalidade, com cerca de 30 mortes por um milhão de habitantes.

Outro agravante é que Manaus é a única cidade do estado que possui leitos, fator básico para o tratamento do coronavírus. Dos 62 municípios do Amazonas, 32 possuem casos confirmados para o novo coronavírus. Ao todo foram registrados 521 casos e 35 mortes. É escandaloso que um estado que apenas em 2019 produziu mais de R$ 100 bilhões em suas zonas industriais, utilizando recursos naturais e de mão de obra de todo o território, viva em tamanha miséria e escassez de serviços básicos de saúde. Com a taxação progressiva dessas grandes fortunas, produzidas por milhares de trabalhadores, mas apropriada por alguns poucos empresários, poderia se ampliar a rede de saúde, contratar os funcionários necessários e abrir leitos em todos municípios, assim como distribuir testes massivamente para impedir que os índices de mortes sigam aumentando. Essa é uma saída efetiva, e que apenas os trabalhadores organizados podem apresentar, para que os recursos do país e do Amazonas sejam voltados para salvar nossas vidas.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, diante de tremenda crise procura responder com medidas que divergem do presidente Bolsonaro, mas que também pouco tem efeito de forma prática para a população. Os meios de informação tradicionais estão atribuindo a gravidade da situação amazonense ao mero desrespeito propriamente dito do regime de quarentena. Essa especulação também é falsa. Como é possível simplesmente responsabilizar a população por uma crise de saúde que não foi criada por eles? Essa massa sobrevive graças a venda de sua mercadoria força de trabalho e a ela não é dada o direito de ficar em casa devido a sua natureza de classe. A tentativa de determinar uma quarentena e esperar que seja obedecida como se a manutenção vital das pessoas pudesse seguir de forma normal é ilusória e demagógica. Se a quarentena não está sendo cumprida é por que não há condições para que se concretize, porque a maioria dos trabalhadores precisa se manter trabalhando para alimentar suas famílias.

Para garantir que soluções eficientes e científicas passem a responder a demanda do coronavírus, é de extrema urgência a testagem massiva em todo o estado para selecionar quem prioritariamente deve manter resguardo e quem pode circular para garantir as necessidades básicas de abastecimento da população e atendimento de saúde.

O vírus é um fator da natureza, mas sua disseminação caótica é, em todos os sentidos, inteira responsabilidade do Estado e da gestão capitalista que ali se instalou de forma parasitária desde a sua tenra invasão e diariamente é devastada para satisfazer uma hierarquia de lucros chefiada por empresas estrangeiras e fundamentada na exploração de trabalho escravo, violência, saque de terras e recursos naturais. Um padrão de darwinismo social que, aliás, sintetiza a história do Brasil e sua posição no capitalismo global, assim como o caráter da burguesia aqui dominante. O sistema de saúde é absolutamente sucateado não por falta de verba ou recursos, os quais nosso país tem em abundância em especial a região norte, mas por quê assim deve ser segundo as necessidades de lucro do Estado, dos governos, e dos donos de propriedade privada que concentram a produção local.

Para manter a lógica perversa dessa hierarquia, a gestão institucional da escala de vida da população em estamentos e classes, formada em sua maioria por trabalhadores dependentes, é definida também pelo controle da saúde física e mental. Apenas a organização dos trabalhadores em cada local de trabalho pode exigir medidas básicas e emergenciais de segurança e saúde como apontamos acima, para de fato defender as vidas acima dos lucros.




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