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CO da USP vota orçamento: trabalhadores defendem creche, bandejões, HU e permanência

No ultimo Conselho Universitário (CO) de 2019, a milésima reunião do Conselho, foi discutida as diretrizes orçamentárias para o ano de 2020. Concomitantemente à reunião, pais, mães e educadoras da creche panfletavam denunciando a Reitoria, cujas ações tendem a inviabilizar a continuidade da política de creches da USP.

quarta-feira 18 de dezembro de 2019| Edição do dia

Enquanto dentro de uma sala bem equipada, com ar-condicionado e poltronas confortáveis, se reuniam os Diretores de unidades da USP e professores titulares representando as Congregações de cada unidade, além de um punhado de poucos estudantes e funcionários representando suas categorias, do lado de fora, sob uma forte chuva, se encontravam pais, mães e educadoras da creche tentando sensibilizar os Conselheiros sobre a situação de desmonte em que se encontra a creche da USP.

Veja vídeo da panfletagem feita por pais e mães da creche, estudantes e trabalhadores da USP

Várias educadoras – que a Reitoria se nega a reconhecer como professoras de educação infantil – têm adoecido, se afastado ou pedido transferência devido a doenças físicas e psicológicas adquiridas pela falta de reposição do quadro de funcionários e aumento da exploração do trabalho. Esse quadro pode levar a que ano que vem a creche não receba novos bebes, o que implica um enorme ataque ao direito das crianças e à continuidade do projeto de creche da USP, que tem sua qualidade educacional reconhecida internacionalmente.

Ainda essa semana, os trabalhadores da USP, junto de estudantes dos Centros Acadêmicos da Letras (CAELL), da Pedagogia (CAPPF) e da Ciências Sociais (CEUPES) realizaram uma vigília em frente à administração da Superintendência de Assistência Social devido a realização de um pregão cujo objetivo é terceirizar o Restaurante da Física. Após explorar de maneira vil e agressiva a mão-de-obra dos trabalhadores dos restaurantes, levando a maioria à exaustão física e psicológica, a Reitoria decide descartá-los e contratar uma empresa terceirizada para atuar no lugar, para se livrar do ônus de seguir em seu quadro de pessoal com funcionários que adoeçam ou sofram restrições médicas devido às péssimas condições de trabalho a qual são submetidos nos bandejões da Universidade de São Paulo.

É no meio desse ataque às condições de trabalho e às unidades que garantem à assistência social necessária para a formação dos estudantes, que a Reitoria apresenta ao CO um incremento no valor do orçamento destinado à permanência estudantil (sic!). De maneira enormemente demagógica, a Reitoria pretende passar a ilusão de que há um aumento de verbas destinadas à política de permanência estudantil, enquanto trabalha para fechar os bandejões e as creches da USP.

Isso sem falar na política em relação ao Hospital Universitário (HU). Desde 2014 a Reitoria vem de um movimento de tentar desvincular o HU da USP. Após ser derrotada, passou a uma política de desmontar os serviços do Hospital desde dentro e fechar seu atendimento aos trabalhadores da USP. Seus dependentes e a comunidade do Butantã. Após muita luta e mobilização dos trabalhadores, estudantes e moradores do Butantã foi conquistada verbas extra-parlamentares para a contratação de funcionários para o Hospital: R$48 milhões em 2018 e R$40 milhões em 2019.

No que dependeu da Reitoria, foi feito de tudo para impedir a utilização dessa verba no Hospital. Derrotada, após intervenções dos movimentos sociais junto ao Ministério Público, agora a Reitoria pretende usurpar essa conquista como se fosse sua (sic!) e chamou um “evento” para “apresentar as conquistas do Hospital Universitário da USP no ano de 2019”.

Toda essa demagogia e esses ataques foram denunciados pelos representantes dos trabalhadores no Conselho Universitário, reproduzimos abaixo o vídeo da fala de Adriano Brant Favarin, funcionário da Faculdade de Odontologia da USP:

Veja a fala de Adriano Favarin, representante dos Trabalhadores no Conselho Universitário, e abaixo a transcrição da fala

“Boa tarde Conselheiras, Conselheiros, Prof. Vahan

No ultimo Conselho Universitário foi distribuída uma revista feita pela ADUSP e pelo CEDIN em defesa da creche oeste. Hoje, na entrada do Conselho Universitário, um grupo de pais e mães de alunos das creches da USP e de educadoras entregaram uma carta a todos os Conselheiros sobre a situação de desmonte que se encontra a política de creches da Universidade.

Não é possível que a reunião que vai tratar da proposta de distribuição orçamentária da USP para o ano de 2020 não se sensibilize com a situação das creches da USP e sequer responda aos questionamentos levantados por esses pais, mães e educadores.

A creche oeste, fechada na gestão do Prof. Zago, tem um processo jurídico exigindo sua reabertura, mas até agora nada foi feito pela atual Reitoria e nenhuma resposta é dada pelo Prof. Vahan sobre o futuro da Creche Oeste.

A gestão do Prof. Zago abriu dois PIDV’s e demitiu mais de 3 mil funcionários da USP. Esse Conselho Universitário aprovou em 2017 e segue aprovando a cada ano a manutenção dos Parâmetros de Sustentabilidade, que congelam a contratação de funcionários.

Vocês têm noção que é essa falta de funcionários que tem levado inúmeras trabalhadoras da creche a adquirirem restrições de saúde e que o acumulo da carga de trabalho nos últimos cinco anos tem levado a um adoecimento físico e psicológico, com muitas delas adquirindo depressão, síndrome do pânico, ansiedade e querendo ser transferidas da creche por não agüentarem mais a precarização das condições de trabalho? Vocês têm noção que a decisão de vocês de sustentar os Parâmetros de Sustentabilidade e manter o congelamento das contratações é o principal responsável pela situação das trabalhadoras da creche e pelo futuro da política de creches na USP?

Toda essa situação esta levando a inviabilização do funcionamento da creche, que comunicou que ano que vem não entrarão novos bebês. Isso significa acabar com a continuidade dos projetos da creche. O que é um ataque também ao direito das crianças. É inquestionável o papel também acadêmico que cumpre a creche da USP na produção de conhecimento pedagógico e nas pesquisas sobre educação infantil. Já beira o absurdo a Reitoria se negar a reconhecer as trabalhadoras da creche como elas realmente são: professoras de educação infantil! Mais absurdo ainda é a Reitoria deixar se perder toda a continuidade do projeto desenvolvido pelas creches para seguir uma política deliberada de desmonte!

E o problema não se resume a creche. No ultimo CO eu disse que o relatório da CPI das Universidades reivindicava a USP como exemplo de privatização e terceirização por ter terceirizado oito restaurantes nos últimos cinco anos. E qual foi a resposta do Prof. Vahan a esse elogio cínico das conclusões da reacionária CPI? Abrir um novo pregão para terceirizar mais um restaurante!! O Restaurante da Física!!

E o Prof. Vahan vem falar que o sindicato faz autofagia? Faça-nos o favor! É a própria Reitoria quem esta desmontando a Universidade de São Paulo, vendendo seus serviços, adoecendo seus funcionários e precarizando a produção do conhecimento.

Hoje vai ser discutida a distribuição orçamentária da USP, e mais uma vez a Reitoria vai dizer que tem incrementado a política de apoio à permanência e formação estudantil. Pergunto então ao Prof. Vahan, como é possível garantir a permanência estudantil sem reverter esse desmonte das creches? Como que as mulheres que se tornem mães na graduação serão capazes de seguir seus estudos? Como que as jovens mães (hoje 20% das crianças nascidas por ano são de mães com menos de 19 anos), terão condições de sonhar com uma Universidade, sem a garantia de uma creche?

Como é possível defender a permanência estudantil terceirizando os restaurantes? Ou obrigando que os estudantes que precisam de bolsa de permanência sejam explorados, substituindo os funcionários efetivos? Seria importante que o Prof. Vahan respondesse ao pleito das mães e pais que estão lá fora panfletando, das trabalhadoras das creches que estão adoecendo e dos trabalhadores do restaurante da física que estão vendo seu local de trabalho ser terceirizado.

Por fim, a Reitoria fez um convite ao Conselho Deliberativo do HU e aos dirigentes de unidades para um “evento” cuja finalidade é “apresentar as conquistas do Hospital Universitário da USP no ano de 2019”. É no mínimo curioso esse giro de postura da Reitoria, que até alguns meses atrás vinha sendo o principal obstáculo contra todas as tentativas do sindicato e dos movimentos sociais da região, em iniciativas com a ALESP e o MP na conquista de verba extra-parlamentar e de sua aplicação no HU para reverter seu desmonte e viabilizar seu pleno funcionamento.

Supondo que isso não seja mera demagogia, mas que seja de fato uma mudança de postura da Reitoria em relação ao Hospital, esperamos que a Reitoria apresente como adendo à proposta orçamentária a ser aprovada hoje um suplemento de pelo menos R$20 milhões para o HU, para garantir a permanência da contratação desses funcionários temporários; que interceda junto a PG para a revisão da duzentena; que viabilize a reposição dos demais profissionais necessários para o pleno funcionamento do HU nas áreas de nutrição, do SAME e da manutenção; e que reabra os pronto-socorro adulto e infantil e as consultas para a comunidade USP e seus dependentes e para a comunidade do Butantã.

Da nossa parte, vamos seguir defendendo os direitos dos trabalhadores da Universidade, resistindo a toda essa situação dentro da USP, porque essa é a única forma de podermos enfrentar os ataques do governo Dória e Bolsonaro. "




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