BRUMADINHO

Brumadinho: por que os celulares das vítimas não foram rastreados?

Gilson Dantas

Brasília

domingo 27 de janeiro| Edição do dia

A imagem hoje – tirada na lama da represa de Brumadinho - de um pequeno grupo de bombeiros metidos na lama química espessa, rastejando na lama à procura de corpos, era uma imagem indescritível.

De todo ângulo que se pensar sobre esta cena dos bombeiros, nesse cenário de centenas de desaparecidos e de semelhante catástrofe humana e ambiental, não há como não sentir profunda tristeza pela família trabalhadora daquela região e uma mais profunda ainda, indignação.

Mil pensamentos vêm à cabeça de quem sofre com essa tragédia [como tudo isso poderia ter sido evitado, é o primeiríssimo deles], mas existe uma questão sobre a qual não se viu resposta até agora.

Senão vejamos: a enxurrada de lama densa e tóxica foi torrencial, rápida e fulminante. Soterrou muita gente. Só que nos dias atuais, quase todo mundo anda com seu celular, seu iPhone. Por que então não foi decretado e executado IMEDIATAMENTE o rastreamento de todo dispositivo móvel naquela área, em um raio de 30 km, por exemplo? Antes que a bateria dos celulares fosse descarregada e antes que escurecesse [a catástrofe ocorreu mais de seis horas antes da noite baixar].

Existe tecnologia para rastrear pessoas desaparecidas.

Mas então por que não foram desbloqueadas todas as linhas na região, instalado um sistema eficiente [e imediato]de rastreamento de sinais de dispositivos móveis, de localização de celulares, o também o recrutamento intensivo e imediato de equipes para manejarem o Google Earth ou qualquer dispositivo de satélite para localizar pessoas a todo custo? E o georastreamento? E GPS? Por que tudo isso e muito mais não foi acionado de forma fulminante?

Em uma palavra: o governo fez o melhor que poderia fazer com a tecnologia disponível para rastreamento de pessoas?

E os drones? E uma nuvem de drones rastreando imagens por toda a zona da lama, por toda a região da mata, será que não teria feito diferença? Drones existem: quando o povo legitimamente protesta nas ruas eles nos sobrevoam lançando bombas de gás e tirando fotos. Onde estão esses drones tão usados na repressão? E todos os cães rastreadores de todas as forças de repressão do país? Onde estavam drones, cachorros e soldados naquela tarde sinistra de sexta-feira?

Algum funcionário do governo pode argumentar que nada disso era possível, que a tecnologia não dava para tanto. Mas é de se duvidar que essa tese resista a um debate sério.

E mesmo que resistisse, resta mais uma pergunta para aqueles que acreditam que o governo fez o melhor que podia: por que, na mesma tarde da catástrofe, bem antes que anoitecesse, desde logo que se soube que a avalanche tóxica empurrou pessoas para a mata e para o lodo, por que não apareceu uma brigada de infantaria, um único regimento, dezenas e dezenas de batalhões [da selva] vasculhando aquela região de ponta a ponta?

O tempo era o elemento decisivo e letal para se salvar as vidas que ainda poderiam ser salvas. Mas – do ponto de vista da tecnologia disponível, do ponto de vista das tropas do Exército – o tempo não foi usado, de fato, a favor das vítimas.

Aquele raio de 30 km em torno do epicentro do desastre teria que ter sido rastreado e vasculhado com toda a tecnologia digital e de satélite possível, imediatamente, com todos os soldados possíveis, com todos os generais que possuem experiência de selva e de sinistro.

Parece que não foi isso o que aconteceu. A mídia tem mostrado lerdeza, lentidão, entrevistas com muita desconversa e iniciativas mais midiáticas do que efetivas.

O que aponta, de conjunto e no final de contas, para um crime serial. Primeiro, a catástrofe anunciada, prevista e deixada acontecer. Como Mariana antes [e no caso de Mariana, com o antecedente lamentável e trágico de que, até hoje, nenhum responsável foi preso, nenhum bem confiscado e milhares de desabrigados seguem sem moradia digna ou indenização à altura].

Brumadinho, portanto, poderia ter sido evitado. Mas não quiseram. A megaempresa capitalista não trabalha com prevenção e nem contingenciamento. Só trabalha com margem de lucro. Tanto que sequer a malfadada sirene de alarme tocou.

Mas veio o novo desastre e, em seguida do brutal momento da enxurrada, mais mortes à míngua, ou seja, mais vítimas entre as que sobreviveram ao primeiro impacto da lama tóxica, certamente continuaram morrendo à míngua.

Fica difícil acreditar que as forças políticas que mandam na nação brasileira hoje - para além do show midiático que todo prefeito, governador e o presidente têm dado – fica difícil acreditar que o povo pobre tenha alguma coisa a esperar desse grupo. Na verdade, enquanto o poder político estiver nas mãos das mineradoras, do agronegócio e dos ricos, nada a esperar a não ser brumadinhos, marianas e coisas piores.

Leia também:
http://www.esquerdadiario.com.br/Saldo-da-privatizacao-da-Vale-mortes-destruicao-e-R-320-bilhoes-para-os-banqueiros
http://www.esquerdadiario.com.br/De-Mariana-a-Brumadinho-quantas-vidas-rios-e-cidades-a-Vale-ainda-vai-destruir
http://www.esquerdadiario.com.br/A-Vale-e-os-governos-tem-as-maos-sujas-de-sangue-operario-mais-uma-vez
http://www.esquerdadiario.com.br/37-mortes-e-risco-de-novo-rompimento-deixa-Brumadinho-em-estado-de-alerta-27387




Tópicos relacionados

Brumadinho    /    Minas Gerais   /    Tragédia Mariana

Comentários

Comentar