Breve história do pixo

Com as recentes políticas higienistas de João Dória, prefeito de São Paulo, de apagar as pixações e grafites da avenida 23 de maio, se levanta o debate sobre a história do pixo e sua relação com a sociedade de classes que vivemos.

quarta-feira 25 de janeiro de 2017| Edição do dia

Arte do Caligrapixo

Não é novidade para ninguém que muros pintados, pixações e grafites existem a muito tempo na vida do homem como na pré-história, na antiguidade com a interessante história de Pompéia em que foi achado pixações que falavam sobre homossexualidade, cabelo nas partes íntimas entre vários outros hábitos sexuais, mas não só, daquela época, mas até hoje com os artistas de rua sendo perseguidos com a tinta cinza de Dória.


Foto: Pixo na cidade antiga de Pompéia

O que muitas vezes pode não parecer óbvio à primeira vista é de como os pixos e grafites podem ser e são expressões da sociedade em que vivemos, mas também da forma como encaramos o mundo ao nosso redor. Em maio de 68, com grande efervescência política da juventude e dos trabalhadores que lutavam tanto contra o capitalismo, mas também contra a burocracia da URSS, em vários muros eram vistos declarações políticas sobre a situação da época. Em uma entrevista para o G1, o professor da USP, Waldenir Caldas comenta: “Eles lutavam por esses ideais, e as pichações, além de políticas – porque eles queriam transformar a sociedade a partir de uma associação com a classe proletária – mostravam um desejo de se libertar das amarras da sociedade”.

Em maio de 68 a vontade de tomar a cidade a partir dos muros, refletia o sentimento de uma juventude descontente que queria tomar o poder junto aos trabalhadores. Refletia o descontentamento com o velho, e a luta pelo novo, na construção de uma outra sociedade.


Foto: Pixação de maio de 1968 criticando o conservadorismo

Nos dias atuais a maior parte da população mundial vive em cidades, em meio aos caos das grandes metrópoles, os grafiteiros e pichadores encontram nas ruas o espaço para sua arte, Nas ruas, não necessariamente porque não existem galerias que os acolham, e de fato não existem muitas, mas também porque o grafite e o pixo são e sempre foram uma arte de contestação, que não cabiam nas métricas da arte “erudita”.

O grafite chega no Brasil por volta da década de 70, depois de chegar nos EUA, e influenciados por maio de 68, já chegam contestando o regime militar da época. Ou seja, o grafite já chega no Brasil enquanto um movimento criminalizado e marginalizado. Mas também ligado aos de baixo, que com seu desenho dizia: “eu existo, eu faço, eu interfiro”.


Foto: pixação na ditadura

Apesar de não ser nova a repressão à arte urbana, os muros são os gritos dos artistas de rua que não se contentam com o que está dado, muito menos com o que nos é tirado. Dória que já apagou a maior arte ao ar livre do mundo com 15 km, continua com sua empreitada de criminalizar os pixadores e grafiteiros. Mas assim como esses artistas que correm para não ser pegos pela polícia, dizia um muro de Paris em maio de 1968: “Corra, camarada, o velho mundo está atrás de você!

Dória: populismo elitista de direita

A política de Dória em apagar os grafites de São Paulo pode parecer inocente ou secundária a primeira vista, mas serve ao prefeito para sinalizar a classe média paulistana, assim como à sua burguesia, que não será apenas “economicamente” que ele lhes servirá, mas também “simbolicamente”.

Essas medidas “simbólicas” são fundamentais na política populista, como vemos no populismo de direita de Trump nos estados unidos. Lá, efervescer a classe média branca e xenofóbica com discurso anti-imigrantes foi bastante poderoso. Aqui, essa mesma classe média branca conservadora vai ao delírio com políticas elitistas de perseguição e criminalização da pobreza, como na retirada de direitos sociais, afastando e escondendo ainda mais a periferia ao elevar a tarifa do transporte. Ou então na perseguição à arte e na higienização da cidade, apagando os grafites, retirando moradores de rua do centro, combatendo e apagando qualquer expressão de resistência cultural da periferia, como ao apagar as pichações e colocar fim aos shows públicos pela cidade.

Essa política agrada ao elitistas verde-amarelo da avenida paulista, e os faz brandar aos quatro ventos que isso sim seria varrer a política do PT vinda da gestão anterior, afinal Haddad promovia os shows, o grafite e etc. Porém, sabemos que quando os petistas despertam em defender Haddad neste sentido, ocultam que o ex-prefeito foi quem buscou impedir a “favelização” do centro através da Guarda Cívil, também reprimindo e retirando abrigo de moradores de rua durante o inverno. Neste sentido, o simbólico tem mostrado grande importância na política atual, desde os muros de Trump ao cinza de Dória, resultando em ataques da direita à cultura popular dos oprimidos e explorados e à sua liberdade de expressão e contestação.




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