Opinião

BRASÍLIA O MITO FUNDACIONAL

Brasília, a capital dos muros invisíveis: qual a intenção dos seus fundadores?

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 3 de novembro| Edição do dia

Desde sua inauguração, em abril de 1960, a narrativa oficial sobre a criação/construção de Brasília é uma lenda quase intocada.

Inovadora, linear, vanguardista, praticamente sem contradições, eis o mito de uma capital incensada como obra de visionários, vista como uma “utopia democrática” [seja lá o que isso signifique], ícone da modernidade brasileira.

Essa propaganda, como se fosse um tipo de lenda urbana moderna, é reproduzida em cada geração, especialmente através dos eventos comemorativos oficiais e da mídia do DF e afins.

O documentário de Vladimir de Carvalho, “Conterrâneos velhos de guerra”, está entre os primeiros a destoar dessa apologia de “dias de festa”, e se soma a abordagens “fora da lenda” como as de Chico de Oliveira, crônicas de Clarice Lispector e outros observadores dotados de sensibilidade social.

No vídeo abaixo, pontuado a partir de uma palestra para alunos do serviço social, UnB, é trazida ao debate - na forma de elementos para discussão - uma visão alternativa à da lenda.

Longe de se constituir em uma demonstração da capacidade “ilustrada” da burguesia nacional, Brasília - sendo também exemplo da força do proletariado brasileiro, da sua capacidade de levantar uma metrópole do nada, no meio do cerrado a mil quilômetros de São Paulo - é, sobretudo, um dos exemplos daquilo que a classe dominante tem para oferecer quando lhe é dado conceber e concretizar um traçado urbano e social. Não consegue ir muito além da reprodução da desigualdade, da concentração de renda e do apartheid.

Mesmo desenhando do zero, na prancheta, a elite “vanguardista” que concebeu a capital do seu país, a desenhou no formato de apartheid “organizado”.

Ali a segregação foi construída, desenhada, a desigualdade foi alçada a um patamar superior, e a artificialidade e o burocratismo urbanístico se impuseram. O plano de fundação é totalitário, e o plano piloto [o espaço central e monumental, onde se encontram as autoridades] desfruta da força de trabalho explorada, precarizada, que a classe dominante expulsou para as periferias, na condição de classe tornada invisível, desterrada dentro da própria cidade, mas sem a qual o plano piloto não sobrevive um dia.

Entendemos que o debate sobre a construção [e a concepção] de Brasília deva ser levado adiante com um olhar crítico, na perspectiva da classe trabalhadora, para que se possa lidar com o Brasil real, desmitificado, de forma que uma vez implodida a lenda oficial “de dias de festa”, se possa lidar com a realidade, e finalmente devolvê-la para as mãos dos que a levantaram e que poderão reconstruí-la um dia, se acharem necessário, à sua imagem e semelhança.

***
As observações do vídeo abaixo procuram esboçar algumas das contradições fundacionais de Brasília. Trata-se de uma palestra que levanta hipóteses e elementos iniciais para o debate sobre a capital federal.

Em seguida da palestra, temos outro vídeo que é, na verdade, uma montagem de trechos do mencionado documentário de Vladimir de Carvalho. Isto é, uma versão reduzida de trechos daquele documentário, elaborada para efeitos de ampliar e aprofundar parte da argumentação da nossa palestra.

Propomos que se leve em conta que aqueles trechos do documentário que aqui estarão reunidos somente servem como uma amostra do documentário; e que este deve ser visto integralmente [aqui apenas recortamos 1h 32 minutos de um total de mais de duas horas e meia do documentário integral]. Enfaticamente reiteramos que o Conterrâneos velhos de guerra seja visto na íntegra.

Temos, então, abaixo, o vídeo da palestra, com duração de 49 minutos.
E que é seguido da montagem reduzida do “Conterrâneos velhos de guerra”, neste caso com duração de 1 hora e meia.

A seguir, portanto, a soma da nossa palestra [de 49 minutos], mais o vídeo do Vladimir de Carvalho [reduzido a uma hora e meia].
Crédito de foto [modificadas as cores]: www.curtamais.com.br




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