MEDICINA DO CAPITAL / PARTO NATURAL /

Brasil país das cesáreas, país do parto medicalizado, país do machismo [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

Marília Rocha

São Paulo

segunda-feira 13 de agosto| Edição do dia

Marília Rocha
Gilson Dantas

Em conclusão da nota anterior, continuemos examinando o problema da epidemia de cesáreas no nosso país.

No Brasil, um médico que integra um plano de saúde cobra o parto normal por fora e bem mais caro.

O usual é que a mulher que consegue ter um plano de saúde, chegado o momento de dar à luz, pleiteia o parto normal com o mesmo médico que a acompanhou no pré-natal e daí vem o plano e cobra a chamada “taxa de disponibilidade” [de 4 a 8 mil reais]. Encontra alguma maneira de cobrar "por fora" e bem mais caro. Equipes humanizadas que atendem em hospitais de convênios cobram 15 mil por um parto não-cirúrgico.

Uma clara demonstração de que optar pelo parto normal é desestimulado de todas as formas. O grande negócio da cesárea/mercadoria tem que continuar.

E mantido esse sistema atual, vai continuar.

O ponto de equilíbrio somente poderá ser alcançado quando a mulher/mãe puder fazer sua escolha informada, escolha consciente.

Por um lado precisa saber dos riscos potenciais e reais de um parto feito com anestesia e bisturi em centro cirúrgico. Mas por outro lado, que ela possa escolher - novamente escolha esclarecida - um parto normal, em casa, se preferir, mas que seja levado adiante com conhecimento de causa.

Apenas para ilustrar: o parto de cócoras, por exemplo, exige um preparo prévio com equipe que tenha experiência; inclusive para não permitir que a mulher fique longas horas de sofrimento desnecessário, equipe que conheça o timing para romper a bolsa amniótica e para se antecipar a uma emergência eventual e imprevista, neste caso tratando de salvar o bebê e a mãe com a necessária intervenção, aí sim, cirúrgica.

Ainda no terreno da escolha esclarecida existe um problema pouco mencionado quando se discute a “epidemia de cesáreas”. Da forma como o parto normal está organizado – medicalizado e brutalizado pelo machismo etc – muitas mães, cansadas pelo longo esforço do trabalho de parto no hospital, solicitam, elas mesmas, abreviar o sofrimento via parto cirúrgico. Outras mães, informadas e impactadas pelos relatos de partos normais difíceis, longos e dolorosos de suas amigas, de antemão já optam pelo parto cesárea.

Em todos esses casos temos um problema do sistema obstétrico, da forma como a moderna obstetrícia capitalista organiza o processo do parto normal nos hospitais. Não preparam a mulher devidamente para o parto e, sobretudo, tornam o processo do parto hospitalar normal, um processo anormal, artificialmente longo e sofrido, quando poderia ser perfeitamente fisiológico, pouco sofrido e humano na maioria esmagadora dos casos.

De toda forma, para que a escolha seja consciente, inclusive na direção do parto natural, é imperioso que o movimento das mulheres levante a bandeira pela revolução no sistema de saúde para que este seja público, gratuito, universal e alterando o modelo biomédico do parto em favor da sua humanização plena, igualmente pública e gratuita para toda mulher que assim o deseje.

As mulheres argentinas, lutaram nas ruas, pressionando o Senado reacionário e lutam em campo aberto, mobilizadas, pelo elementar direito ao seu próprio corpo [contra a Igreja e seu Estado], no caso pelo aborto público e gratuito. No Brasil, Pão e Rosas teve um papel exemplarna luta que vários movimentos de mulheres levaram também nas ruas naquele mesmo dia em que o Senado argentino enterrou o projeto pró-aborto.

No Brasil devemos seguir lutando nessa linha - mobilizadas/os nas ruas - e não apenas pelo direito da própria mulher de decidir se quer ou não continuar com uma gravidez, mas também pelo direito – caso a mulher deseje sua gravidez – pelo parto fisiológico, com unidades de saúde estatais, controladas pelos trabalhadores, e que sejam capazes de fazer com que o ato do nascimento de um novo ser seja, em sua plenitude, doce e humano como tem que ser.

Mas estejamos conscientes: o inimigo irreconciliável, aqui como em outros países capitalistas é a grande burguesia, controladora dos hospitais, insumos hospitalares, fábricas e bancos.

No mundo capitalista real todo poder é atribuído ao parto cirúrgico, gerador de mais lucros [a patronal do parto cesariana ganha mais lucro e gasta menos tempo: em 40 minutos retira o bebê pelo abdômen da mãe, e com alto custo, altos ganhos em capital, para um parto que já é pré-agendado –vários no mesmo dia – parto que, se normal, poderia durar horas].

E a própria consulta com o ginecologista/obstetra em um plano de saúde, deixa muitíssimo a desejar, começando que não pode durar mais que 15 minutos. Esses médicos assalariados são subordinados a regras – novamente em função da lucratividade – que os obrigam a ter quatro pacientes por hora.

Em uma palavra: corrupção da medicina pelo capital. Não se trata da qualidade da consulta e nem da saúde do parto mas de quanto a consulta e o parto vão render para os donos do capital.

E nossos índices de parto cirúrgico só não são maiores [no Brasil são 8,5 cesáreas em cada 10 partos em maternidades particulares] por conta de que ainda existe parto normal no SUS.

Esse é um dado. Mas resta a pergunta: isso significa que o parto em um hospital público brasileiro hoje [mesmo nas raras casas de parto natural que existem] é um parto tranquilo, realmente seguro/humanizado?

A resposta é não. Ressalvadas as exceções, nas maternidades públicas reina a barbaridade obstétrica de todo tipo: cortes cirúrgicos na vagina [episiotomia], procedimentos [como o próprio epísio] sem anestesia, proibição dos companheiros por perto, procedimentos violentos/invasivos contra a mãe e o bebê recém-nascido, mesa de parto horizontal [contra a lei da gravidade], falta de equipamentos e pessoal, machismo ostensivo contra a mulher durante o trabalho de parto, o uso de substâncias [como a ocitocina] e procedimentos-padrão que aumentam as dores do parto e um longo etc sobejamente conhecido pela mulher trabalhadora que já entrou em uma maternidade pública para ter seu bebê.

E as próprias casas de parto, em que pese o esforço e dedicação de suas equipes, são invariavelmente deixadas à margem do sistema, do SUS, sem recursos adequados, nem sempre contando com um serviço de emergência [cirúrgica, inclusive] para qualquer intercorrência de um parto que iria ser normal mas que não seguiu o curso previsto.

A verdade é que o SUS não pode ser dirigido pelo mesmo Estado refém do lobby da grande medicina privada e da big pharma. Manter tais monopólios em mãos privadas bloqueia qualquer saída por uma medicina popular, gratuita e de qualidade.

Desse ponto de vista, fazemos nossas as propostas da fundadora do Pão e Rosas no Brasil, Diana Assunção:

Contra a privatização do SUS. Por um sistema de saúde 100% público e universal, controlado pelos trabalhadores da saúde e usuários. Pela imediata efetivação de todos os trabalhadores/as terceirizados.

Pelo fim da violência obstétrica e medicalização do parto! Que as mulheres possam decidir sobre seu corpo e como querem realizar seu parto. Pleno direito à maternidade.

Pela contratação de obstetras, enfermeiras obstétricas e doulas na rede do SUS. Todo apoio às chamadas casas de parto, públicas e especializadas no parto humanizado e seu controle pelos trabalhadores/as.

Garantia dos equipamentos e profissionais necessários para que a mulher possa, se assim o desejar, optar pelo parto domiciliar. Garantindo segurança frente a qualquer emergência.

Direito à maternidade, garantindo acompanhamento no SUS no pré-natal e puerpério.

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Na primeira parte desta nota, publicada no Esquerda Diário, foi divulgado um vídeo do site grego Mama365 mostrando como se desenvolve o parto cesárea. Era um vídeo restrito: por suas cenas fortes tinha restrição de idade. Pode ser visto na nota.




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