MEDICINA DO CAPITAL / PARTO NATURAL /

Brasil país das cesáreas, país do parto medicalizado, país do machismo [I]

Gilson Dantas

Brasília

Marília Rocha

São Paulo

terça-feira 7 de agosto| Edição do dia

[I]
Marília Rocha
Gilson Dantas
[artigo em duas partes]

Definitivamente, no capitalismo– e mais claramente em um país capitalista semicolonial como o Brasil, – a mulher é discriminada e maltratada nas duas pontas: quando quer ter um filho e quando não quer ter um filho.

Nos dois casos fica evidente que o Estado burguês [e sua fiel aliada orgânica, a Igreja], ambos patriarcais e machistas, não podem permitir que a mulher seja dona do seu próprio corpo, que ela seja protagonista na gestação e no parto, ou que decida o que quer e não quer fazer pelo seu prazer, pelo seu corpo.

Dados bem recentes reafirmam a escalada do parto cirúrgico, colocando o Brasil somente atrás somente da República Dominicana em número de partos cirúrgicos [cesáreas] em relação aos normais/naturais.

E a escalada de cesáreas continua no Brasil.

Também a escalada de feminicídio, de machismo, de “crimes pela honra” [do macho] e, ao mesmo tempo, a resistência material e ideológica do Estado contra o direito elementar ao aborto.

Nada disso poderá ser resolvido sem um poderoso movimento de mulheres, nada disso poderá ser enfrentado sem uma luta permanente contra o sistema que engendra toda essa situação, que vai desde a impunidade contra o feminicídio à violência obstétrica.

Por conta disso é preciso impulsionar e oferecer todo apoio à atual mobilização de mulheres pelo direito ao aborto público e gratuito para toda mulher que o deseje.
E é necessário que estejam em sintonia com a luta das mulheres argentinas.

Ao mesmo tempo está na pauta o direito ao parto natural e humanizado, igualmente público e gratuito.

Muitas mulheres foram convencidas pela indústria do parto cirúrgico, pela corporação médica, de que parto bom é parto feito em centro cirúrgico, no bisturi.

Em vários artigos o Esquerda Diário já procurou mostrar o contrário: somente excepcionalmente, quando se trata de salvar a mãe e a criança, o parto deve ser cirúrgico.

Tecnicamente o parto é um ato fisiológico para o qual toda a sociedade e o sistema de atenção médica deveria estar organizado. Só que, obviamente, em uma sociedade onde o ato médico [e cirúrgico] se converteu em uma mercadoria, as coisas acontecem de forma exatamente contrária.

E no Brasil, onde o SUS vem sendo golpeado, administrado e degradado por interesses comerciais, onde grandes monopólios financeiros dominam a rede de serviços e insumos médicos, esse fenômeno vem corrompendo a obstetrícia até o osso [assim como a oncologia e a medicina em geral].

No Brasil de hoje, onde a mulher é encorajada a trazer seu bebê ao mundo cirurgicamente – com toda a sequela de riscos associados – o parto normal praticamente se tornou um ilustre desconhecido. Pouquíssimos obstetras no Brasil abraçam a rotina de fazer um parto normal. Em pesquisa isso ficou patente: em estudo levado adiante em 2004 por um grupo de mulheres com centenas de obstetras paulistanos, ficou evidente que 77% deles jamais fez qualquer parto normal no ano de 2014.

Não se trata, em absoluto, de um problema “cultural”, de falta de informações. A desinformação e a informação parcial conduzidas interesseiramente pela indústria médica é um fenômeno real, é cotidiano e tem peso.

O problema de fundo, é que o parto se tornou um serviço médico de alto lucro na medicina do capital.

Sem darmos o combate estratégico pela encampação pública dos grandes hospitais e maternidades privados, continuaremos sendo o reino das cesáreas. E do desrespeito ao elementar direito da mulher ao parto fisiológico, natural.

É preciso que se tenha claro esse elemento, para termos em conta que bandeiras levantaremos.

Por exemplo, em países imperialistas, o parto cesariano, embora menos frequente que na nossa semi-colônia [país submetido ao imperialismo pela burguesia local, vassala], apresenta taxas altas, é muito usado, ao ponto de que a própria ONU [via OMS], isto é, via órgãos de assessoria dos países imperialistas, já tenha dado o alarme.

Há poucos meses atrás, a OMS [Organização Mundial de Saúde], alarmada com o que chamou de “epidemia de cesáreas” mundo afora, lançou um documento oficial onde, além de denunciar o fenômeno – com destaque para o Brasil – propõe mudanças no protocolo do parto, com novas regras para avaliação do período de dilatação, tentando evitar o pretexto médico para precipitação do parto cirúrgico.

Os dados da própria ONU revelam que a taxa de cesáreas nos países imperialistas [Europa, Estados Unidos] são muito altas, mesmo comparadas com as taxas aberrantes do Brasil. O que mostra que se trata de um problema que emerge da natureza do sistema capitalista [e não de um capitalismo mais ou menos “selvagem” como querem alguns]. Ou por outra: não há possibilidade de humanizar o capitalismo para que o parto venha a ser humanizado.

Confira os dados da ONU:

“De acordo com a OMS, 140 milhões de nascimentos ocorrem no mundo a cada ano. A maioria sem complicações. ´Ainda assim, nos últimos 20 anos, médicos aumentaram o uso de intervenções que eram destinadas antes apenas para evitar riscos e tratar complicações, com a infusão de oxytocin para acelerar o parto ou cesáreas´, indicou a OMS.

´A crescente medicalização de um processo normal de nascimento está minando a capacidade das mulheres de dar a luz e impactando de forma negativa sua experiência no nascimento´, afirmou Nothemba Simelela, diretora-geral assistente da OMS. Para ela, não há necessidade de receber intervenções adicionais para acelerar o parto se mãe e filho estiverem em boas condições.

A entidade alerta que, nos últimos anos, uma ´proporção substancial´ de grávidas saudáveis foi alvo de pelo menos uma intervenção durante um parto.

Com dados de 2016, a OMS aponta o Brasil como um dos líderes em cesáreas no mundo e alerta que o aumento nas práticas em partos se transformou em uma ´epidemia´. A entidade estima que a taxa média mundial de cesáreas seria de 18,6% dos partos. Em 1990, esse índice era de apenas 6%.

Em média, a taxa de cesáreas hoje na Europa é de 25%, contra 15% há 20 anos. Já nos EUA, a taxa é de 32,8%. No Brasil, os dados de 2016 mostram que 55,6% dos partos no País foram cesáreas, a segunda maior taxa do mundo, superada apenas pela da República Dominicana, com 56%”.

Em outras palavras: é da natureza do sistema capitalista mercantilizar tudo, chegando ao ponto de corromper um dos mais naturais dos atos da mulher, dar à luz.

No Brasil dos nossos dias, se uma determinada mulher decidir que quer ter seu bebê por parto natural terá que pagar, por exemplo, alguma coisa em torno de 10 mil reais. Ou se socorrer de uma casa de parto [no Brasil há algumas], que são unidades públicas para o parto humanizado mas que vivem superlotadas, são escassas e não contam com o adequado suporte para uma emergência obstétrica e nem com o pleno apoio federal.

Do lado médico, também é verdade que – para o médico obstetra assalariado – não há NENHUM incentivo para realizar o parto natural, naturalmente mais demorado/imprevisível. Quando indagados – já que eles não lutam abertamente pelo parto humanizado – alguns médicos assumem que o sistema está montado em função do parto cirúrgico e não do parto humanizado.

Estamos diante de um sistema, bem lubrificado pelo dinheiro, que converteu um ato fisiológico em procedimento cirúrgico.

Ora, não existiu uma evolução do corpo feminino em direção ao parto ter que se tornar cirúrgico. Isso seria um absurdo. Não houve qualquer mudança anatômica nesse sentido nas últimas dezenas de milhares de anos.

Claramente, o que existe é um sistema que lucra com a medicalização bem remunerada de tudo, de toda e qualquer doença, dos próprios transtornos da subjetividade [psiquiatria] até chegar ao próprio parto.

O que seria uma exceção, para salvar vidas, virou uma regra.

Típico da medicina do capital.

Na nossa perspectiva é preciso tomar essa luta – pelo parto natural, fisiológico, humanizado com total suporte pelo Estado – como mais uma das lutas em defesa do corpo da mulher, pelo seu protagonismo na vida. Conscientes de que isso não virá sem luta, sem mobilização e, em algum momento, sem uma estratégia para vencer esse sistema iníquo, que degrada a nossa vida em todos os sentidos.
[Continua na nota II, aqui no Esquerda Diário]
Crédito de imagens: www.mama365.gr
A seguir apresentaremos um VÍDEO COM A FILMAGEM DE UM PARTO CESÁREA.
TRATA-SE DE UM VÍDEO RESTRITO. Tem restrição de idade, por conter cenas muito fortes.
Disponibilizado pelo site grego Mama365 teremos, a seguir, a filmagem de um parto cesárea.




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