FORÇAS ARMADAS

Bolsonaro: um projeto de poder dos militares?

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 18 de outubro| Edição do dia

[Imagem do portal: jornalggn.com.br]

Esta é a ideia defendida por um influente jornal argentino, Ambito.com, em artigode pouco mais de uma semana atrás e intitulado “Bolsonaro, um líder construído em prol de um novo projeto de poder militar [Bolsonaro, un líder construido en pos de un nuevo proyecto de poder militar].

Entrevistando um general de alta patente da cúpula do exército brasileiro, com fartas declarações em off, o jornal reúne material para, na sua perspectiva, levantar a tese de que Bolsonaro é um projeto que veio sendo, desde 2014, estrategicamente construído para ser chefe da nação em eleições que viriam mais adiante.

Nesses marcos, os cardeais da cúpula militar estariam quase por consumar, no próximo dia 28, engenhosa peça estratégica para trazer de volta ao nosso país a tutela militar. Não sob forma de ditadura escancarada e nem aberta mas como aquilo que eles chamam de uma “nova democracia” [governo forte, controlado pelos militares].

Vejamos o que diz o jornal.

Começa por limpar a área, explicando que Bolsonaro não é pura ideologia, não é a vitória de um pacote ideológico tipo apologia da tortura, culto ao porte de armas, promessa de mão dura contra o crime organizado, militares compondo o governo e um general como colega de chapa.

Não foi um “pacote ideológico” que terminou dando certo, é o argumento da fonte. Ele foi fabricado pela cúpula militar.

Para Marcelo Falak, editor chefe [de Mundo Ámbito Financiero], fazendo reverberar aquela alta patente militar, Bolsonaro seria uma projeto da cúpula das Forças Armadas, no sentido de “construir um presidente próprio, encarregado de impor aquilo que [entre eles] denominam de uma ´nova democracia´. Esta consistirá em um programa político ultraconservador e um econômico ultraliberal, com os condimentos de uma participação ativa dos militares na vida política e a missão de arrancar pela raiz a ´esquerda que engana a sociedade”, argumentou.

A mesma fonte trata de recordar que a transição da ditadura para a democracia foi feita sob a condição de que as Forças Armadas foram mantidas como força permanente do Estado, constitucionalmente.

“A saída democratizadora do Brasil [disse aquela fonte da cúpula militar], foi negociada: um grande acordo nacional implicou que uma lei de anistia fosse a moeda de troca de uma convocação de eleições sem proscrições. Isto, acrescentou, ´preservou o status das Forças Armadas como uma força permanente de Estado. Na primeira etapa, o setor militar se recolheu ao seu papel profissional, mas agora estamos em uma nova etapa, na qual exigimos ser tratados como cidadãos plenos, não de segunda classe”.

E “como cidadãos plenos, queremos ser aceitos, e por isso falamos de uma ´democracia nova”, afirmou a fonte, não sem acrescentar que “os oficiais militares somos pessoas muito qualificadas, sabemos idiomas, temos pós-graduações. É preciso acabar com a ideia de que não podemos ser ministros”.

E que agora precisamos agir, diz a fonte, por conta de que “um grupo roubou a nação e trava relações com ditaduras como as de Evo Morales, Nicolas Maduro e Daniel Ortega, processo que culminou com um ex-presidente que é um presidiário, um criminoso, condenado em um julgamento normal e com uma ex-presidenta destituída legalmente, e não através de um golpe, como se diz”.

E acrescentou: e “apesar de que Bolsonaro e Mourão evocam a possibilidade de golpe, não existe essa possibilidade no Brasil”.

[Imagem: do site diariodocentrodomundo.com.br]
O que querem então? Assumir aquele seu papel de “força permanente de Estado”.
E com um perfil político-econômico bem determinado, onde deixam o nacionalismo e o estatismo para o PT, e querem, patrioticamente [seja lá o que isso signifique para eles], assumir protagonismo político. Apreciam Macri, querem ativar o Mercosul, e querem a nação “de volta”, em nome do liberalismo, da “nova democracia” e que o Brasil seja “um país o mais livre possível”, o que nos localiza radicalmente contra o PT, diz.

Aquela alta fonte prossegue, argumentando que a cúpula militar tem consciência de que a sociedade não aceita propostas como casamento homossexual, questões de gênero etc e que “não vamos permitir que passem essas propostas que enganam e se disfarçam de socialismo”. Mas tratou de assegurar que Bolsonaro não é o racista e homofóbico que pintam por aí e disse, “ninguém sabe, mas ele se arrependeu” do episódio com a deputada contra quem ele disse que não “estuprava porque não merecia”. E, prossegue o oficial, nós “também ajudamos a que Bolsonaro entenda isso, evite tais reações, para converter-se em um candidato viável”.

Falando sobre 1964, fez questão de reafirmar que hoje não se trata de nada parecido. E reforça seu argumento: “Em 64 não havia Facebook, o mundo era outro. Em nenhuma hipótese vai ocorrer um golpe. A imprensa ainda não entende isto, e na campanha foi muito parcial, com análises muito infantis. A primeira derrotada nas eleições é a rede Globo”. “Nosso discurso é de unidade”...

E comparou os generais brasileiros, que contam com um exército com “uma imagem positiva de 80% “ na sociedade, com os militares argentinos, pouco populares e “demasiado deprimidos”. Falando da sua preocupação com a Argentina e sua crise econômica, acrescentou que “necessitamos que as Forças Armadas da Argentina sejam fortalecidas e consideradas forças permanentes de Estado, como ocorre no Brasil, para poderem ser sócios em projetos bilaterais e internacionais”, não sem elogiar Macri, “um homem preparado, culto”. [Não minimizemos sua preocupação com o ascenso de uma esquerda de incidência no proletariado e com independência de classe na Argentina, a FIT]

Essa alta fonte teria revelado que no aniversário dos 50 anos do que denominou “a revolução de 1964”, em meio de um “um clima que se tornava pesado, prelúdio do que dois anos mais tarde derivaria na destituição de Dilma Rousseff, as Forças Armadas começaram a buscar quem defendesse seus interesses no congresso. A escolha, claro, recaiu no deputado Bolsonaro, um ex-capitão do corpo de paraquedistas que abandonou sua arma em determinado momento em meio a vários casos de indisciplina. Estes antecedentes jogavam contra seu nome, mas o ´modo como defendeu as Forças Armadas fez com que crescesse nossa confiança nele”, disse a fonte.

[Imagem: Marcos Corrêa PR-ABr]
Passamos a abordá-lo, continuou a alta patente militar, “a aproximá-lo do Comando do Exército, pensando nas próximas eleições; e um ano atrás, o Exército analisou que havia uma polarização e que Bolsonaro seria quem chegaria a enfrentar o PT”.
Por que? Por que para nós ficava claro, acrescentou, que a “elite nunca se preocupou com a nação, só pensa em si mesma e que os partidos de centro não iriam se unir para enfrentar a esquerda. Tivemos razão em apostar em Bolsonaro”, apontou. Acrescentou que encontraram diálogo em Bolsonaro para mudar “muitas de suas posturas”, por exemplo, passar a abraçar o liberalismo. E conclui que “isso que se viu na sua campanha, foi produto do diálogo que o Exército abriu com ele, sem sombra de dúvidas”. Inclusive na esfera pessoal, “casou com sua terceira mulher, teve uma filha, fez psicanálise dois anos”, contou ele.

O entrevistador acolhe todas essas opiniões da fonte privilegiada e parece entender que sim, que os generais estariam abraçando alguma vocação democrática e que foi sua logística que criou o “bem-sucedido” Bolsonaro presidente.

É uma opinião.

Mas indo além da reportagem de bastidores, talvez se possa fazer as seguintes considerações.

Em primeiro lugar, essa disposição dessa fonte do alto comando do Exército, de falar todas essas coisas, e tudo isso sendo verdade – e nas proximidades do segundo turno, onde Bolsonaro desponta como virtual ganhador - não deixa de ser uma peça de propaganda. No seguinte sentido [dublando]: “sim, Bolsonaro significará um esquema militar tutelando o país, mas isso não é ruim, não somos maus e isso não é e nem será um novo 1964, nem golpe; pretendemos respeitar a Constituição. E Bolsonaro é uma pessoa mudada, responsável e está respaldado por nós”.

Por outro lado, o que os fatos históricos mostram é que generais reacionários sempre fizeram política, política golpista, e jamais respeitaram a Constituição quando isso lhes convém. Portanto, com esse discurso não apenas tentam passar a imagem de que são “democratas”, como isso tudo tem mais a ver com peça de enganação. Se o movimento de massas se levanta contra os ataques reacionários que vêm sendo desfechados contra seus direitos mais elementares, se o proletariado passa a ser um polo dinâmico [superando a passivização imposta pela CUT], não restará pedra sobre pedra daquela propaganda.

Afinal, vale sempre lembrar, para essa cúpula das Forças Armadas, 1964 foi tudo menos golpe e o general Ulstra, torturador profissional, é um herói na caserna e no Clube Militar.

Em segundo lugar, sabemos que as determinações que levaram à escalada eleitoral de Bolsonaro não foram previstas por ninguém, por nenhum estrategista civil ou militar. Abriu-se uma janela para sua ação, para o ativismo de direita, militar e civil, sim, mas por conta de condições cuja dinâmica foi se desenvolvendo conforme o comportamento dos fatores de poder, conforme se abria a relação de forças em cada conjuntura e, em especial, pela passividade do PT e da CUT que contiveram a potência da classe trabalhadora expressa quando, nas ruas, no primeiro semestre de 2017, derrotaram a proposta da previdência.

A história seria totalmente outra se a força material da classe trabalhadora [da CUT por exemplo] tivesse sido posta em ação para barrar o golpe e para impor outra saída. Ou se o PT – que no imaginário da grande massa representa “a esquerda” – não tivesse afundado nesse regime podre, da governabilidade a todo custo. Inclusive, aliando-se à escória da direita parlamentar, levando à desmoralização do movimento operário ao contê-lo nas regras do regime, ao avalizar os ataques econômicos da Dilma [incluindo uma lei, baixada por ela, que criminaliza os movimentos sociais], ao congelar a CUT inclusive ante a prisão do Lula, e traindo tudo que pregava deixando de realizar a mínima reforma estrutural e de responder às demandas sociais do junho de 2013.

Aliado a isso, a manipulação e financiamento da manipulação por parte da direita – inclusive com o braço ativo do Departamento de Estado norte-americano – para criar uma imagem de PT “comunista”, totalitário, causador de todos os males do Brasil, ideia que se propagou ideologicamente, no imaginário do descontentamento popular.

Sem as traições e o aburguesamento do PT, sem a passividade dos sindicatos mais fortes e controlados pelo PT, a rápida e azeitada ação da extrema direita para criar sua força material na classe média descontente, no marco da crise econômica, sem a desmoralização de boa parte da base petista, nenhum general estaria se vangloriando da capacidade “estratégica” da cúpula militar entreguista e reacionária.

Encontraram uma janela de oportunidade. E, sim, a direita foi ativa todo o tempo, da cúpula militar [quem não lembra as declarações do general Villas Boas, para citar um exemplo?] ao judiciário.

Jogaram pesado com o “partido do judiciário” e a grande mídia para tornar essas eleições o mais puro simulacro, a mais manipulada das eleições.

Ou, colocando de outra forma: sem que os juízes, lado a lado com a imprensa reacionária, selecionassem em que o povo pode ou não pode votar, zero chance para Bolsonaro ganhar essa eleição, mesmo com seus pelotões. Não se pode deixar de levar em conta que seu núcleo duro é claramente reacionário e apela a ações que inclui componentes fascistizantes, mas a maior parte dos seus eleitores entrou nessa onda completamente manipulada, sem rumo, sem opção eleitoral e por rechaço absoluto à degradação do PT e sua traição a toda esperança nele depositada por grandes massas petistas ou não diretamente petistas.

Portanto, para além da tese do jornal argentino, desenhada pela fonte da cúpula militar pró-Bolsonaro, os generais aproveitam uma janela de oportunidade criada por forças que eles não controlam, inclusive forças de mais poder de fogo que eles, mas que escolheram – caso da burocracia sindical da CUT e PT – ficar passivos, respeitar a ordem burguesa, deixar passar o golpe, os ataques [que, aliás, começaram com Dilma].

E agora essas mesmas forças amargam eleições manipuladas e um rechaço de massa contra o PT, a esquerda, devidamente amplificado pela direita organizada. Trata-se muito mais disso do que de “geniais estrategistas”, que de nobres e patriotas não têm nada já que conspiram e agem contra seu próprio povo e para entregar a riqueza nacional ao imperialismo.

Foi muito mais a burocracia sindical cutista e o PT entregando suas posições sem luta do que a força do inimigo de classe. Vamos resumir: esses generais que agem contra a própria nação, estão tomando posições sem combate.

Por isso é imperioso reagir.

Essa é a razão pela qual temos que massificar os comitês anti-Bolsonaro para não apenas barrar sua ascensão eleitoral mas, sobretudo, criarmos a força material organizada, a aliança operário-estudantil e com todas as forças oprimidas para as batalhas que virão a seguir necessariamente, qualquer que seja o resultado desta eleição de cartas marcadas. Essa ofensiva reacionária com todo apoio do imperialismo norte-americano só pode levar vantagem na medida em que o proletariado não retome sua ofensiva, uma tarefa negada e desviada pela burocracia sindical e política do PT.




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