BRASIL-ARGENTINA

Bolsonaro e a posse peronista na Argentina: entre a serventia a Trump e as demandas capitalistas no Brasil

Nesta terça-feira (10), ocorreu a cerimônia de posse de Alberto Fernández como presidente da Argentina. Após ter dito que não enviaria ninguém do alto escalão do governo, Bolsonaro enviou o vice-presidente Mourão para o evento.

quarta-feira 11 de dezembro de 2019| Edição do dia

A decisão veio ontem após almoço com militares e pressão do presidente da Câmara Rodrigo Maia e ministros integrantes do governo como Paulo Guedes.

Inicialmente, Bolsonaro rechaçou a presença na posse de Fernández depois de apoiar Maurício Macri nas eleições. Mais tarde, afirmou que mandaria o ministro da Cidadania. Voltou atrás e garantiu posteriormente que só o embaixador estaria presente.

Essas idas e vindas mostram como Bolsonaro teve que recuar com a pressão dos parlamentares e empresários temendo dificuldades futuras nas relações econômicas. O próprio presidente afirmou que mandou um representante "para não dar a entender que estamos fechando as portas para a Argentina".

O presidente da Federação da Indústria do Estado de SP (FIESP), José Roriz fez declarações preocupado com as relações econômicas Brasil-Argentina, com a crise de ambos os países e uma queda nas importações do país vizinho. Mais preocupado ainda com as decisões do governo Bolsonaro, que mesmo após aceno positivo de Alberto Fernández vinha insistindo nos atritos.

O pragmatismo econômico da burguesia, de Mourão e Guedes, pressiona a aproximação do reformista Fernández e do presidente de extrema-direita Bolsonaro. Na cerimônia de posse, Fernández citou as relações com o Brasil e afirmou que pretende "construir uma agenda ambiciosa, inovadora e criativa", superando "qualquer diferença pessoal de quem governa".

Como vassalo de Trump, Bolsonaro ataca qualquer mínima ameaça às posições da direita conquistada pela recente ofensiva imperialista da política externa de Trump sob o continente. Por isso que Bolsonaro buscou socorrer seu aliado Macri e atacou Alberto Fernández, além de deslegitimar as massivas manifestações no Chile contra Piñera. Duas ameaças de isolamento de nosso governo reacionário. Entretanto, são ameaças de natureza bastante diversa. A primeira, fruto da via eleitoral, Bolsonaro aceita uma reconciliação como demonstrou enviando Mourão; já a segunda, fruto da explosão da luta de classes no Chile, é intolerável para nosso autoritário presidente, que ameaça com autoritarismo diante do mero risco de "contaminação".

Fernández foi eleito com um amplo rechaço da população Argentina às políticas liberais do ex-presidente Maurício Macri, que aprofundou a crise da Argentina entregando o país ao FMI e implementando reformas que mexeram na aposentadoria e aumentando as tarifas de transporte, água e luz. Agora eleito, o peronismo mostra que não pode ir mais longe que isso, e que para agradar aos capitalistas será necessário cortar na carne dos trabalhadores, convivendo pacificamente até com governos genocidas de extrema-direita como Bolsonaro.

Essa não é a oposição que a população precisa e deseja. Como mostra uma pesquisa realizada na semana passada, para 11% da população Argentina, Nicolás Del Cano do PTS (partido irmão do MRT na Argentina), que foi candidato pela Frente de Esquerda e ficou em quarto lugar nas eleições, deveria ser líder da oposição ao governo.

Com um programa radical, socialista e de oposição não só ao macrismo como também ao peronismo, o PTS vem mostrando que somente uma saída independente da classe trabalhadora poderá por um fim à crise capitalista, levantando um programa de independência de classe para que os capitalistas paguem pela crise, como nós do MRT e o PTS levantamos aqui no Brasil, na Argentina e nos diversos países em que estamos.




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