Política

BOLSONARO DEFENDE VIOLÊNCIA POLICIAL

Bolsonaro fala contra condenação de policiais assassinos em lançamento do pacote de Moro

quinta-feira 3 de outubro| Edição do dia

Bolsonaro veio a público mais uma vez defender que os policiais matem impunemente. Dessa vez, foi durante uma solenidade no Palácio do Planalto para lançamento de campanha do “pacote anticrime” de Moro, nessa quinta-feira, 3. Como já denunciamos diversas vezes, o pacote de Moro é uma licença para que os policiais matem sob qualquer pretexto, e até mesmo absurdos como “fortes emoções” podem servir de pretexto para a carnificina que o governo de Bolsonaro quer legalizar.

Assim, não há muita surpresa em que no evento de lançamento da campanha para tentar aprovar essa monstruosidade o presidente tenha falado o tipo de absurdo que costuma falar exaltando a violência policial – que no Brasil é uma das maiores do mundo.

Em seu discurso, o presidente disse que visitou o presídio da Polícia Militar em Benfica, no Rio de Janeiro, exclusivo para militares, e concluiu que ali há “muito inocente” preso. Se Bolsonaro se desse ao trabalho de visitar o sistema carcerário regular, onde mais de 800 mil pessoas estão amargando em condições sub-humanas, ele poderia constatar que pelo menos 40% dos presos sequer foram julgados, ou seja, são inocentes sob qualquer critério legal. Mas não é desses inocentes que Bolsonaro fala. Ele se refere a policiais que assassinaram pessoas – em sua esmagadora maioria a juventude negra das favelas, pessoas como a jovem Ágatha, por exemplo – e que, de acordo com o presidente, estão apenas fazendo um “bom trabalho”. Ele expressou sua indignação com a prisão de policiais nessas palavras:

“E conversando com eles [policiais e bombeiros militares], não mais do que o sentimento, a certeza que lá dentro tinha muito inocente. Tinha culpado? Tinha. Mas também tinha muito inocente. Basicamente por causa de quê? Excesso. Pode de madrugada, na troca de tiro com o marginal, se o policial dá mais de dois tiros, eles ser condenado por excesso? Um absurdo isso daí"

Bolsonaro não usou meias palavras para exaltar os assassinatos policiais. Ele se referiu aos “autos de resistência”, um termo jurídico utilizado para camuflar os assassinatos cometidos pela polícia por trás do rótulo de “resistência seguida de morte”, e estão espalhados nas fichas de policiais que matam impunemente e, sob esse disfarce, alegam estar apenas se defendendo. Sobre isso, Bolsonaro falou:

"Muitas vezes a gente vê que um policial militar, que é mais conhecido, né, ser alçado para uma função e vem a imprensa dizer que ele tem 20 autos de resistência. Tinha que ter 50! É sinal que ele trabalha, que ele faz sua parte e que ele não morreu. Ou queria que nós providenciássemos empregos para a viúva?"

Apenas uma ínfima minoria dos casos dessas brutais execuções praticadas pelo Estado contra a juventude negra chega a ser sequer investigada. Desses, uma parte ainda menor vai a julgamento. E, ainda, uma parte menor ainda desses processos termina com a condenação dos policiais assassinos. E é essa pequena parcela de policiais que está cumprindo pena por serem os executores de um Estado racista e assassino que são os “injustiçados” de Bolsonaro. Ele não perdeu a chance de se colocar contrário a qualquer tipo de investigação legal das execuções que são camufladas como autos de resistência, e disse:

"Mais ainda, o ativismo em alguns órgãos da justiça, do MP, né, na politica buscar cada vez mais transformar cada vez mais auto de resistência em execução. É doloroso você ver um policial, chefe de família, preso por causa isso".

Bolsonaro, que não acha doloroso ver crianças negras como Ágatha sendo assassinadas, e que, junto com Witzel, faz parte dos que comemoram como uma vitória a cada corpo negro morto pelas balas da polícia, lamenta quando um desses assassinos é condenado, contrariando as estatísticas.

Quando questionado sobre o caso de Ágatha durante o lançamento, Sergio Moro desconversou: o ministro disse lamentar a morte da estudante Ágatha Félix, de 8 anos, baleada no dia 20 passado no Rio de Janeiro, mas não quis comentar sobre o presidente Bolsonaro não ter feito declarações sobre o caso. "A pergunta não é apropriada", afirmou

"Foi, no fundo, questão mais relativa ao governo estadual (a morte da estudante), mas o projeto anticrime visa proteger todas as pessoas. Objetivo maior é reduzir a criminalidade em geral e poupar a vida de muitas ’Ágathas’", disse Moro.

Não é à toa, portanto, que o “excludente de ilicitude” e as outras medidas do pacote de Moro, destinadas a tornar ainda mais improvável qualquer tipo de punição a esses assassinatos cometidos por policiais, sejam uma das medidas mais entusiasticamente levadas adiante por esse governo. A aprovação do pacote de Moro pode significar um aumento ainda maior da violência cotidiana contra a população negra, pobre e moradora das favelas e periferias. Não podemos aceitar.




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