Política

ELEIÇÕES

Bolsonaro e a economia-política da opressão

Mauro Sala

Campinas

sábado 6 de outubro| Edição do dia

Tenho visto, nos dois grandes lados da disputa eleitoral - o pró-Bolsonaro e o #EleNão - certa centralidade nas questões morais e dos costumes. Bolsonaro prega abertamente a violência, seja ela a violência machista, a lgbtfóbica, a racista e contra os povos originários. As declarações de que ele não empregaria uma mulher com o mesmo salário que um homem porque ela engravida, a de que um filho cresce homossexual por falta de porrada, de que um negro quilombola não serve nem para reprodução e de que não demarcaria nem um centímetro de terras indígenas causam asco às pessoas de bom senso que reagem acusando o candidato de machista, lgbtfóbico, racista e anti-indígena. As acusações são justas, mas são a própria vestimenta que o candidato quer vestir.

Acusar um candidato abertamente machista, racista, lgbtfófico e anti-indígena de ser machista, racista, lgbtfóbico e anti-indígena, embora seja correto, acaba por camuflar o principal aspecto que a candidatura de Bolsonaro representa: a de ser uma candidatura profundamente anti-operária, anti-trabalhador.

Embora esse moralismo reacionário de Bolsonaro acabe por ter certa audiência de massas, impactando, inclusive em setores da classe trabalhadora, ele se dirige, sobretudo, aos grupos econômicos que sustentam e apoiam sua candidatura.

Por isso, a crítica à Jair Bolsonaro precisa avançar para desmascarar esse conteúdo.

Bolsonaro e seu partido foram os mais fiéis apoiadores das contrarreformas que atingiram os trabalhadores no governo Temer, como a EC 95, a Reforma Trabalhista, a Lei da Terceirização e a Reforma do Ensino Médio. O discurso de Bolsonaro, que coloca uma oposição absoluta entre ter direitos ou ter emprego, e a fala de Mourão contra o décimo terceiro salário não são externos aos interesses econômicos de suas falas mais estridentes contra as mulheres, os negros, as lgbts e os povos originários. Tudo isso faz parte de um mesmo projeto de sociedade e estão diretamente relacionados com as reformas que o candidato apoiou e os grupos econômicos que sustentam sua candidatura.

Temos visto parte do empresariado - sobretudo o ligado ao grande comércio - um movimento em apoio à sua candidatura. o mais recente e escandaloso foi o assédio que o dono da Havan cometeu contra os seus funcionários. Outros tantos empresários do setor já declararam apoio ao candidato e se engajam em sua campanha, assim como se engajaram no golpe e nas contrarreformas de Temer.

Sabemos que o setor de serviços, como um todo, foi o que mais cresceu nos anos de governo do PT. Eles se cacifaram - e se reivindicam - como os maiores criadores de postos de trabalho no país. O que eles escondem é que, apesar de se tornarem grandes empregadores, o trabalho no setor de serviços é notadamente precário. O salário médio no setor é bem menor que o salário médio no país. As condições de trabalho, sobretudo após a reforma trabalhista de Temer, são claramente mais precárias que o do conjunto dos trabalhadores formais. Esses empresários querem Bolsonaro porque querem esfolar ainda mais a classe trabalhadora. Eles não querem Bolsonaro apenas porque ele é racista, machista e lgbtfóbico, mas porque o racismo, o machismo e a lgbtfobia sustentam a superexploração do trabalho que os beneficia.

Além desse setor, Bolsonaro é o queridinho do agronegócio. A bancada ruralista declarou apoio no candidato da extrema direita não apenas por suas declarações contra os negros quilombolas e a demarcação de terras indígenas, mas porque essas declarações são a sinalização do compromisso que o candidato assume com esse setor da burguesia brasileira. O fim das demarcações de terras indígenas e quilombolas significa o avanço das fronteiras do agronegócio e seu projeto de devastação. As declarações de Bolsonaro a favor da caça e seu total descompromisso com o meio ambiente também precisam ser lidos nessa chave.

Não é apenas pelo discurso de armar o empresariado rural que Bolsonaro conquista esse setor. É porque ele é o servo subserviente do que temos de mais escravista e atrasado, tanto em seu discurso moral quanto em suas pautas econômicas.

Garoto propaganda da bilionária indústria das armas, Bolsonaro fez engordar os cofres desse setor também. O discurso de liberação do armamento para a população, além de fantasioso e inconsequente, condiz com os interesses dessa indústria que tem sido um fiel financiador de suas campanhas e devaneios. São apenas negócios.

A legitimação do assassinato pela polícia militar também nada tem a ver com segurança pública. É apenas a forma de legitimar a repressão mais brutal contra os trabalhadores quando perderem as ilusões nesse candidato e perceberem que ele será um governo de ataque frontal contra a nossa condição de vida. Bolsonaro planta o medo para colher controle.

Os interesses dos apoiadores empresariais de Bolsonaro se sobressaem a cada declaração do candidato. O preconceito e as opressões - que são problemas em si - também é a máscara para turvar seus reais interesses. Discurso em defesa da família e contra a “ditadura gay” busca confluir os grupos religiosos mais atrasados da nossa sociedade. Mas também não tem nada a ver com fé ou religião. Silas Malafaia, Edir Macedo e outros charlatões da fé alheia também tem claros interesses econômicos numa eventual vitória de Bolsonaro. Não é o avanço da fé e da espiritualidade cristã que os leva aos braços do reacionário, mas os ganhos diretos em suas empresas de comunicação ou no grande negócio que essas seitas se tornaram no país. A defesa da família é o véu que cobre os interesses desses mercadores da fé e o apoio que dão para Bolsonaro.

Agora, a mídia golpista parece que está dando um giro em defesa de sua candidatura. Após fracassar em sua aposta preferencial, Geraldo Alckmin, a Folha de São Paulo, o Estadão e a Rede Globo - sem falar na Record e sua ilegal entrevista com o candidato na reta final desse primeiro turno - passaram a apostar em Bolsonaro, propagandeando os efeitos que sua candidatura tem na bolsa de valores e no custo do dólar no país.

Esse cenário mostra que a burguesia está apostando em Bolsonaro como aquele que levará até o limite as reformas iniciadas com Temer. A grande mídia que apostou suas fichas em Temer e no golpe agora precisa de alguém que leve esses ataques adiante.

Enfim, Bolsonaro é o retrocesso que os setores mais vorazes da burguesia reivindicam. E para isso eles abrem mão de quaisquer boas maneiras e aceitam todo o inaceitável já dito e repetido pelo candidato. Enquanto um setor atrasado da classe trabalhadora escuta a voz do candidato contra o “kit gay”, contra o feminismo, contra as cotas, em defesa da família, contra tudo o que chamam de “mi mi mi” e se refestelam com isso, a burguesia escuta “menos direitos”, fim do décimo terceiro, reforma da previdência, menos impostos para os ricos e mais repressão contra os pobres. Bolsonaro além de ser um imenso retrocesso nas questões democráticas, de reconhecimento e da tolerância, será também um retrocesso nas nossas condições de trabalho e de vida.

Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil




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