Política

BOLSONARO NO RODA VIVA

Bolsonaro defende a ditadura, ataques dos patrões, muita opressão e repressão no Roda Viva

Após romper com sua tática de não aparecer em programas e não conceder entrevistas, Bolsonaro foi ao Roda Viva e mostrou um pouco de suas posições políticas, voltadas frontalmente contra os interesses dos trabalhadores, dos setores explorados e oprimidos e em defesa dos capitalistas.

Fernando Pardal

@fepardal

terça-feira 31 de julho| Edição do dia

Após romper com sua tática de não aparecer em programas e não conceder entrevistas, Bolsonaro foi ao Roda Viva e mostrou um pouco de suas posições políticas, voltadas frontalmente contra os interesses dos trabalhadores, dos setores explorados e oprimidos e em defesa dos capitalistas.

Defesa dos patrões, ataques a direitos dos trabalhadores e privatização

Para começar o programa, disse que gostaria de ser lembrado por trazer ao Brasil uma “economia liberal”. No campo econômico, tendo se aliado ao banqueiro Paulo Guedes, do banco Pactual, Bolsonaro vem tentando apresentar cada vez mais uma cara liberal a seu projeto, com uma entusiasta defesa dos capitalistas. Como afirmou em determinado momento, não tem nada a criticar nos banqueiros, dizendo que sua crítica é aos sem terra que são “terroristas”. Ou seja, parasitas que roubam bilhões de reais com seus absurdos lucros, que são parte dos que sangram os cofres públicos do país com mais de um trilhão de reais anuais no pagamento da dívida pública são os grandes parceiros de Bolsonaro.

Como enfatizou diversas vezes, Bolsonaro considera que é “muito difícil ser patrão no Brasil”, querendo dizer que é necessário que o Estado beneficie ainda mais os patrões. Como um exemplo bastante gráfico do que quer dizer com isso, o candidato criticou a existência da CLT no campo, dizendo que os direitos devem ser “diferentes” porque, por exemplo, dar folga aos trabalhadores em feriados é oneroso demais. Em outras palavras, o que Bolsonaro diz é que mesmo os absurdos ataques da reforma trabalhista são ainda muito tímidos, que o que defende é acabar de vez com os direitos dos trabalhadores para “facilitar” a vida dos patrões.

Também repetiu as velhas ladainhas sobre a privatização, afirmando que a solução para a economia no país seria privatizar todas as empresas estatais para acabar com a corrupção e a ineficiência. Sobre o fato de que todos os escândalos de corrupção envolverem empresas privadas, ou dos serviços de péssima qualidade e altíssimos preços que setores privados oferecem à população, nem uma palavra. O que importa a Bolsonaro é surfar no rechaço popular contra a corrupção para vender aos empresários o patrimônio nacional a preço de banana. Nisso, seria apenas um continuador de Temer.

Assim, no campo econômico a tentativa de Bolsonaro é mostrar aos capitalistas que, ao lado de sua verborragia militarista e carregada das barbáries preconceituosas mais absurdas, ele pretende ser um fiel “cão de guarda” dos lucros, e levar adiante os ataques aos direitos dos trabalhadores que os capitalistas querem para manter seus lucros durante a crise. A agenda econômica de Bolsonaro é ditada pelo mercado, pela continuidade da agenda do golpismo – ele inclusive manifestou apoio à reforma da previdência novamente – e mostra que a sua “diferença” em relação aos demais candidatos da direita não está em nenhum momento em se contrapor a qualquer forma de retirada de direitos.

A homofobia, machismo, racismo e a defesa dos militares continuam firmes

Ao lado de tentar de mostrar como um “bom candidato do mercado”, para tentar conseguir viabilizar sua ascensão à presidência Bolsonaro tenta “amenizar” suas bizarras declarações preconceituosas que o fazem por vezes ser comparado a um “Trump brasileiro”, e que caem mal hoje para angariar apoio na direita liberal. Assim, afirmando ter “mudado de ideia” em relação a declarações como de que fecharia o Congresso Nacional se fosse eleito, Bolsonaro diz ser “um democrata”. Mas essa máscara de “direita moderada” não vai muito longe.

Entre absurdas declarações sobre a ditadura militar, reivindicações dos governos militares e questionamentos sobre se teria ocorrido tortura, Bolsonaro mostra ser o mesmo de sempre. Para tentar driblar o tema, ao ser questionado sobre diversos temas, como se revogaria a lei da anistia, Bolsonaro afirmou que essa é uma “ferida que não deve ser lembrada” e que o futuro do país é para frente. Mas não deixou, no entanto, de deixar claro seu saudosismo e sua vontade de voltar a um governo militar no Brasil: relembrou editorial de Roberto Marinho de 1984 defendendo o apoio à ditadura e afirmou “Será que o clima agora não está parecido com o daquela época?” E questionando quem nos defenderá diante da necessidade de combater greves e protestos...

Em relação a seus notórios preconceitos, um dos pontos que fazem com que seja questionado diante de amplos setores, Bolsonaro também tentou ridiculamente “amenizar” suas posições. Disse que “não é homofóbico”, e que sua briga é com “o material escolar”, pois o que “ não pode é o pai chegar em casa, encontrar o joãozinho de seis anos de idade brincando de boneca por influência da escola”. Ou seja, defende a proibição de uma educação em que se combata o machismo e a homofobia, sem discussão de sexualidade e gênero, para que no interior das casas a violência se perpetue. Afinal, todos lembram de suas sugestões para “consertar na porrada” um filho que se diga gay.

Em relação às mulheres, ainda questionou “Por que que eu sou misógino? Por que eu não gosto de mulher?” Já que nenhum dos entrevistadores lembrou, retomemos aqui os momentos em que Bolsonaro abertamente defendeu salários menores para as mulheres porque engravidam, ou quando disse que deu uma “fraquejada” e por isso sua última filha nasceu mulher, para ficarmos com apenas dois gritantes exemplos de sua misoginia.

Mas talvez o que tenha sido mais escandaloso seja suas referências à questão dos negros. Além de repisar os argumentos mais absurdos contra as cotas, tentando ridiculamente fazer de sua posição contrária a elas uma suposta defesa dos “mais pobres” - o que cai por terra com qualquer vírgula de seu discurso liberal de ataques aos direitos - ele reafirmou suas absurdas declarações racistas sobre os quilombolas que hoje levam a que responda processo na justiça, comparando os quilombolas a gado ao medir seu peso em “arrobas”. E não deixou de trazer mais uma declaração tão absurda que até os entrevistadores do Roda Viva saltaram das cadeiras: Bolsonaro disse que “o português nem pisava na África, os próprios negros é que entregavam os escravos”.

Deitando e rolando na corrupção e nos privilégios da casta política

Assim, Bolsonaro deixou claro que tanto suas posições preconceituosas e o militarismo são o pilar ideológico de seu pensamento, como também que em termos de economia ele é “mais do mesmo” em relação aos outros candidatos patronais. Mas outro elemento que muitos de seus eleitores iludidos consideram um “diferencial” também se mostrou como uma farsa mais uma vez no Roda Viva: o fato de que supostamente combate a corrupção e os privilégios.

Não resistindo ao menor questionamento, no programa vieram à tona elementos já anteriormente denunciados, como de que Bolsonaro fez uma ridícula manobra quando era membro do PP para receber duzentos mil reais da JBS, com ele devolvendo a doação da empresa ao partido e o partido repassando o dinheiro a Bolsonaro. Ou seja, tal como centenas de deputados, Bolsonaro comia na mão dos patrões da JBS. Outro aspecto que remarcou seu fisiologismo e o seu atrelamento aos privilégios dos políticos foi a questão do auxílio moradia, que ele seguia recebendo enquanto vivia em imóvel próprio. Em relação a isso, a única defesa que Bolsonaro foi capaz de oferecer é o argumento de que “é legal”. Tal como cada deputado que ele critica, Bolsonaro enriquece com verba pública para seguir votando leis que atacam nossos direitos mais mínimos. Não apenas os seus privilégios pessoais foram defendidos pelo candidato, mas também os das corporações assassinas que representa, e disse que manteria militares intocados pela reforma da previdência.

Defesa dos assassinatos nas favelas e do combate à desigualdade social “na bala”

Por fim, não poderíamos deixar de destacar uma “marca registrada” de Bolsonaro que surgiu no programa que é sua proposta de resolver tudo “na bala”. Reafirmou sua vontade de sair matando nas favelas cada vez mais, defendendo como um “sucesso” a monstruosa ocupação militar brasileira no Haiti, que por mais de uma década oprimiu aquele povo sob as botas das forças da ONU lideradas pelo Brasil. O que Bolsonaro quer é reproduzir esse “sucesso” aqui, e para isso disse qual é sua fórmula: não quer a intervenção federal de Temer, quer do congresso um “excludente de ilicitude”, o que significa, traduzindo, carta branca para a polícia militar fazer absolutamente qualquer coisa sendo isenta de ser responsabilizada criminalmente. Quer que policiais matem ainda mais e mais impunemente do que já acontece hoje, como vimos no recente caso de Marcos Vinicius, de 14 anos, morto numa operação policial. Bolsonaro defende os helicópteros atirando nas favelas a esmo sobre a população. Questionado por uma entrevistadora se seria “licença para matar”, Bolsonaro responde: “Não, num é matar não. Vc deixa ele atirar em você e depois dá uma florzinha pra ele”.

Sobre a criminalização das drogas que fomenta o crescimento das milícias, tráfico em aliança com policiais e o Estado, nem uma palavra; sobre os ataques a direitos sociais que jogam milhares na miséria, também não: para Bolsonaro, é matando cada vez mais a juventude negra, e de forma cada vez mais impune e indiscriminada, que será resolvido o problema da violência.

Um candidato “linha dura” em defesa da manutenção da miséria capitalista

Esses breves pontos, entre tantos outros que poderíamos destacar na entrevista de uma hora e vinte de Bolsonaro, deixam claro o tipo de candidato que é e que tenta cada vez mais ser. Suas bravatas demagógicas contra os políticos e a corrupção, suas soluções autoritárias para supostamente acabar com a “bagunça” na política o alçaram a herói da direita na internet. De alguns meses para cá, Bolsonaro vem tentando “entrar na linha” para agradar setores mais tradicionais da direita, do mercado e do stablishment político. Nessas duas vertentes, ele apresenta variações do mesmo: não defende uma vírgula dos nossos interesses; não questiona o lucro bilionário dos capitalistas, a privatização da Petrobras, os trilhões da dívida pública, o ataque de direitos nas reformas de Temer, e se propõe a aprofundar tudo isso. É contra qualquer tipo de direito democrático da população, e quer militarizar a vida e afogar em sangue as contradições sociais criadas pelo capitalismo. As soluções demagogicamente “radicais” de Bolsonaro estão a serviço de manter a exploração e trazer um governo que, como o de Alckmin, Marina ou Ciro, seguirá implementando os ataques dos capitalistas, mas ainda trazendo elementos mais reacionários no campo ideológico, na educação, nos direitos das mulheres, negros e LGBTs.




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