Teoria

Bolsonaro cinicamente condena o nazismo e mais uma vez o iguala ao comunismo

Após seu então Secretário de Cultura copiar trechos do discurso de um conhecido líder nazista, Bolsonaro não perdeu a oportunidade de insistir em uma de suas mentiras preferidas, de que o nazismo e o comunismo são parte de uma mesma corrente ideológica. Cinicamente o presidente de extrema direita declarou seu suposto repúdio à "ideologias totalitárias e genocidas".

sexta-feira 17 de janeiro| Edição do dia

Na última quinta-feira (16), frente ao amplo repúdio gerado pelo vídeo de Roberto Alvim copiando o discurso do Ministro da Propaganda de Hitler Joseph Goebbels, Bolsonaro chegou a defender Alvim como "secretário de verdade". Menos de 24 horas depois o presidente o demitiu alegando que seu pronunciamento teria sido "infeliz". Muito longe de estar preocupado com a produção artística e cultural do país, provavelmente sua decisão tenha sido influenciada por declarações como a de Rodrigo Maia (DEM-RJ) exigindo a exoneração de Alvim. Isso porque o presidente da Câmara é um articulador fundamental do Congresso e Bolsonaro precisa de seu apoio para seguir atacando a classe trabalhadora e a juventude.

Não admira que um presidente eleito com fake news siga difundindo mentiras e falsificações históricas para justificar as sandices que defende. Na mesma sequência de tweets Bolsonaro aproveita o tema para mais uma vez aproximar nazismo e comunismo como se fossem parte de uma mesma corrente ideológica. Nada mais falso. Como já explicamos detalhada e reiteradamente neste diário, é somente nas alucinações de gente da estirpe de Bolsonaro e sua equipe que essas duas vertentes políticas se aproximam.

O fascismo e o nazismo tomam relevância entre a I e a II Guerra Mundial, em meio à uma situação de profunda crise econômica da Europa. As classes médias e a pequena-burguesia se encontravam arruinadas, e empurradas à pobreza se somavam a milhões em busca de emprego. Após ter sido uma vertente política e ideológica relativamente marginal do ponto de vista da grande burguesia, o nazismo passou a tomar força e estruturar sua base social nestas camadas médias desesperadas da população. Se apresentava como defensor dos pequenos e médios burgueses contra os grandes, em uma retórica que se opunha à dominação dos grandes bancos e indústrias e os responsabilizava pela desgraça das classes médias. Apesar da retórica, jamais levaram à frente nenhum tipo de medida que pudesse estrategicamente dar conta dos anseios da classe trabalhadora.

Apesar desta retórica, a verdade é que no governo o nazismo esteve a serviço do capital financeiro, mantendo e defendendo seus lucros. Nestes marcos o nazismo organizou suas bases sociais para destruir as organizações operárias e afastar perspectivas de organização da classe trabalhadora. A questão da raça e a sangrenta perseguição aos judeus levada à frente pelo nazismo são parte deste quadro, buscando explicações pseudo biológicas e divinas, que se descolam dos objetivos econômicos e de qualquer perspectiva científica. Assim as barbaridades promovidas pelo nazismo eram justificadas.

Já o comunismo e o socialismo significam a luta pela derrubada do sistema capitalista e pelo fim da exploração. Tal objetivo só pode ser alcançando em uma perspectiva de revolução social, uma revolução que retire o poder político das mãos da classe burguesa e o coloque nas mãos da classe trabalhadora, que é quem de fato faz funcionar a sociedade. Em outras palavras, uma revolução que abra caminho para que se leve à frente os interesses da maioria da população explorada contra a minoria exploradora. Para que esta revolução triunfe é necessário um partido revolucionário capaz de organizar os setores mais avançados da classe trabalhadora e influenciar as amplas massas dando conta dos anseios da maioria da população. Este processo se inicia em cada país mas só pode atingir seus objetivos no âmbito internacional, derrotando a burguesia no mundo todo. Assim é possível abrir caminho a uma nova sociedade em que toda a produção e reprodução da vida esteja livre da sede de lucro da burguesia e possa se desenvolver plenamente com o objetivo de atender as necessidades e melhorar a vida de todos.

Como se pode notar, não há aproximação possível. É importante ressaltar como mesmo a falsa retórica do nazismo mirava setores da pequena e média burguesia, tendo no governo estado ao serviço do capital financeiro. O socialismo e o comunismo, por outro lado, batalham pela independência política e pela vitória da classe trabalhadora em relação à burguesia, ou seja, há uma distinção de classe fundamental.

Aqui é importante diferenciar o socialismo e o comunismo do que foi a URSS sob os comandos da burocracia stalinista. O stalinismo e a teoria do socialismo em um só país romperam teórica e praticamente com a perspectiva do marxismo revolucionário sufocando em uma brutal burocratização os triunfos da Revolução Russa, e culminando posteriormente na restauração capitalista neste país. Ainda assim, é fundamental destacar a distinção de classe entre o que foi o Estado genocida nazista e o que foi mesmo o Estado operário degenerado pelo stalinismo.

Bolsonaro, quando faz essas comparações esdrúxulas, busca se apoiar na ignorância para demonizar qualquer perspectiva de transformação radical da sociedade. Isso é parte de uma ofensiva ideológica operada pela extrema direita, que está intimamente conectada com seus objetivos econômicos de fazer com que seja a classe trabalhadora e a juventude a pagar pela crise. Afinal, não deve haver espaço para ideias de revolução social em uma sociedade baseada no trabalho precário, na submissão ao imperialismo e onde os explorados trabalham até morrer para sustentar os lucros e privilégios da burguesia.

Para completar, o presidente ainda costuma ligar o comunismo ao PT. Como se o PT não tivesse governado durante 13 anos sem jamais romper um milímetro com os interesses dos capitalistas, fazendo concessões às massas na medida em que a situação econômica favorável permitiu. E atacando tão logo quanto foi necessário, como no segundo mandato de Dilma. Assim, o combate ideológico ao bolsonarismo também deve estar profundamente conectado com o combate a todos seus ataques econômicos e com a perspectiva de superação desta sociedade de miséria.




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