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PREVIDÊNCIA

Bolsonaro, Maia e Toffoli firmam pacto: para que milhões trabalhem até morrer

Bolsonaro e toda “velha política” se reuniram em um animado “brunch” no Palácio do Planalto nesta manhã. No cardápio um pacto – provisório – para juntos marcharem para arrancar o sangue dos trabalhadores com a Reforma da Previdência, a autoritária e sanguinária “Lei Anti-Crime” de Moro e outras medidas. Esse pacto mostra como em meio aos conflitos entre diferentes autoritarismos há também muito acordo em trucidar direitos civis e dos trabalhadores.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André e militante do MRT

terça-feira 28 de maio| Edição do dia

Foto: Marcos Correa

Ocorreu nesta manhã um animado café da manhã e reunião entre Jair Bolsonaro, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, Dias Toffoli e os ministros Onyx Lorenzoni, Paulo Guedes e o general Augusto Heleno. No menu um pacto de ataques aos direitos dos trabalhadores e reorganização – provisória – do poder entre as partes, garantindo medidas do agrado de Moro ao passo que Bolsonaro passaria a colocar-se mais “lado a lado” e não acima de Toffoli, Maia e Alcolumbre. Esta reorganização não resolve o conflito de fundo entre as alas, mas dá novos contornos provisórios entre elas.

Bolsonaro se reuniu com a nata da “velha política” que seus apoiadores atacaram nas manifestações de domingo e ele mesmo critica diariamente em seu twitter. Segundo noticiou a Folha de São Paulo, que teve acesso ao documento do pacto (mas não o divulgou), nele constam “cinco temas como prioritários: as reformas previdenciária e tributária, a revisão do pacto federativo, a desburocratização da administração pública e o aprimoramento de uma política nacional de segurança pública.”

O convescote entre aparentes inimigos escancara como em meio a seus conflitos, reais e verdadeiros, há uma unidade para acabar com os direitos dos trabalhadores e promover o autoritarismo assassino das polícias com o pacote de Moro. Essa unidade escancara como não há saída progressista para os trabalhadores apoiando uma ou outra ala, mas somente batalhando por uma política independente e impondo a retirada dos ataques da educação e a derrota da reforma da previdência pela luta de classes.

“Foi um café da manhã excelente. Não há nenhum antagonismo entre os Poderes", disse Guedes ao retornar ao Ministério da Economia após o encontro. Com um vasto sorriso na boca o banqueiro não consegue esconder sua satisfação, juntos irão garantir uma imensa fatia da renda nacional seja entregue aos capitalistas donos da dívida pública através da economia com a reforma da Previdência para engordar esses lucros enquanto a população vai trabalhar até morrer.

A Bovespa e toda cobertura jornalística acompanha essa euforia, subindo fortemente no momento de redação deste artigo (14:40).

Mas nem tudo são mares de rosas. O pacto não saiu firmado na hora, Rodrigo Maia buscou falar que o pacto era uma proposta de Toffoli e não de Bolsonaro e ainda propôs um prazo até o dia 10 de junho para assina-lo. Até lá, há espaço para escaramuças, como por exemplo, podem ocorrer quando nesta noite o senado deve votar a devolução da COAF a Moro desafiando os deputados que o desafiaram. E nos 13 dias que nos separam do dia 10 há farto espaço para o centrão negociar suas quotas de poder para firmar dito pacto. Essa disputa em meio ao pacto, ou seja, a preparação de futuras escaramuças já começou na saída do encontro.

"O presidente Toffoli propôs o pacto entre os Poderes há dois meses. Não foi após as manifestações", afirmou Maia aos jornalistas.

A paternidade do pacto para Maia é daqueles que advogam por um autoritarismo institucional, sua, de Toffoli, da mídia, de outros, mas toda a aparência de iniciativa coube a Bolsonaro. A própria necessidade de formar um pacto, e não que Bolsonaro imponha suas iniciativas, e nem por outro lado que Maia, Toffoli e Alcolumbre o desconheçam como haviam afirmado alguns parlamentares nas últimas semanas é uma expressão da correlação de forças entre as frações. Esta correlação de forças que emergiu depois do dia 26 passou por um recuo de Bolsonaro e ao mesmo tempo uma não vitória de Maia e outros “institucionais”.

Leia também: Como sai Bolsonaro das manifestações do 26M?

A correlação de forças entre as frações do regime não esgota a correlação de forças entre as classes sociais, e por isso, juntas se propõem a atacar os trabalhadores. Em qual resposta será dada pelos trabalhadores a este podre regime e seus ataques que reside o quid da conjuntura nacional.

Na intestina luta política brasileira diferentes espécimes de parasitas competem em sua fome de sangue. Querem engolir um ao outro e assim garantir o lugar de sua fração no regime em ponto de mutação. Mas além disso, querem todos eles debilitar o organismo dos trabalhadores: querem impor a Reforma da Previdência, querem passar o pacote “anti-crime” de Moro, entre várias outras medidas que tem como objetivo garantir maiores lucros aos capitalistas bem como garantir que o regime que emerja da continuidade do golpe institucional seja qualitiativamente mais autoritário e com menos espaço aos trabalhadores.

A dialética entre conflito e pacto tem se mostrado cotidianamente nos últimos meses. Ela compõe uma totalidade dinâmica, que se reorganiza a cada evento a espera de um salto de qualidade que a resolva. Nesta totalidade, opostos e diferentes perfazem o que é um só condomínio bolsonarista e de todo golpismo, tenha ele o vazio da caixa craniana de Olavo de Carvalho, a farda, a toga da Lava Jato, a toga oposta de Toffoli e Mendes, a tribuna parlamentar de Maia e o mercado financeiro a animar um e outro conforme os ventos dos lucros e da luta política.

Juntas as duas forças em pugna no momento, o “bonapartismo imperial” de Bolsonaro secundado por Moro e forças subalternas na Lava Jato e o “bonapartismo institucional” de Maia, Toffoli e outros, marcham para trucidar os direitos dos trabalhadores. Em separado as forças trabalham para degolar os adversários.

Saiba mais: Crise de Bolsonaro: “bonapartismo imperial” ou “bonapartismo institucional”

O reacionarismo de um lado e outro mostra-se não somente na defesa conjunta da reforma da Previdência, mas em todo autoritarismo compartilhado. Seja ele na defesa do pacote de Moro que dá carta branca às forças policiais para assassinar negros, pobres e trabalhadores, ou nos diversos autoritarismos que a toga mostrou, na Lava Jato ou em sua fração oposta buscando censurar quem criticasse o STF. Não há saída progressista entre estas alas que oscilam entre conflito e acordo. Só através de uma política independente.

O sanguinário pacto desenhado nesta manhã mostra como não há alternativas para os trabalhadores apostando suas fichas nas distintas alas deste regime. Não será através de parlamentares do “centrão” que se derrotará a reforma da previdência. O centrão quer tanto quanto Bolsonaro e a Bovespa acabar com o direito à aposentadoria.

Quem aposta no papel do centrão contra a reforma está enganando os trabalhadores e está na verdade batalhando para que ocorra sim uma reforma que retire direitos dos trabalhadores. Um grande exemplo disso podemos ver no deputado Paulinho da Força Sindical. Ele não quer derrota-la, mas somente “esvaziá-la” para garantir não o 1,2trilhão de reais que Guedes prometeu aos banqueiros, mas “somente” 600 bilhões como escandalosamente ele afirmou em pleno primeiro de maio. Outro exemplo podemos ver com Tabata Amaral, figura emergente do PDT de Ciro Gomes, que tem farto espaço na mídia para falar contra os cortes na educação ao mesmo tempo que defende a reforma da previdência.

De outro modo, mas com o mesmo objetivo de garantir que seja aprovada a reforma da previdência podemos ver a atuação do PCdoB que tem em Rodrigo Maia um aliado histórico e que através de seu governador do Maranhão assina junto dos governadores do PT um documento em defesa da reforma previdência desde que retirada algumas das mais flagrantes barbariedades de autoria de Bolsonaro e Guedes.

O reflexo desta posição política sobre a reforma da Previdência nota-se na atuação sindical e no movimento de massas da UNE, CUT, CTB e outras das principais centrais sindicais. Ela se dá através da separação consciente da luta contra os cortes na educação e contra a reforma da previdência, querem conter os conflitos e seu potencial de confluência para garantir que a luta de classes não dê a impronta ao país e não desafie o regime político e os interesses empresariais.

A aceitação da Reforma da Previdência como um dado (a que cabe no máximo atenuar) por estas direções políticas tem sua continuidade na política concreta frente aos conflitos entre o “bonapartismo imperial” e o “bonapartismo institucional”. Aí neste tema também se limitam a se tornar braço auxiliar de alguma das forças. Essa posição ficou muito visível semana passada quando toda blogosfera petista debateu vivamente se deveria defender um impeachment para que o reacionário Mourão tomasse o lugar do reacionário Bolsonaro...

Para garantir que não sejamos massa de manobra nem de Bolsonaro, ou de Maia, ou Moro e para que efetivamente se garanta recursos para educação e o direito a aposentadoria é preciso lutar por uma saída independente da classe trabalhadora. Isso passa pela batalha para unir essas pautas na próxima paralisação da educação no dia 30, garantir que esta seja o mais massiva possível, e garantir o que a burocracia sindical não quer na preparação da greve geral do dia 14 de junho: a auto-organização.

A batalha urgente é organizar um Comando Nacional de Delegados eleitos e revogáveis nas assembleias de base, que tenha o poder de decisão sobre os rumos da mobilização, do plano de luta, e seu programa, impedindo que estas direções negociem nosso futuro por interesses particulares deles, e garantindo que se fortaleça a única perspectiva que pode derrotar os ataques de Bolsonaro e seus aliados, bem como esses distintos projetos reacionários para o regime político: levar a frente UMA SÓ LUTA unificada contra os ataques à educação e a reforma da previdência, numa frente única que possa barrar estes ataques e, a partir daí, avançar na luta por nossas demandas, avançando num programa para que sejam os capitalistas que paguem pela crise, com o não pagamento da dívida pública e outras medidas de fundo que estejam à altura de uma resposta operária e popular para que a crise seja paga pelos que a criaram.




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