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Bolsa nos EUA tem quinta maior queda em toda a história, Bovespa despenca mais 15%

O índice SP500, que reúne as maiores empresas americanas caiu quase 10%, tendo a quinta maior queda em toda sua centenária história. No Brasil o Bovespa despencou quase 15%, a maior queda em 22 anos. As quedas em bolsas de todo mundo mostram, com grande probabilidade, que a recessão já está aqui.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quinta-feira 12 de março| Edição do dia

O índice SP500 caiu quase 10%, a mesma queda foi sentida no tradicional índice Dow Jones e no índice Nasdaq, mais ligado as empresas de tecnologia. Na Europa, sob maior impacto das medidas de Trump que proíbem ingresso de europeus na maior economia do mundo caíram mais fortemente, com quedas de 12% na Alemanha e na França.

Em letras miúdas no jornal financeiro Bloomberg especialistas davam uma probabilidade de 80% para que os EUA entrem oficialmente em recessão. Independentemente da duração, e desenvolvimentos mais catastróficos que essa crise venha a ter, é difícil imaginar que a forte queda na atividade econômica mundial não resulte em pelo menos 6 meses de queda econômica em todas maiores economias do mundo, o que, como mínimo encaixaria nessa definição técnica de recessão.

A cobertura jornalística, no entanto, é outra. Apesar de mostrar as quedas históricas todas as principais empresas jornalísticas tentam enfatizar a relação da crise com numerosos fatores conjunturais, tentam oferecer uma visão de que ela seria passageira, desconectada de uma sentença contrária ao capitalismo.

Uma hora a culpa recai no Coronavírus, em outra na “guerra de preços no petróleo” ou, como hoje, no discurso e nas medidas de Trump. Apontando ao passageiro, ao fugaz, ao conjuntural tentam proibir a ocorrência de uma ideia na cabeça dos trabalhadores: o capitalismo, por mais que tenha restaurado o capitalismo na China e todo leste, por mais que tenha avançado a históricos ataques a classe trabalhadora, promovido privatizações de tudo, reforma da previdência e trabalhista em cada canto do planeta, está em crise. Ele tem a oferecer às massas demissões, perda de direitos, e calamidades aumentadas por cortes nos gastos públicos, como estamos prestes a sentir no Brasil quando o Covid-19 se chocar com um SUS ainda mais precarizado pela Lei do Teto dos Gastos.

Os fundamentos da crise vão muito além da conjuntura. A conjuntura forneceu catalisadores para acelerar processos que já estavam se processando. Até mesmo o FMI apontava uma tendência de desaceleração do crescimento muito antes da guerra comercial de EUA-China, antes do Brexit, e nem falar dos novos demônios de 2020.

Já há vários anos, em artigos para especialistas, desenvolvia-se uma tese de “estancamento secular” da economia americana e mundial. Essa tese era defendida por ninguém menos do que um ex-presidente da Federal Reserve, o Banco Central ianque. No Brasil a tese é defendida por Monica de Bolle, uma das criadoras do plano Real e colaboradora do Instituto Millenium, ligado à Rede Globo. Ou seja, longe das manchetes, pesos pesados do neoliberalismo notam uma tendência a um comportamento “japonês” na economia, décadas sem crescimento oriundas do não crescimento da produtividade do trabalho, não crescimento do investimento capitalista. Ou seja, os capitalistas conseguem aumentar seus lucros, desenvolvem novas tecnologias, mas isso não muda nada no sistema como um todo, muito pelo contrário, o capitalismo está implicando cada dia mais em mais parasistimo, maiores lucros descolados da produção e maior desigualdade e miséria. O Covid-19 só escancara isso, até mesmo em países com robustos, mas precarizados sistemas de saúde pública como a Itália.

Na conjuntura desta quinta-feira de colapso os investidores reagiram ao discurso de Trump, um discurso que colocava a culpa na Europa e na China pela pandemia, e com isso justificava novas medidas restritivas a esses países. O resultado foi queda ainda mais acentuada das bolsas do outro lado do Atlântico. Mas a queda europeia foi menor do que a queda brasileira.

O índice Bovespa da Bolsa paulista liderou o ranking na queda das bolsas pelo mundo. Fechou o dia em cerca de -15%, a maior queda em 22 anos, e aproximando seu valor ao que era exibido em 2017 ou no longínquo ano de 2010 como apresentamos no gráfico abaixo.

A queda mais acentuada da Bolsa brasileira tem diferentes determinações: 1) saída de capitais estrangeiros rumo aos países centrais para pressionar maiores ataques aqui; 2) insatisfação de capitalistas com a decisão do Congresso em revogar o corte no Benefício Prestação Continuada feita por Bolsonaro e Guedes, garantindo assim que parte dos mais pobres beneficiários do INSS não recebam ainda menos como queriam os ultraliberais do planalto; 3) pessimismo com os lucros e perspectivas de várias das maiores empresas brasileiras, que são produtoras de commodities, e estas só caem em seus preços e no volume que são demandadas.

A queda no preço do petróleo, do ferro, da soja, da carne, oriunda da menor demanda chinesa e mundial golpeia as ações de Petrobras, Vale, JBS e outras gigantes nacionais, e mais que isso, aponta, como mínimo, um impacto forte à economia e arrecadação estatal em vários estados do país, especialmente naqueles mais dependentes dos impostos a esses produtos, tal como é o caso do Rio de Janeiro.

Olhando o detalhe da cobertura jornalística sobre a bolsa brasileira o trabalhador se informará como a queda de hoje quase chegou aos 20% mas diminuiu ao aparecer alguma luz no fim do túnel com a injeção de US$1,5 trilhão pelo Federal Reserve no mercado financeiro americano, uma medida desenhada para salvar os capitalistas. Medidas como essa podem ajudar os lucros e devem pressionar outros países a agirem, possivelmente afastem perspectivas catastróficas mais imediatas, mas estão longe de resolverem a crise, visto que o que vivemos hoje expressa as debilidades da resposta à crise desde 2008 quando os mesmo EUA injetaram ainda mais dinheiro (2 trilhões) numa economia que era menor e não estava desafiada por maiores instabilidades políticas, geopolíticas e até mesmo sanitárias como hoje em dia.

O conjunto de fatores que aqui esboçamos para uma compreensão parcial e rápida das manchetes econômicas escancaram como estamos diante de uma crise profunda, para além de seus vaivéns conjunturais, e como os capitalistas só tem a nos oferecer mais barbárie, seja ela na forma de retirada de direitos ou na retirada de gastos públicos, deixando milhões de pessoas sendo sorteadas conforme a idade para ver se vivem ou morrem diante do Covid-19 como vemos na Itália.

Precisamos que a crise, sanitária e capitalista seja paga pelos capitalistas e não por nós trabalhadores.




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