ELEIÇÕES 2020 BOLÍVIA

Bolívia: Golpistas voltam a prorrogar as eleições

As eleições foram postergadas desta vez para 18 de outubro. A resolução do TSE desconhece a Assembléia Legislativa Plurinacional. Sindicatos e federações camponesas assim como a Central Obreira Boliviana (COB) se declararam em emergência e anunciaram mobilizações. A decisão foi saudada pelas Nações Unidas além de todos os partidos políticos na corrida, exceto o MAS.

segunda-feira 27 de julho| Edição do dia

Na última quinta-feira o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) em uma reunião de Sala Plena aprovou postergar mais uma vez - seria a quarta postergação - as eleições gerais; desta vez para 18 de outubro.

O presidente do TSE, Salvador Romero, na conferência de imprensa que anunciava esta decisão afirmou que o estabelecimento de uma nova data é uma atribuição do órgão eleitoral, não sendo portanto competência parlamentária da Assembléia Legislativa Plurinacional (ALP). Da mesma forma procederam semanas atrás com a ascensão por decreto dos militares golpistas desconhecendo as faculdades do senado. Parece que o governo de Jeanine Áñez e o TSE decidiram atuar como se não houvesse parlamento; sem dissolvê-lo mas retirando sua efetividade.

Este anúncio foi aprovado por todas as forças políticas do espectro golpista, incluída a direita moderada encabeçada por Carlos Mesa, candidato à presidência pela Comunidade Cidadã (CC). A esta demonstração de respaldo se soma a declaração da Nações Unidas pedindo que os atores políticos e sociais respeitem a decisão de postergar as eleições.

Outro assunto espinhoso sobre o qual deverá definir o TSE nos próximos dias é considerar os pedidos de proscrição ao MAS. Essa eventual proscrição, seria porque Luis Arce Catacora, candidato a presidência do MAS e ex-ministro da Economia, haveria apresentado em programas informativos dos resultados de pesquisas não autorizadas pelo Tribunal e que a lei sanciona com proscrição. A lei, aplicada pelo MAS para prescrever em 2014 a candidatos da direita do departamento de Beni, hoje é usada contra eles mesmos. Membros do partido de Evo Morales apresentaram duas ações de inconstitucionalidade da lei de maneira preventiva para evitar a possível proscrição.

Se for confirmada a proscrição do MAS, estaríamos diante de eleições nas quais o partido como maior intenção de voto não poderia participar, em um salto de golpismo e da perseguição política.

Diante desta situação Javo Ferreira da Liga Obrera Revolucionaria Cuarta Internacional (LOR-CI, organização irmã do MRT na Bolívia) expressou que "não demos antes nem agora apoio político ao MAS, porém denunciamos estas tentativas de proscrição tirando do povo o direito elementar de eleger aos representantes que queiram, assim como repudiamos antes a proscrição que o MAS realizou a setores da Centro-direita que eram os candidatos ganhadores em Beni e graças a essa lei mordaça o MAS pode ganhar o governo desse Departamento em aliança com o MNR local.

Catástrofe sanitária e prorroguismo golpista

Esta nova postergação é justificada pelo crescimento, cada vez maior, de contágios e mortes pelo COVID-19 no país. Uma situação que parece ter alentado as políticas do Governo Golpista que, desde o início, se negou a implementar testes massivos para detectar as zonas de contágio e poder desenhar um plano sério para enfrentar a pandemia.

A gestão da pandemia, de parte dos golpistas, privilegiou o uso dos aparatos repressivos para levar adiante uma quarentena militarizada quase como única via para enfrentar a crise sanitária. Depois de mais de cem dias de quarentena tampouco fez nada para fortalecer os centros hospitalares nem proporcionar condições básicas de biossegurança às e aos trabalhadores da saúde que hoje enfrentam fortes baixas por contágios. Pelo contrário, apareceram esbanjando casos de corrupção em compras com milionários sobrepreços além de garantir como bons mercadores, os negócios de laboratórios, farmácias e clínicas privadas nas quais se concentram mais de 50% das insuficientes UTIs disponíveis no país.

Isto é importante de destacar, porque o reiterado discurso de que "a vida vem em primeiro lugar", muito utilizado para seguir postergando as eleições, não tem base. Hoje o país está imerso em uma situação de colapso sanitário na qual se recolhem dezenas de mortos por coronavírus pelas ruas. Uma pessoa que se contagia com o vírus está virtualmente condenada a morrer porque não há possibilidade de ter acesso a atendimento médico. Isso é responsabilidade dos golpistas que fizeram uma gestão criminal da pandemia.

Esta postergação está gerando reações de rechaço ao Governo de Áñez por parte dos setores populares que depositaram todas as suas expectativas no próximo 6 de setembro.

Entre os setores que expressaram seu rechaço se encontram o Pacto de Unidad, a Federação de Campesinos do Departamento de La Paz "Tupac Katari", os mallkus de Kara Kara e os ayllus do Norte de Potosí e as 5 províncias, a coordenadora de 6 federações do trópico de Cochabamba, os interculturais de Santa Cruz e a Central Obrera Boliviana (COB) que se declarou em estado de emergência.

Vídeo: Radio Kawasachun Coca e TJ Estrella Noticias

Enquanto que o golpismo aperta os mecanismos mais reacionários deste suposto retorno da "democracia", o MAS segue o jogo apesar de ter maioria parlamentária. As ilusões que foram semeadas nas eleições está desviando a organização e luta que as e os trabalhadores, camponeses, indígenas, mulheres e estudantes devem buscar.

Desde sua maioria parlamentária o MAS poderia votar um salário de quarentena, testes massivos gratuitos para a população pobre, a nacionalização das clínicas privadas que estão fazendo negócios com a saúde do povo porque as mortes por COVID-19 e o desespero pela fome não espera o cada vez mais duvidoso calendário eleitoral.

Diante desta situação Javo ferreira da LOR-CI, assegurou que "com o arco da direita racista e clerical não se negocia. Há que organizar a luta dos setores afetados pela pandemia e a crise econômica. É a única maneira de lutar pelos interesses e as necessidades das e dos trabalhadores do campo e da cidade, das comunidades indígenas e camponesas, das mulheres e a juventude e impor uma saída para que desta vez a crise seja paga pelos capitalistas e não o povo pobre.




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