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Bolívia | Bolívia: Abaixo a paralisação dos ricos, das igrejas e cívicos!

Reproduzimos abaixo nota da LOR-QI (Liga Operária Revolucionária - Quarta Internacional), seção boliviana da FT-QI (Fração Trotskista pela Reconstrução da Quarta Internacional) da qual o MRT que impulsiona o Esquerda Diário no Brasil é a seção brasileira. A nota trata das movimentações políticas que atravessam a Bolívia no marco das múltiplas crises vividas sob a tutela do governo de conciliação de classes de Luis Arce, presidente boliviano desde a derrota eleitoral, no ano passado (2020), da ultradireita golpista que subiu ao poder pela via do Golpe de Novembro de 2019, com a auto-proclamada presidente Jeanine Añes à cabeça.

quarta-feira 13 de outubro | Edição do dia

O reacionário Movimento Cívico Nacional [organização proto-facista boliviana], convocou para esta segunda-feira ,11 de Outubro, a primeira paralisação nacional, com a exigência de liberdade aos mal chamados presos “políticos”, entre eles Añez [ex-presidente golpista da Bolívia] e seus ministros, assim como uma dezena de policiais e militares acusados pelos massacres de novembro de 2019. Também exigem o fim da lei de “investigação de ganhos ilícitos e financiamento do terrorismo” assim como outras ações que, segundo estes representantes dos setores mais endinheirados do país e das igrejas católicas e evangélicas, estariam prejudicando os seus direitos à propriedade privada e ao patrimônio. Apresentam a medição de forças como em “defesa da democracia” e contra a instauração de uma suposta “ditadura comunista”.

Aderiram ao movimento direitista, as igrejas católicas e evangélicas que se opõem à possibilidade de fiscalização de seus dízimos e riquezas, a CONADE (Comitê Nacional de Defesa da Democracia) e toda essa junta que em defesa da democracia vem defendendo os assassinos do Golpe de Novembro de 2019. Também estão à cabeça desse “agrupamento” da direita, o governo de Santa Cruz [província boliviana] encabeçado por Luis Fernando Camacho; o prefeito de La Paz, Iván Arias, responsável pela corrupção da ENTEL durante o governo de Añez; os empresários da saúde representados pelo colégio médico encabeçado por Luis Larrea e alguns SIRMES (Sindicatos de Ramos Médicos em Saúde) como o de Romero em La Paz; os ex-presidentes Jorge Tuto Quiroga e Carlos Mesa, assim como o conjunto da plataformas “cidadãs” 21F e os grupos paramilitares da UJC (União Juvenil Crucenista) e RJK (Resistência Juvenil Cochala).

EVO MORALES E O MAS CONVOCAM A CONCENTRAÇÕES NO DIA 12 DE OUTUBRO EM DEFESA DE ARCE

A direita tenta reagrupar suas forças construindo “uma lista unificada de demandas”, que vão desde a exigência de liberdade para os golpistas, ao rechaço de vários projetos de lei, a instrumentalização de algumas organizações populares, como a marcha indígena encabeçada pelo ex vice-ministro de Goni, Marcial Fabricano ou o esforço de instrumentalizar a resistência da ADEPCOCA (Associação Departamental dos Produtores de Coca).

Entretanto, a agitação direitista deu um salto, motivada nos últimos dias pela decisão judicial de declarar Camacho e seu pai como culpados pelo golpe de estado, e o temor de que o governador de Santa Cruz possa ser detido pelas operações judiciais em marcha.

É diante dessa “agitação” direitista que Evo Morales e o MAS convocaram uma grande concentração chamada “El Wiphalazo”, para terça-feira 12 de outubro, com epicentro na cidade de Cochabamba, também em defesa da “democracia” e do governo de Luis Arce que estaria ameaçado perante os novos assédios golpistas. Aderiram a esta convocatória as organizações sociais dirigidas pela corrupta burocracia da COB e do Pacto de Unidade, e outras organizações menores dirigidas pelos governistas.

Pretendem medir forças com mobilização golpista que se realizará um dia antes, buscando dissuadi-los de continuar em uma escalada de polarização e enfrentamentos que possam reabrir a crise instalada com o golpe de estado e que se mantém latente e contida no âmbito judicial. Buscam pressionar e conter a direita, estratégia defendida por García Linera, mas não derrotá-la mediante a mobilização das trabalhadoras e trabalhadores e do povo.

ESFORÇOS GOVERNISTAS E OPOSICIONISTAS PARA NEGOCIAR

Apesar dos anúncios de greves e mobilizações, bem como dos anúncios de dirigentes do MAS para apelar à ação penal contra quem obstrui o direito ao trabalho amanhã, a verdade é que nos últimos dias houve indícios de negociação de representantes das partes em disputa para chegar a alguma forma de conciliação. Assim, o MAS deu os primeiros passos ao suspender temporariamente o julgamento da lei contra a legitimação de lucros ilícitos, a suspensão da entrega de declarações [judiciais] ao fascista Camacho da cidade de La Paz - o que estava previsto para quinta-feira, 8 de outubro -, e também ao suspender a sentença contra Manfred Reyes Villa até que o revisor do Tribunal Constitucional se pronuncie. Essas suspensões têm, evidentemente, o objetivo de afrouxar a polarização e, ao mesmo tempo, convidar setores golpistas a negociar. Vemos o resultado disto, por exemplo, com Doria Medina, empresário do cimento e candidato a vice-presidente de Áñez e aliado durante seu governo, que rejeitou sua participação na greve convocada pela sociedade civil. Da mesma forma, Manfred Reyes Villa, que, apesar de sua precária situação jurídica, como prefeito de Cochabamba, expressou sua vontade de que Cochabamba se tornasse o ponto de união entre o Ocidente e o Oriente, entre golpistas e masistas, enviando um consagrado discurso e sem se comprometer com a greve de direita de amanhã. Da mesma forma, desde o Conselho Universitário da UMSA foi determinado não acatar a greve cívica.

Esses esforços conciliatórios, que partem do partido no poder e da oposição, provocam divisões e crises nos setores mais duros, como os grupos juvenis do MAS que vêm expressando seu repúdio a esta política que impede a derrota da direita pela mobilização. Por outro lado, o bloco golpista mostra uma profunda heterogeneidade sem sequer conseguir construir um movimento de oposição de caráter ofensivo, limitando-se a tentar "arranhar o campo" e colocar limites ao governo de Arce, mas sem possibilidades, por enquanto, de realizar um novo golpe da direita que coloque em discussão o problema do poder do Estado.

Enquanto a grande maioria das organizações sindicais e sociais se alienaram no governo Arce, reproduzindo de forma degradada o que aconteceu com a nacionalização de nossas organizações sociais durante os 14 anos de governo de Evo, mantendo silêncio cúmplice diante dos ataques empresariais ao os direitos dos trabalhadores, camponeses e povos indígenas.

Outras organizações populares, como sindicatos ou transportadores, começam a se dividir, onde setores ricos vinculados ao contrabando e outras práticas de enriquecimento acelerado anunciaram sua participação na greve clerical e de direita. Trata-se da Confederação Nacional dos Sindicatos liderada pelo burocrata Pancho Figueroa e outros que vêem perigo na aprovação da lei que visa fiscalizar e controlar a legitimação dos lucros obtidos ilegalmente, em contraste com a grande maioria de suas bases sindicais que ganham para o dia a dia e que não seriam afetados. Apesar disso, vários sindicatos e trabalhadores dos transportes anunciaram sua rejeição à greve e declararam sua vontade de trabalhar e manter uma paz social relativa.

POR COMITÊS DE AÇÃO INDEPENDENTES PARA DERROTAR OS CONCILIADORES E A DIREITA NAS RUAS

A estratégia apoiada por García Linera e pelos líderes e altos funcionários do governo de negociar e conter a direita e as classes dominantes mostra-se cada vez mais impotente. O cenário econômico internacional sombrio que projeta sua sombra sobre o país, apesar do breve efeito de recuperação deste ano, levanta uma disputa maior entre as classes sociais sobre a distribuição da renda nacional. Da mesma forma, as posições estatais e políticas conquistadas pelo golpe após 19 de novembro, permitem manter uma oposição ativa, incentivando o reagrupamento de direita para obrigar o Governo de Arce a fazer maiores concessões às demandas de empresas agroindustriais, empresários e igrejas.

Nesse cenário, e diante das perspectivas de maiores confrontos que vão surgindo à medida que a crise se torna mais palpável, é urgente implementar outra estratégia de enfrentamento às classes dominantes e à direita. A política de negociação e contenção levada a cabo pelo Governo apenas contribui para desmoralizar quem pretende derrotar definitivamente o golpe, bem como permitir ganhar tempo para avançar no seu reagrupamento político.

É urgente unir todas e todos aqueles que mostraram vontade de enfrentar nas ruas o agronegócio e a oligarquia empresarial do país que, com a ajuda das igrejas e grupos paramilitares, tentam mais uma vez avançar na construção de um projeto golpista. É urgente promover a auto-organização dos trabalhadores do campo e da cidade, dos setores juvenis autoconvocados de Kara Kara, Senkata e outras localidades, estimulando a formação de Comitês de Ação Unitária com mecanismos de decisão democrática e assembléia, para discutir como começar a confrontar aqueles que tentam se reconciliar com a direita e derrotá-la nas ruas e com os métodos de mobilização independente.

Desde o LOR-CI, organização que impulsiona o La Izquierda Diario na Bolívia, nos colocamos a serviço desta política e chamamos a promovê-la a todas as organizações socialistas que rejeitam a negociação e que querem derrotar definitivamente o racismo e a mobilização da direita.




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