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#BlackLivesMatter e os cenários para os negros nas eleições dos EUA

Leticia Parks

São Paulo

terça-feira 8 de novembro| Edição do dia

Hoje acontecem as eleições do complicado sistema eleitoral dos EUA, onde o presidente é definido por um colégio eleitoral de delegados por estado. Dentre os 538 delegados, uma parte considerável das intenções ainda não está definida, pairando no ar uma grande incerteza em relação ao futuro dessa enorme potência capitalista. Mas será que para os negros há tantas dúvidas sobre seu futuro na mão de cada um desses presidentes?

A luta que ficou conhecida pela hashtag #BlackLivesMatter (#AsVidasNegrasImportam) se iniciou após a absolvição do policial George Zimmerman, que matou a tiros o adolescente negro Trayvon Martin, em 2013. Os brutais assassinatos de dois negros pelas mãos da polícia - Eric Garner, de Nova York, e Mike Brown, em Ferguson – deram audiência em 2014 a esse movimento que organizou protestos massivos em todo o país. Essas vidas tiradas há 2 anos seguem impunes, e a sequência de atos passou a tomar grande força em todo o país a partir de cada nova vida negra retirada pelas mãos da polícia.

A brutalidade policial é um traço marcante de um país que, assim como o Brasil, libertou os negros da escravidão para lançá-los ao trabalho precário, à moradia precária e que, durante todo o processo, a elite branca foi obrigada a reprimir duramente os negros para impedir que conquistassem pelas suas mãos a sua real liberdade. A violência e a repressão contra os negros compõe o DNA norteamericano, fazendo com que em 2015 tenham matado cerca de 346 negros. No Brasil, esse número foi de cerca de 2000.

Desde o início das eleições, o movimento BLM organizou uma série de protestos principalmente nos espaços de campanha de Trump, denunciando as posturas, discursos e programa extremamente racista que propaga esse candidato. Durante seus comícios, os negros que protestavam eram agredidos por fundamentalistas do sul, como aconteceu no comício de Louisiana.

Apesar de previsíveis os trágicos efeitos de uma vitória de Trump, o que significa Clinton para os negros norte-americanos e para as políticas colonialistas dos EUA a nível internacional?

#NotWithThem (#ComNenhumDeles): o futuro dos negros não pode estar na mão do bipartidarismo burguês

É notório o nível absurdo de racismo que sai da boca de Donald Trump, fazendo com que apenas cerca de 1% de seu eleitorado seja negro. Nos estados do sul, onde vive uma classe alta e média apoiada num forte racismo contra os negros, as intenções de voto também pendem para o lado de Trump, mostrando que, apesar do discurso oficial da história, os negros e a questão negra sempre cumpriram um papel de destaque nas páginas da história.

O debate em torno da violência policial e do racismo nos EUA voltou com toda força, e se antes se via “resolvido” na candidatura de Obama – que sempre denunciamos como era uma farsa política para desviar os reais problemas pelos quais passam os negros – hoje é possível que hajam aqueles que dizem “derrotar Trump para impedir uma política racista”, ou “melhor Hillary do que Trump”.

Ainda que não tenha saído da boca de Clinton um conteúdo tão racista como o que sai da boca de Trump, não nos enganemos. Após os ataques de 11 de setembro, a então senadora Hillary Clinton votou a favor das operações militares no Afeganistão e no Iraque; enquanto secretária de estado, defendeu a intervenção militar na Líbia como resposta ao levante de massas oprimidas na da Primavera Árabe. No que diz respeito ao Haiti, cujo terremoto ocorreu durante o segundo ano como Secretária de Estado, a postura de Hillary foi a de abrir as portas para a reconstrução bilionária e corrupta das grandes empresas de construção civil norteamericana, enquanto negociava a entrada das genocidas tropas brasileiras no Haiti, um tipo de “tropas de paz” que levam apenas militares, revólveres, estupram e matam a população negra, procedimento que durante todos esses anos contou com o consentimento do PT no Brasil.

Em um momento de tantas lutas negras a nível nacional e internacional, saber que as vidas negras importam é saber que não é possível confiar nem em um candidato que se apoia no racismo para reacender os conservadores e racistas a nível nacional, criando ódio entre os trabalhadores e disseminando discursos e ações de genocídio; tampouco em uma candidata que a troco de milhões de vidas, busca angariar novas zonas de poder e influência para os EUA, representando o colonialismo neoconservador do imperialismo.

Esses candidatos da guerra e da violência policial carregam na sua mão o sangue dos cerca de 400 negros assassinados pela polícia nesse ano, dos quase 38 mil mortos na guerra do Iraque, 470 mil na guerra da Síria, 30 mil mortos na Líbia. O sangue do povo haitiano também está na mão dessa elite que tenta nos representar. Fruto da espoliação imperialista dos EUA nesse minúsculo país com uma história tão imensa como a da primeira Revolução Negra no mundo, o Haiti perdeu cerca de 220 mil vidas com o terremoto em 2010, cerca de 8 mil com a intervenção militar e quase 1000 ocasionados tanto diretamente pelo furacão Matthew quanto com o surto de doenças por contaminação das águas.

Não estamos com nenhum deles. Estamos com a força da luta nas ruas, nas escolas, universidades e locais de trabalho. É preciso que surja uma alternativa independente dos trabalhadores para a política nos EUA, que possa servir como farol para o conjunto dos oprimidos em todo o país. E se foi apenas com as forças dos negros que esse país pode se ver livre das amarras imperialistas da Inglaterra, é apenas com a força dos negros que será possível uma classe trabalhadora forte o suficiente para derrotar o imperialismo que agora é fruto da sua própria nação.




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