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RACISMO EUA

Black Lives Matter no Rio e luta internacional do povo negro contra o racismo

Nessa quarta (20) foi realizada uma coletiva de imprensa com integrantes do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), da campanha Don’t Kill For Me, Safe Games For All, do coletivo Papo Reto, Fórum de Juventudes do Rio, campanha Pela Liberdade de Rafael Braga, Rede de Comunidades, Mães de Maio, dentre outros movimentos sociais que construíram a atividade.

Artur Lins

Estudante de História/UFRJ

quinta-feira 21 de julho de 2016| Edição do dia

Os integrantes do Black Lives Matter (BLM), movimento que surgiu e ganhou força nos EUA em 2014 depois do assassinato de Mike Brown, em Ferguson, pela polícia, vieram ao Rio para participar de diversas atividades, debates e atos pela articulação da luta internacional contra a violência racista da polÍcia. No entanto, a violência da polícia norte-americana só aumenta e os assassinatos covardes de Alton Sterling e Philando Castile fez explodir novamente o movimento nas ruas, com milhares de negrxs revoltados com a violência racista policial.

E no contexto dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, que começará em poucos dias, o governador Francisco Dornelles (PMDB) reforçou a “segurança” do megaevento, através da ampliação da militarização já existente em diversas favelas e comunidades da cidade, como o retorno da presença das forças armadas no Complexo da Maré.

Bem antes do reforço do aparato repressivo, uma das prioridades do governo PMDB-PP (Cabral-Pezão-Dornelles) foi e continua sendo a militarização dos territórios mais pobres da cidade, através da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). No entanto, essa política militarista, em vez de pacificar, só fez aumentar a violência contra os moradores, tratando a juventude negra e favelada como eterna e potencial suspeita, sempre “confundindo” com traficante e apertando o gatilho, dentre inúmeros casos cotidianos de morte de inocentes anônimos e que se tornaram conhecidos, como os meninos da chacina de Costa Barros, Jhonatan do Borel, DG do Pavão-Pavãozinho, Caio de Manguinhos, dentre tantos outros.

Nesse contexto de luta e resistência do povo negro contra a violência racista policial no Brasil quanto nos EUA é que os integrantes do BLM, do coletivo Papo Reto, do Fórum de Juventude do Rio e das Mães de Maio iniciaram suas falas na coletiva, internacionalizando suas solidariedades com os oprimidos pela violência policial em todo o mundo, através de suas experiências de luta, resistência e dores cotidianas pela perda de parentes queridos.

O pastor John Selders, falando pelo BLM, disse que o movimento “faz parte de uma rede global de resistência”. Colocou que é necessário se organizar contra qualquer tipo de injustiça que aconteça em qualquer parte do mundo, citando o caso de opressão cotidiana do povo palestino como um exemplo de conexão com o BLM. Em relação à violência racista da polícia, o reverendo reiterou que isso não é algo que apenas a comunidade negra brasileira sofre e que é preciso articular a resistência a nível mundial, pois segundo ele “somos um único povo e a luta continua”.

As falas dos integrantes do BLM continuaram centradas na solidariedade internacional, relatando que a vida dos negrxs nos EUA é uma contínua luta contra a invisibilidade e matanças que acontecem cotidianamente e que os negrxs merecem uma oportunidade a uma vida plena e que para isso “nossas vidas dependem de nossa solidariedade” e de “estratégias em comum para atacar a questão racial globalmente”.

Mídia burguesa e invisibilidade do genocídio da juventude negra

Um ponto muito debatido na coletiva foi sobre como a grande mídia trata os casos de assassinato de jovens negros pela polícia. Mães de jovens mortos pela polícia, que fazem parte do movimento Mães de Maio, relataram a semelhança de suas experiências dolorosas em que a mídia burguesa tratou seus filhos como “suspeitos” e não como mais uma vítima da violência policial.

Nesse sentido, a mãe de Jonathan, menino de 15 anos morto pela UPP de Manguinhos, disse que é necessário “termos que nos jogar na luta senão a grande mídia trata nossos filhos como suspeitos, legitimando os assassinatos”. Reiterou que além da polícia, a mídia, parte “da sociedade que aplaude” e o sistema judiciário “têm as mãos sujas de sangue”, afirmando que essas instituições são responsáveis pelo genocídio do povo negro, ao deixar os assassinos de farda continuando exercendo suas funções e sem nenhum tipo de punição e pela mídia não dar voz as mães que tiveram seus filhos mortos pela polícia e para a guerra que está acontecendo nas favelas.

Alan Medeiros, representante do Coletivo Papo Reto, que possui trabalhos no Complexo do Alemão, em sua fala disse que sua organização, dentre várias outras mídias independentes de favela, disputa a narrativa com a grande mídia sobre o que está acontecendo nas comunidades da cidade. Também defendeu que a imprensa colabora com o genocídio do povo negro ao colocar sempre o jovem negro, vítima da violência policial, como “suspeito”.

Desmilitarização da polícia e estratégias para o povo negro enfrentar o racismo
O Esquerda Diário questionou sobre qual programa e estratégia cada organização presente defendia para acabar com a violência racista da polícia. Todos defenderam a desmilitarização de todas as polícias, e criticaram o papel histórico de repressão da polícia, como disse uma das integrantes da Mães de Maio, “a polícia só serve para punir” e que “a segurança deles (forças armadas e polícia) é contra o morador da favela”. Inclusive criticaram os tribunais de justiça próprios das forças policiais e que, segundo uma das mães, é necessário “desmilitarizar o Judiciário também”.
Já as integrantes da BLM defenderam que é preciso desmilitarizar a polícia norte-americana também (que segundo elas passaram por esses últimos anos um processo intenso de militarização), mas que para, além disso, é fundamental resolver problemas estruturais como a pobreza e o descaso político e social com o povo negro.

Segundo o movimento, onde há comunidade forte não é necessária a presença da polícia, e para isso se faz urgente uma política de valorização e investimento nos sistemas educacional e de saúde públicos e lutar contra as prisões arbitrárias que formam um exército de negros encarcerados. Para o BLM, a desmilitarização da policia é apenas o começo de uma longa batalha pelo direito à vida da população preta.

Nesse sentido, a melhora das condições de vida da população negra através de uma saúde e educação públicas de qualidade, a solidariedade e a união entre a comunidade negra e pobre são saídas que para o movimento vão na direção na construção de uma comunidade negra forte que não precisará de polícia e da vigilância racista do Estado.

Ao fim da coletiva de imprensa, o referendo John Selders discursou sobre a importância da luta internacionalista do movimento negro e na conscientização da opressão que o negro vive em sua sociedade, referindo-se ao exemplo do BLM, ao mostrar para o mundo que mesmo depois da conquista dos direitos civis há 50 anos, os negrxs nos EUA ainda vivem em um país profundamente racista e em que suas instituições, principalmente a polícia, segue matando e excluindo o povo negro. Reiterou que o BLM, ao levantar a questão da violência racista da polícia nas ruas, criou um espaço político para a transformação acontecer.




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