Teoria

LANÇAMENTO - BIOGRAFIA DE ROSA LUXEMBURGO

Biografia de Rosa Luxemburgo é lançada com debate de Diana Assunção e Isabel Loureiro

Nessa sexta-feira, 18, foi realizado na Casa Plana o lançamento do livro “Rosa Luxemburgo. Pensamento e ação”, biografia da revolucionária polonesa. A edição é uma parceria da Boitempo Editorial e Edições Iskra, e o evento contou com um debate entre Diana Assunção e Isabel Loureiro, mediado Podcast Revolushow.

segunda-feira 21 de janeiro| Edição do dia

Em 1919 completam cem anos do assassinato de Rosa Luxemburgo, uma das maiores revolucionárias marxistas, autora de um precioso legado em sua militância e obra para toda a classe trabalhadora mundial.

Retomando essa herança fundamental para nossas lutas de hoje e amanhã, a Boitempo Editorial e as Edições Iskra lançam a biografia de Rosa escrita por seu camarada Paul Frölich, e inédita em língua portuguesa.

Nessa sexta-feira, 18, ocorreu na Casa Plana o evento de lançamento do livro de Frölich, com dezenas de pessoas que compareceram e puderam participar do debate do evento. A mesa mediada por Larissa Coutinho, do Podcast Revolushow, contou com a participação de Isabel Loureiro (que escreveu o posfácio do livro), doutora em Filosofia, reconhecida pesquisadora em Rosa Luxemburgo e autora de “Rosa Luxemburgo – Vida e obra”, além de organizadora dos textos escolhidos de Rosa Luxemburgo em três volumes lançados pela Editora Unesp. Também compôs a mesa Diana Assunção (autora do prólogo do livro), trabalhadora da Faculdade de Educação da USP, ex-diretora do Sindicato de Trabalhadores da USP (Sintusp) e atualmente diretora de base do mesmo, fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas no Brasil, dirigente do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), membro do conselho editorial do Esquerda Diário e organizadora dos livros “A precarização tem rosto de mulher” e “Lutadoras: Histórias de mulheres que fizeram história.

O debate foi muito rico, expondo divergências e convergências, suscitando questões polêmicas entre Loureiro e Assunção, instigando perguntas do público e da mediadora, e demonstrando que o legado de Rosa e sua atualidade seguem como temas candentes para os que hoje pretendem atuar politicamente para superar a sociedade capitalista e alcançar o socialismo.

Diana Assunção procurou apontar as fundamentais contribuições da atuação política de Rosa, destacando em particular a imprescindível luta teoria, estratégica e programática que Luxemburgo travou no seio do Partido Social-Democrata Alemão (SPD); em primeiro lugar aquela contra Eduard Bernstein, teórico primordial do revisionismo, que colocava de lado os fundamentos do pensamento marxista ao defender a possibilidade de uma transição ao socialismo sem o enfrentamento e a derrubada do Estado capitalista e da classe que o dirige, a burguesia. Em segundo lugar contra Karl Kaustky, que, tendo sido seu aliado na luta contra Bernstein, progressivamente foi abandonando as posições revolucionárias e partindo à defesa de uma política de “nada mais que parlamentarismo”, nas palavras de Rosa retomadas por Diana.

Ela também resgatou o que considera grandes qualidades do livro, como o fato de retraçar a constituição do pensamento de Rosa, sua formação e desenvolvimento, apresentando de forma profunda as grandes e difíceis polêmicas que travou, apresentando a revolucionária com grande admiração, mas sem deixar de debater de forma crítica suas posições. Assim, Diana ressaltou que “os leitores brasileiros vão ter acesso a uma biografia que desmonta muitos dos argumentos de quem busca mostrar uma Rosa Luxemburgo anti-bolchevique, ou uma Rosa Luxemburgo espontaneísta, ou até mesmo uma Rosa Luxemburgo pacifista, como eu li esses dias numa matéria do El Pais, o que é uma verdadeira deturpação”.

Retomando algumas posições polêmicas de Rosa, Diana citou a consigna da auto-determinação dos povos, à qual ela era contrária motivada por sua luta contra o nacionalismo polonês, mas que foi decisiva para que os trabalhadores russos conquistassem a confiança das nacionalidades oprimidas, como disse Trotski em sua “História da Revolução Russa”.

Diana Assunção ressaltou como o estudo das divergências, da evolução do pensamento de Rosa, de suas correções em relação a antigas posições, demonstravam a falsidade do mito criado após sua morte pelo stalinismo de que haveria um “luxemburguismo”, como uma tendência separada e oposta ao bolchevismo. Para reforçar isso, ressaltou uma passagem de Rosa sobre o Partido Bolchevique em que diz: “Tudo que, num momento histórico, um partido pode dar em termos de coragem, energia, perspicácia revolucionária e coerência, foi plenamente realizado por Lênin, Trotski e seus companheiros. Toda honra e capacidade de ação revolucionárias que faltaram à Social-Democracia ocidental encontravam-se nos bolcheviques”.

Por fim, Diana ressaltou como em determinados aspectos fundamentais, Rosa se adiantou aos dirigentes bolcheviques, como na percepção do obstáculo representado pela estrutura ossificada e conservadora do SPD, ou na convergência com Trotski nos aspectos fundamentais da teoria da revolução permanente antes que Lênin chegasse às mesmas conclusões.

Isabel Loureiro localizou, primeiramente, a biografia escrita por Frölich historicamente: tendo sido a primeira obra a tratar do ponto de vista biográfico sobre Rosa, e ainda carecendo de muitos documentos que só posteriormente vieram à tona, tais como sua correspondência, há muitas lacunas factuais que o livro não abrange. Dessa forma, reconhecendo o mérito de Frölich, Loureiro ressalta como via a publicação do livro como uma oportunidade para que se seguissem futuras publicações de outras biografias que pudessem ser complementares a esta.

Loureiro criticou o capítulo do livro que trata de características da personalidade de Rosa, dizendo que Frölich a retrata quase como uma “santa comunista”, e procurou situar ao público qual considera ser o motivo para isso, que seria uma tentativa de reabilitar Rosa frente à recepção negativa de suas ideias no Partido Comunista Alemão (KPD). Loureiro vê as raízes disso em um documento escrito por Lênin em 1922 chamado “Notas de um publicista”, em que critica Paul Levi, que havia publicado nesse ano de 1922 o texto de Rosa escrito durante sua prisão em que tratava da revolução russa de outubro de 1917, justamente aquela que havia sido dirigida pelo Partido Bolchevique de Lênin e Trotski. Loureiro ressalta as duras críticas de Lênin a Levi, e também os apontamentos que o dirigente bolchevique faz ao que considera cinco erros políticos importantes de Rosa: em relação à independência da Polônia; em relação à sua caracterização do menchevismo em 1903; na sua teoria da acumulação do capital; ao defender a unificação entre mencheviques e bolcheviques em 1914 e nas suas apreciações sobre a revolução russa nos escritos então publicados por Levi.

Assim, Loureiro ressaltou como que, com as críticas de Lênin de suas “Notas de um publicista” ele “preparou o terreno, naturalmente contra a vontade dele, para aquilo que mais tarde, depois do fracasso do outubro alemão de 1923, foi chamado de ‘luxemburguismo’”, que seria uma teoria mecanicista do colapso do capital com uma teoria espontaneísta das massas, como se Rosa não desse importância para a organização política. Ressaltando até que ponto iriam as críticas a esse “luxemburguismo”, Loureiro cita Ruth Fischer, dirigente do KPD, que falou sobre o “bacilo da sífilis luxemburguista” no partido. A partir de então, os defensores de Rosa foram classificados como “trotskistas” em um KPD já sob a égide do stalinismo.

A “bolchevização” consistiria então, explica Loureiro, em tomar como modelo a revolução russa e rechaçar qualquer coisa classificada pela direção burocrática como “luxemburguista” e “trotskista”. Em 1931, Stalin publica uma carta tratando dos “erros de Rosa Luxemburgo”, em que afirma que sempre que Rosa divergia de Lênin ela estava errada. A publicação das obras de Rosa Luxemburgo foi vetada por todos os partidos comunistas por quarenta anos.

As duas debatedoras reivindicaram a tradição do debate e da polêmica dentro da esquerda, da qual Rosa foi uma grande representante, e também elas expressaram suas divergências em relação à apreciação da revolucionária. Por exemplo, em relação aos escritos sobre a revolução russa, Diana cita o autor da biografia, Frölich, bem como Trotski, para reivindicar que a própria Rosa Luxemburgo teria revisto muitas de suas críticas e não desejaria publicar o manuscrito tal qual o havia escrito de dentro da prisão em 1918 – condição que teria tornado suas impressões sobre a revolução russa naquele momento muito parciais. A publicação, na visão de Diana apoiada nesses relatos, teria sido motivada por um desejo de vingança de Paul Levi. É dessa forma que Lênin aprecia também as motivações de Levi em seu documento de 1922.

Contudo, Diana apresentou uma visão que não estabelece a raiz da perseguição stalinista às ideias de Rosa no leninismo, mas sim na sua negação, o stalinismo. Para argumentar a continuidade entre bolchevismo e Rosa, cita a censura de Lênin ao KPD por não haver publicado as obras completas da revolucionária, e também a reivindicação de Trotski de que a IV Internacional, já nos anos trinta, se apoiasse “em três Ls: Lênin, Luxemburgo e Liebknecht”.

Já Loureiro afirmou ser equivocada a visão apresentada por Diana de que Rosa estaria em condições desfavoráveis para apreciar o conjunto da revolução russa em seu cárcere, dado que recebia jornais e todo tipo de informações do mundo exterior que a permitiriam saber muito bem o que acontecia na Rússia revolucionária. Para afirmar isso, se baseia em documentos recém-divulgados que atestam o recebimento de jornais etc.

Loureiro também enfatiza o que considera divergências fundamentais de Rosa em relação aos bolcheviques em relação à assembleia constituinte, ao terror vermelho e à concepção de partido leninista (oposição a que o partido fosse “uma seita”, como disse Loureiro).

Diana abordou essas questões, afirmando, por exemplo, que na revolução de 1918 se mostrou a mudança de posição de Rosa em relação à assembleia constituinte: se na revolução russa Rosa não havia percebido ainda que a constituinte passara a ser um foco de organização contrarrevolucionário em oposição à democracia dos conselhos (sovietes), na revolução alemã ela o viu claramente, e tomou partido dos conselhos contra a constituinte.

Outro aspecto fundamental colocado por Diana foi a importância de trazer para hoje o combate de Rosa contra o reformismo, o que significa atualmente se enfrentar com as direções sindicais e políticas que representam um entrave para os trabalhadores se enfrentarem com os ataques de Bolsonaro. A luta contra a burocracia sindical e as ilusões reformistas são fundamentais para os dias de hoje, e, como ressaltou Diana, este livro é um chamado à militância, um chamado a se organizar politicamente para as batalhas políticas de hoje.

Para conferir o debate completo, veja o vídeo abaixo:




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