Cultura

MÚSICA

Billie Holiday & “Strange Fruit”. Sobre uma biografia

Romero Venâncio

Aracajú (SE)

sexta-feira 26 de agosto| Edição do dia

É raro na história da música termos uma composição, um álbum ou um movimento musical que se destaca no tempo do seu compositor ou compositora e se torna uma referência para toda uma geração anos a fio. Uma composição para tamanha força é preciso enraizar-se numa causa ou situação que a faça está a altura daquele momento. Nietzsche via, num primeiro momento, a música de Richard Wagner como a encarnação de uma nova Alemanha e redimida de seu “anacrônico provincianismo”. Mudou em pouco tempo esta visão por perceber o equívoco e a posição de Wagner ter descambado para um antissemitismo e um reacionarismo sem tamanho. No fundo era aquele Alemanha sendo a Alemanha de sempre. Mas não deixa de ser relevante a leitura do filósofo alemão e de como uma música pode ter um papel determinante numa dada situação histórica. Th. Adorno viu na música de Schoenberg a radical renovação musical do Século XX e no seu “dodecafonismo” um sinal de que algo em arte não poderia ser captado pela lógica do sistema do capital. Uma música que se tornaria ela mesma anti-sistema. O filósofo alemão fazia desse “atonalismo” do compositor de Viena uma saída libertária para uma crescente degradação da música no início do Século XX. Vindo para as Américas, a canção e a vida de Mercedes Sosa embalou gerações inteiras no sono da “unidade latino americana” e no sentimento de pertença a um continente. Havia no ar uma esperança de transformação na América Latina... Organizações populares, guerrilhas, Che Guevara, Cuba, movimento camponês nas ruas, estudantes rebeldes, ressurgimento do movimento operário latino, teologia da libertação e tantas outras pequenas lutas que nos maravilhava enquanto povos que resistiam. A música de Sosa catalisava sentimentos e ações. Ainda merece destaque, pensando aqui no Brasil, a papel extraordinário desempenhado pelo álbum de Chico Science e a Nação Zumbi de 1994, intitulado: “Da lama ao caos”. Numa década marcada por Neoliberalismo, despolitização e crescente ódio às esquerdas e seu projeto, a música do compositor pernambucano era uma lufada de inteligência e compromisso político. Trazia de volta ao palco a “luta de classes” e todas as consequências históricas. Virou referência para toda uma geração juvenil desorientada por um violenta indústria cultural que assolava (e assola!) esse Brasil em transe.

Em 1939, a voz absoluta de Billie Holiday entoava uma canção mais que de protesto, um testemunho profético conta o preconceito racial. Tratava-se de “Strange Fruit” de Abel Meeropol:

“Árvores do sul dão uma estranha fruta
Folha ou raiz em sangue se banha:
Corpo negro balançando, lento:
Fruta pendendo de um galho ao vento”

Assim começa a música que faria história na luta pela causa negra nos EUA. Na época da música, o país da democracia era também o país de uma brutal discriminação racial. Esta pérola da música mundial seria cantada por uma série de interpretes, mas jamais seria superada pela gravação de Billie Holiday. Ficou como um marco na sua curta carreira. Mas a história dessa composição e da sua gravação em 1939 estava faltando. Temos agora em português um pequeno livro que conta esta história de maneira detalhada. O livro “Billie Holiday e a biografia de uma canção. Strange Fruit” é de autoria de David Margolick e foi publicado entre nós pela editora CosacNaify. Não é só a história de uma música, mas um testamento de uma época que pode ser sentido/entendido pela letra da música e pela voz marcante de Holiday. O texto violento tinha endereço certo, como disse o autor da letra: “Eu escrevi Strange fruit porque detesto linchamentos, detesto injustiça e detesto as pessoas que a perpetuam”.

“Eis uma fruta para que o vento suge,
Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue,
Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta,
Eis uma fruta estranha e amarga”.

Assim termina a canção… E segue a vida.




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